terça-feira, 26 de agosto de 2025

Carros Desaplicados

Quando viajo, tenho o hábito de andar de táxi. Em geral, são carros coloridos — como os “cabs” amarelos de Nova York — com que fazemos sinais com as mãos ou, às vezes, o pegamos em pontos fixos de muito movimento.

Como todo a economia é competitiva, surgiu uma nova modalidade de transporte: o carro por aplicativo, fruto da tecnologia e embutida no celular, que chega onde você está, traz o preço pré-definido e cobra automaticamente no cartão de crédito. Tenho vivido experiências surpreendentes ao utilizá-lo.

Ao contrário dos pequenos e elegante táxis pretos que circulam pelo Japão — com motoristas experientes vestindo terno preto e luvas brancas —, os inúmeros motoristas de carros de aplicativo surpreendem. Em sua maioria, trabalham para complementar a renda pessoal, não sendo a atividade principal. Seus carros não seguem um padrão, assim como a apresentação pessoal dos motoristas. A diversidade reina absoluta.

Pode ser bom, ou ruim. Agradar ou não. Essa nova atividade é exercida por quem não é profissional, e um aplicativo determina sua rotina. Cada embarque é uma experiência diferente: desde um veículo bem cuidado ou sujo, motorista atento, corredor de Fórmula 1, cantor, simpático ou arrogante, comediante e até curioso.

Em Aracaju, o motorista de um pequeno carro simples, em um percurso curto, assumiu o papel de guia turístico, exaltando sua cidade. Questionado sobre a segurança da região, foi certeiro: “aqui, só se comete crime uma vez; se houver a segunda vez, o cabra morre”. Para nossa sorte, assim que ele disse isso, estávamos chegando ao destino.

No aeroporto de Singapura, houve uma motorista bem simpática, com uma minivan preta — multi-purpose vehicle (mpv) —, bem cuidada, confortável, com portas e poltronas automáticas, parecendo a primeira classe de um avião. Fez questão de acomodar as malas dentro do veículo, perguntou sobre a preferência de música, sobre minha procedência e informou o tempo estimado até o hotel. Sentindo-me quase um rei, observei, confortavelmente, a rica vegetação da cidade.

Já em Houston, percebi a chegada do carro de aplicativo pelo som do motor antes de vê-lo. Ainda amanhecia, certamente ele despertou muitos vizinhos. Era uma picape RAM preta, cabine dupla, com rodas de aro cromado. O motorista, gentil e simpático, era um cara forte, barbudo, tatuado, vestia camisa preta e anéis prateados. Acomodou rapidamente as malas na caçamba e seguiu ao aeroporto. E adivinha que estilo de música tocava na picape? Rock. Ao saber que era do Brasil, sorriu e revelou que a brasileira Sepultura era sua banda favorita.

Quando viajar, considere utilizar os carros de aplicativo. Certamente você terá histórias interessantes para contar. 

 

Agosto 2025

Marcos A F Franco

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Da Sepultura ao Céu

             Fui a Houston para conhecer a NASA e acabei falando sobre sepulturas.

Algo me dizia que coisas diferentes e interessantes iriam acontecer. Na chegada a Houston, quando peguei minha mala na esteira, com uma das rodinhas quebradas, pensei: “só me faltava essa”, mas, como diz o ditado: “a males que vem para o bem”.

 Ao pegar o ônibus do aeroporto para o centro da cidade, percebi que só o motorista estava a bordo. Foi uma viagem particular em um imenso veículo, luxo total por apenas um dólar!

O hotel ficava ao lado da YMCA — Associação Cristã de Moços, entidade internacional, nascida em Londres, que tem por objetivo o desenvolvimento juvenil —, onde, em Santos, pratiquei basquete e teatro. Além de relembrar bons momentos do passado, pude fazer minha natação internacional de graça.

Mesmo debaixo de chuva, embarquei no VLT americano e fui conhecer o belo, bem concebido e bem cuidado Museu de Ciências Naturais. Lotado de crianças, conheci minerais de todo o mundo, inclusive do Brasil.

No café da manhã, aprendi a fazer waffles no hotel. Você enche um copo de 200 ml com a massa, à base de farinha e ovos, despeja em cima do ferro redondo xadrez, fecha, vira e pronto. Após dois minutos, é só derramar syrup, o mel canadense, e se deliciar com a fofura da massa. É comum em qualquer hotel americano e canadense.

