Mais um dia
de caminhada juntos. Era o nosso costume: percorrer ruas planas, subir e descer
escadas, acumulando quilômetros e histórias. Mas, naquele dia nublado em
Vancouver, algo marcante transformaria definitivamente nossa relação.
Conheci meu
companheiro de viagem em uma loja. Ele, bem estiloso, vestido em tons de salmão
e branco, destacava-se ao lado de uma poltrona, quase como se me esperasse. Ao
me aproximar, seus "argumentos" e sua atitude confiante me
convenceram de que formaríamos uma sólida parceria — esportiva e social.
E foi
exatamente isso que aconteceu. Juntos, exploramos cidades em diversos países.
Visitamos castelos no Japão, caminhamos pela baía de Sydney, na Austrália,
enfrentamos o calor sufocante de Singapura, pisamos nas areias das praias de
Santos e suportamos o frio cortante do Alasca. Cada viagem tinha seu ritmo,
seus cheiros, seus sons — e lá estávamos nós, lado a lado.
Ele me
proporcionava segurança ao caminharmos por terrenos irregulares e
escorregadios. Era firme, constante, confiável. Tornou-se um companheiro
inseparável, nunca reclamando do frio, do calor ou da chuva. Sempre pronto para
mais uma grande caminhada.
Às vezes,
por distração minha, ele desaparecia. E lá ia eu, desesperado, procurar por
cantos inusitados até reencontrá-lo. Outra peculiaridade: só tomava banho
quando eu mandava — e mesmo assim, com protestos silenciosos e espuma preta.
Com o
tempo, como acontece em toda parceria que se torna mais próxima, houve o
desgaste natural. Ele começou a ficar folgado. As coisas já não se ajustavam
tão bem como antes. Nossa relação foi enfrentando tropeços — literalmente. Ele
já não caminhava com a mesma precisão, e uma pequena pedra no caminho era
suficiente para abalar nosso equilíbrio.
Naquele
fatídico dia em Vancouver, após um belo passeio — onde ele hesitou ao cruzar a
ponte suspensa do Capilano, com seus 137 metros de extensão e 25 metros de
altura, balançando sob nossos pés — tomei a difícil decisão: era hora de
substituí-lo por outro par de tênis
Foram três
anos de convivência intensa — quase que pele com pele. Deixei-o no canto do
quarto do hotel, com a sola voltada para cima, como alguém de bruços,
derrotado, chorando baixinho. Ficou ali, sozinho e triste, assim como eu. Na
despedida, percebi que não era apenas um calçado que eu estava abandonando, mas
uma fase bem percorrida da minha vida.
Agosto 2025
Marcos A F Franco

Nenhum comentário:
Postar um comentário