quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Até o Último Quilômetro

Mais um dia de caminhada juntos. Era o nosso costume: percorrer ruas planas, subir e descer escadas, acumulando quilômetros e histórias. Mas, naquele dia nublado em Vancouver, algo marcante transformaria definitivamente nossa relação.

Conheci meu companheiro de viagem em uma loja. Ele, bem estiloso, vestido em tons de salmão e branco, destacava-se ao lado de uma poltrona, quase como se me esperasse. Ao me aproximar, seus "argumentos" e sua atitude confiante me convenceram de que formaríamos uma sólida parceria — esportiva e social.

E foi exatamente isso que aconteceu. Juntos, exploramos cidades em diversos países. Visitamos castelos no Japão, caminhamos pela baía de Sydney, na Austrália, enfrentamos o calor sufocante de Singapura, pisamos nas areias das praias de Santos e suportamos o frio cortante do Alasca. Cada viagem tinha seu ritmo, seus cheiros, seus sons — e lá estávamos nós, lado a lado.

Ele me proporcionava segurança ao caminharmos por terrenos irregulares e escorregadios. Era firme, constante, confiável. Tornou-se um companheiro inseparável, nunca reclamando do frio, do calor ou da chuva. Sempre pronto para mais uma grande caminhada.

Às vezes, por distração minha, ele desaparecia. E lá ia eu, desesperado, procurar por cantos inusitados até reencontrá-lo. Outra peculiaridade: só tomava banho quando eu mandava — e mesmo assim, com protestos silenciosos e espuma preta.

Com o tempo, como acontece em toda parceria que se torna mais próxima, houve o desgaste natural. Ele começou a ficar folgado. As coisas já não se ajustavam tão bem como antes. Nossa relação foi enfrentando tropeços — literalmente. Ele já não caminhava com a mesma precisão, e uma pequena pedra no caminho era suficiente para abalar nosso equilíbrio.

Naquele fatídico dia em Vancouver, após um belo passeio — onde ele hesitou ao cruzar a ponte suspensa do Capilano, com seus 137 metros de extensão e 25 metros de altura, balançando sob nossos pés — tomei a difícil decisão: era hora de substituí-lo por outro par de tênis

Foram três anos de convivência intensa — quase que pele com pele. Deixei-o no canto do quarto do hotel, com a sola voltada para cima, como alguém de bruços, derrotado, chorando baixinho. Ficou ali, sozinho e triste, assim como eu. Na despedida, percebi que não era apenas um calçado que eu estava abandonando, mas uma fase bem percorrida da minha vida.

Agosto 2025

Marcos A F Franco

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Cego, Surdo e Bem-casado

Enquanto caminhava na esteira da academia, ouvi de um personal trainer uma afirmação curiosa: “O casamento afeta os sentidos, especialmente ...