Visitando a NASA, senti-me um astronauta em treinamento para o programa espacial. Vivi uma experiência de realidade virtual, como se estivesse a bordo de uma nave. Vi inúmeros veículos utilizados, inclusive para o pouso na lua, da época em que eu era criança. Lembrei, que em julho de 1969, assisti à televisão, em preto e branco, Neil Armstrong, parecendo um boneco, encapsulado em roupa especial, pulando lentamente no piso do satélite dos namorados.

De malas prontas para embarcar rumo ao próximo destino, chamei um Uber.  Ainda bem cedo, encostou uma picape RAM cabine dupla, de cor preta e com rodas cromadas, fazendo barulho como se fosse uma banda de rock, agitando a vizinhança.

O motorista, gentil e simpático, era um cara forte, barbudo, todo tatuado, usava camisa preta e anéis prateados. Ele acomodou rapidamente as malas na carroceria da picape e seguiu para o aeroporto. E adivinhe: que estilo de música tocava na picape? Claro, era rock. Assim que soube que era do Brasil, abriu um largo sorriso e confessou que a brasileira Sepultura era sua banda favorita.

Apesar do nome sombrio, sepultura, que remete ao solo, fez me sentir no céu. O motorista americano continuou a viagem relembrando sua passagem pelo Brasil.

Agosto 2025

Marcos A F Franco

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Até o Último Quilômetro

Mais um dia de caminhada juntos. Era o nosso costume: percorrer ruas planas, subir e descer escadas, acumulando quilômetros e histórias. Mas, naquele dia nublado em Vancouver, algo marcante transformaria definitivamente nossa relação.

Conheci meu companheiro de viagem em uma loja. Ele, bem estiloso, vestido em tons de salmão e branco, destacava-se ao lado de uma poltrona, quase como se me esperasse. Ao me aproximar, seus "argumentos" e sua atitude confiante me convenceram de que formaríamos uma sólida parceria — esportiva e social.

E foi exatamente isso que aconteceu. Juntos, exploramos cidades em diversos países. Visitamos castelos no Japão, caminhamos pela baía de Sydney, na Austrália, enfrentamos o calor sufocante de Singapura, pisamos nas areias das praias de Santos e suportamos o frio cortante do Alasca. Cada viagem tinha seu ritmo, seus cheiros, seus sons — e lá estávamos nós, lado a lado.

Ele me proporcionava segurança ao caminharmos por terrenos irregulares e escorregadios. Era firme, constante, confiável. Tornou-se um companheiro inseparável, nunca reclamando do frio, do calor ou da chuva. Sempre pronto para mais uma grande caminhada.

Às vezes, por distração minha, ele desaparecia. E lá ia eu, desesperado, procurar por cantos inusitados até reencontrá-lo. Outra peculiaridade: só tomava banho quando eu mandava — e mesmo assim, com protestos silenciosos e espuma preta.

Com o tempo, como acontece em toda parceria que se torna mais próxima, houve o desgaste natural. Ele começou a ficar folgado. As coisas já não se ajustavam tão bem como antes. Nossa relação foi enfrentando tropeços — literalmente. Ele já não caminhava com a mesma precisão, e uma pequena pedra no caminho era suficiente para abalar nosso equilíbrio.

Naquele fatídico dia em Vancouver, após um belo passeio — onde ele hesitou ao cruzar a ponte suspensa do Capilano, com seus 137 metros de extensão e 25 metros de altura, balançando sob nossos pés — tomei a difícil decisão: era hora de substituí-lo por outro par de tênis

Foram três anos de convivência intensa — quase que pele com pele. Deixei-o no canto do quarto do hotel, com a sola voltada para cima, como alguém de bruços, derrotado, chorando baixinho. Ficou ali, sozinho e triste, assim como eu. Na despedida, percebi que não era apenas um calçado que eu estava abandonando, mas uma fase bem percorrida da minha vida.

Agosto 2025

Marcos A F Franco

 

Bally, o Guia Polivalente de Banff

Lembro da primeira excursão que fiz. Foi em um dia chuvoso. Minha escola — adolescentes da turma do ginásio — foi visitar uma exposição de aviões na Embraer, em São José dos Campos, minha terra natal.

Os guias eram dois professores, que nos acompanhavam. Não sei dizer se todos gostaram mais da farra dentro do ônibus ou da exposição em si.

Pouco mais de 50 anos depois, agora em outro século, fiz a última excursão. Durante uma viagem à gelada cidade de Calgary, no Canadá, em um dia ensolarado, fui conhecer os belos lagos do Parque Nacional de Banff, a 130 quilômetros de distância. O micro-ônibus branco da excursão estava lotado, transportando 28 pessoas de vários países, além de Bally — o simpático guia turístico e motorista.

Ele aparentava ser de origem asiática e ter 40 anos. Bally, com seu olhar afiado, segurava seu celular, que parecia uma extensão de sua mão — era como um assistente presente e atento. Após rápida checagem e apresentações, ele fez uma preleção sobre segurança e compartilhou detalhes sobre a viagem.

Como recordação especial e não prevista neste passeio, ainda no início, e por questões de segurança da polícia canadense, nosso ônibus foi parado subitamente na autoestrada, quase na entrada da cidade de Kananaskis. Fomos sorteados para observar a passagem de 10 grandes carros pretos, acompanhados por batedores especiais, transportando os líderes mundiais do G7 para sua reunião anual.

Após o susto, seguimos nossa viagem e fomos surpreendidos por uma gravação de áudio sobre o Parque Nacional de Banff e nossa primeira parada. O parque está localizado na província de Alberta e tem muita influência indígena. Era a voz de Bally, mas não era ele quem falava, o que seria normal. No entanto, a mensagem se repetia em todos os idiomas dos passageiros do ônibus, incluindo seus nomes. Coisas da Inteligência Artificial. Senti-me em um carro com motorista particular.

Em nenhum momento o nosso competente guia falou enquanto dirigia, demonstrando cuidado com nossa segurança. Após as paradas em cada um dos 9 deslumbrantes lagos, ele transmitia pacientemente as orientações sobre segurança, trilhas e horários.

Percorremos aproximadamente 400 quilômetros em 13 horas, passando por autoestradas, estradas vicinais estreitas, subindo e descendo montanhas sinuosas e cobertas por neve, sem nenhum imprevisto. O cuidadoso Bally ainda ajudou uma senhora do grupo que, infelizmente, escorregou em uma pedra molhada e se machucou, batendo o seu rosto no chão. Ele a levou a um posto de atendimento médico, sem abalar o grupo e prejudicar o confortável passeio.

Antes de embarcarmos para o retorno, em um cenário cinematográfico, Bally reuniu o grupo para tirar a foto oficial, utilizando-se de um controle remoto para incluir-se na foto. Minutos depois, a foto estava salva nos celulares de cada turista.

Várias vezes ouvi comparações com o futebol de que pessoas competentes precisam saber cruzar e, ao mesmo tempo, cabecear a bola para dentro do gol. Bally é um desses profissionais, eficaz em sua profissão. Tinha resposta e solução para tudo e para todos.

Bally me proporcionou prazer de admirar e registrar em fotos, alguns lagos e paisagens deslumbrantes, como Lake Louise, Moraine, Peyto, Emerald, Bow, entre outros.

Ao final, todos, embora famintos, fomos recebidos em Calgary por uma garoa fina e gelada. Ainda assim, ninguém esqueceu da gorjeta extra para Bally.

Quem entende as necessidades dos clientes e se dedica a oferecer o melhor, é capaz de realizar feitos extraordinários e, ainda por cima, aumentar seu faturamento.


Agosto 2025

Marcos A F Franco

Publicada no Jornal A Tribuna de Santos em 29/10/2025

 

Homem do Charuto

Era mais um dia de viagem a passeio pelos Estados Unidos. Desta vez, rumo a Anchorage, a gelada capital do Alasca. Saí do hotel e embarquei no metrô de superfície, que me levou direto ao aeroporto. Pude me despedir da linda e acolhedora Seattle, com um sol matutino aquecendo o caminho sinuoso, enquanto minhas vistas contemplavam, pequenos bairros com paisagens verdes e floridas.

 O check-in hoje é quase uma conversa com máquinas. Jovens parecem se entender melhor com elas. Em seguida, encarei a longa — e até divertida — fila da revista pessoal. Cães farejadores circulavam atentos, em busca de líquidos e objetos proibidos. Além do casaco, é preciso tirar os sapatos e qualquer coisa de metal. Se o detector apita, você vira alvo de olhares desconfiados e se sente, por um instante, um estranho transgressor.

Depois, começa a torcida: que o voo saia no horário. Não foi o caso. O jeito foi se distrair com um café, um lanche e, principalmente, observar os tipos curiosos que povoam as salas de embarque — todos com o mesmo destino e a mesma ansiedade.

Quando o voo foi anunciado, formou-se a fila. Já dentro da aeronave, acomodei-me tranquilamente e fiquei observando os passageiros que passavam pelo corredor. Uns carregavam volumes demais, outros quase nada. E então apareceu ele.

Um senhor de estatura média, aparentando uns 65 anos. Cabelos despenteados, barba por fazer, expressão fechada. Parou na fileira à frente da minha, e com certa dificuldade, acomodou suas malas no bagageiro superior.

Mas o que me chamou atenção foi o charuto. Apagado, firme entre os lábios. Pensei: “Deve ter apagado antes de embarcar.” Mas não. Sentou-se ao lado da janela e manteve o charuto ali. O avião decolou, e ele continuou com o charuto na boca. “Será que vai esperar atingir a altitude de cruzeiro para acendê-lo?” — pensei. Mas não pode. “Será que está colado?”

Quatro horas se passaram, com o charuto imóvel, como se fizesse parte dele. Talvez fosse de plástico. Ou talvez fosse resistente o suficiente para não se desfazer com a saliva. Mas o que importa é que ele não o tirou. Nem uma vez.

Ele continuava calado. O charuto, apagado e imóvel, repousava entre seus lábios como um ponto final que nunca vinha. Os olhos, semicerrados, pareciam contemplar um pensamento que ninguém podia alcançar.

E quando o avião pousou, ele se levantou, ajeitou o paletó, pegou sua mala e saiu sem dizer nada. O charuto ainda em sua boca, como se fosse parte dele. Como se fosse ele. Um mistério que cruzou os céus comigo e ainda permanece.

 Agosto 2025

Marcos A F Franco

Ilha dos Deuses

Sempre tive curiosidade em conhecer Bali.

Recentemente, visitei essa vibrante ilha da Indonésia, repleta de cultura e espiritualidade. Ainda no voo, ao me aproximar do destino, avistei os seus 5,6 mil quilômetros quadrados de extensão — o dobro da área da Baixada Santista, em São Paulo. Seu formato lembra a de um simpático pacu verde, brincando em pleno Oceano Índico.

Suas praias são paradisíacas — desde aquelas de longas faixas de areia branca até as que exibem morros e pedras de formações vulcânicas, esculpidas pela natureza exibindo verdadeiras obras de artes. Além de milhares de turistas que viajam longas distâncias para aproveitar esse paraíso, surfistas do mundo todo deslizam sobre suas ondas verdes e azuis, como se estivessem em perfeita sintonia com o mar, fazendo parecer uma conversa amigável entre ambos.

A vegetação das montanhas é exuberante, repleta de árvores frutíferas, como mangueiras, bananeiras, goiabeiras, jaqueiras, coqueiro e palmeiras de palmito. Seus habitantes cuidam carinhosamente das árvores e flores, com destaque para os hibiscos, frangipanis, orquídeas e outras espécies coloridas, cultivadas e utilizadas frequentemente em oferendas religiosas.

Um dos cartões-postais de Bali são os terraços de arroz, parte essencial da paisagem da ilha. Eles são mantidos por meio do sistema de irrigação tradicional chamado Subak, reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO. Esse sistema utiliza canais, túneis e represas para distribuir a água das montanhas até os arrozais, garantindo uma irrigação eficiente e sustentável. Sua administração é coletiva, sendo gerida por cooperativas formadas pelos agricultores locais.

Cheguei a Bali pelo aeroporto de Denpasar, localizado na cidade de mesmo nome, a maior da ilha, com densidade populacional de 736 habitantes por quilômetro quadrado. Com seus 3 milhões de habitantes, a cidade pulsa intensamente, como se fosse a corrente sanguínea da ilha, conduzindo o oxigênio da paz por todos os cantos.

A caminho do hotel, de dentro do automóvel, contemplei as centenas de árvores, plantas e flores que acalmam e protegem os motoristas do intenso sol. Em meio ao tráfego disputado por incontáveis pequenos carros e motocicletas, a vegetação oferece sombra e frescor. As ruas são estreitas, sinuosas, bem arborizadas, com pequenas elevações e trechos irregulares.

Mais do que a beleza natural da ilha, a simpatia dos balineses é uma de suas características mais marcantes. Em qualquer interação, estão sempre presentes o sorriso e o gesto hindu de inclinar a cabeça com as mãos unidas em sinal de respeito. São pessoas simples e humildes.

Bali também é conhecida como a “Ilha dos Mil Templos”, ela abriga cerca de vinte mil templos espalhados por toda a região. O hinduísmo predomina entre noventa por cento da população e se manifesta de uma forma visível no dia a dia, especialmente nas oferendas diárias, que podem ser feitas em qualquer local — calçadas, portas de lojas ou dentro de casa. As oferendas deixadas no chão têm a função de afastar os espíritos ruins. Portanto, o melhor é não as incomodar.

São pequenas cestas quadradas feitas de folhas de coqueiro, repletas de flores acompanhadas de uma variedade de oferendas para os deuses, sempre cobertas por um único incenso fumegante. Em sua simplicidade, essas oferendas modestas, mas delicadamente elaboradas, simbolizam a fusão única do hinduísmo de Bali.

De modo geral, as oferendas de comida e bebida aos deuses visam apaziguá-los, agradecê-los e/ou pedir pela manutenção da ordem e prosperidade em vida.

Assim que cheguei ao hotel e contemplava um maravilhoso pôr do sol, no topo de um penhasco — um contraste entre o mar azul e os diversos tons de amarelo de um imenso sol — fui surpreendido por uma grande onda que ousou me cobrir, se misturando à bebida do meu copo e, naturalmente, molhando toda minha roupa. Foi uma saudação especial e refrescante.

É preciso tempo para vivenciar a presença dos deuses que habitam cada canto desse paraíso, cuidadosamente preservado pelos balineses.


Fevereiro 2025

Marcos A F Franco
 

Turista Tropical em Terras Glaciais

O vento gelado tocava insistentemente meu rosto — a única parte desprotegida do meu corpo — na inóspita terra dos salmões, ursos e baleias. Um terrível desafio para um turista tropical e idoso: sobreviver às montanhas congeladas, em pleno verão do Alasca.

Desta vez, viajei literalmente dentro de um cartão postal!

Apesar das inúmeras dificuldades e condições extremas, o 49º estado americano, com seus 750 mil habitantes, extrai petróleo, prata e ouro de suas terras, e mantém uma forte indústria de pesca e turismo.

O sol me recebeu assim que desembarquei em Anchorage, a maior cidade do Alasca. Aliás, ele — o sol — extremamente vaidoso, aparece por cerca de 18 horas diárias no verão. Já a noite, insiste em não desaparecer por completo, deixando uma pequena fresta, como que para não ser esquecido.

É impossível não avistar montanhas em qualquer parte do Alasca. A grande maioria delas está envolta em neve e gelo. Andando de trem, ao redor dessas formações é como estar entre grandes sorvetes.

A sinuosa ferrovia Alaska Railroad se estende por quase 800 quilômetros. Em cinco horas, percorri 200 km de trem, contornando geleiras, margeando o mar, atravessando túneis, fotografando animais, pássaros, pedras e pequenas comunidades em meio à natureza selvagem. Algo bem diferente de nosso cotidiano — e, ao mesmo tempo, encantador.

Em Seward, pequena cidade e porto turístico, pude ver um cenário cinematográfico. Admirei uma marina de barcos com montanhas ao fundo, do outro lado do braço de mar, enquanto o sol tentava derreter a neve sobre elas.

No dia seguinte, já a bordo de um navio de cruzeiro, o sol foi descansar. Por 24 horas, os deuses daquele mar decidiram balançar nosso navio e obstruir nossa visão com chuva e neblina. Dali em diante, fomos premiados com milhares de imagens deslumbrantes, navegando por centenas de fiordes. Por mais que o cenário se repetisse, ele nunca era igual. A cada minuto, o navegar do navio proporcionava um novo ângulo das montanhas geladas.

Diariamente, um novo porto nos era apresentado: passamos por Juneau, a capital, Skagway e Ketchikan, até chegar à maravilhosa Vancouver. Cada pequena cidade, preservada em seus estilos originais de séculos atrás, oferecia atrações desde passeios de aventura, churrasco de salmão, observação de baleias e ursos, voos de hidroavião, trilhas, teleférico para subir montanhas e lojas de roupas típicas, pedras preciosas e joias.

Visitando uma pequena loja de artesanato, o simpático senhor proprietário, ao ver o gorro e casaco que eu vestia, disse ironicamente para eu não me preocupar — mais tarde faria muito calor. A temperatura chegaria a 13 graus. E acredite: zero grau, para os nativos, é motivo de festa e de andarem pelas ruas sem camisa.

Ao final, pisando em terras firmes canadenses, trouxe gravadas em minha mente magníficas paisagens — e, no corpo, uma forte gripe que insistiu em me acompanhar por cinco longos dias.

Agosto 2025

Marcos A F Franco


Doha Além da Riqueza

A riqueza de Doha vai além do valor material.

Dois fatos incomuns para turistas marcaram a minha rápida passagem nessa deslumbrante capital do Oriente. A cidade, com pouco mais de 1,5 milhão de cataris, que foi sede da Copa do Mundo de Futebol em 2022, demonstrou seu respeito e carinho pelos visitantes.

A caminho do Qanat Quartier, a “Veneza do Qatar” — um bairro da Pérola, como é conhecida a ilha artificial em Doha — fomos surpreendidos e recolhidos por duas mulheres em um carro de luxo.  Nesse lugar, o romantismo e o charme venezianos se encontram a sofisticação árabe. Com prédios baixos em tons pastel, canais que se fundem ao Golfo Pérsico e belas pontes, o cenário é complementado por lojas, restaurantes e cafés encantadores.

As duas mulheres nos encontraram perdidos e sozinhos em uma grande praça próxima à estação de metrô onde havíamos descido, convictos de que estávamos bem perto da Pérola. Quando se aproximaram, envoltas em suas vestes pretas, ficamos apreensivos. No entanto, a gentileza das duas logo nos tranquilizou, e acabamos aceitando a carona que nos levaria para o nosso destino.

 Não é comum que alguém suporte o sol escaldante das arábias naquela hora do dia. O calor pode derreter qualquer um, chegando a 47 graus Celsius durante o dia. Naturalmente, elas perceberam os turistas anciões, carregando uma mochila, molhados de suor e examinando um mapa turístico. Com sorrisos gentis, as duas jovens nos salvaram.

Tudo em Doha é suntuoso, começando pelo seu aeroporto, um hub que une o Ocidente e Oriente com centenas de conexões. Os oito estádios de futebol, verdadeiras obras-primas da arquitetura, são interligados por uma nova e eficiente rede de metrôs, que esbanja conforto e grandiosidade. Os museus — Nacional e o de Arte Islâmica — impressionam tanto pela arquitetura moderna quanto pelo rico conteúdo.

Além dos magníficos prédios, dos barcos de pesca, do transporte público e dos imensos shoppings, a população se resguarda do sol durante o dia e toma as ruas à noite. Os homens, em sua maioria, vestem o Thobe — a tradicional túnica branca comprida — acompanhado da Ghutra, o lenço branco na cabeça, preso pelo Igal, uma corda que o mantém preso na cabeça.

A maioria da população percorre o antigo mercado Souq Waqif, com suas ruas sinuosas e lojas vibrantes. É o lugar perfeito para viver a tradicional cultura árabe. O mercado oferece uma grande variedade de produtos, incluindo especiarias, perfumes, tecidos e artesanato.

O Souq Waqif também oferece casas de chás e restaurantes imperdíveis, com o melhor da gastronomia local. Em nossa última noite, após degustarmos um quibe especial, percebi ao pagar a conta que o serviço não havia sido cobrado. O atendimento, impecável, foi realizado por um garçom muito simpático. Ao questioná-lo, ele explicou que a gorjeta não fazia parte da cobrança. Insisti em pagá-lo a parte, mas, para minha surpresa, ele recusou educadamente, dizendo que não poderia aceitar.

 Saímos do restaurante decepcionados por não podermos compensá-lo pelo seu excelente atendimento, mas, ao mesmo tempo, surpresos e tranquilos diante da idoneidade demonstrada. Cada cultura tem seus costumes, e cabe, a nós respeitarmos. 

Setembro 2024

Marcos A F Franco
 

Cego, Surdo e Bem-casado

Enquanto caminhava na esteira da academia, ouvi de um personal trainer uma afirmação curiosa: “O casamento afeta os sentidos, especialmente ...