quarta-feira, 12 de junho de 2024

Netinho guloso

Netos já nascem com um chip especial. É interessante como de geração para geração há uma evolução desses adoráveis pequeninos seres. Hoje, eles saem do ventre de suas mães com um celular na mão. Você pode não enxergar o aparelho, mas eles já sabem pilotá-lo.

Os avós se assustam e ao mesmo tempo se divertem com o que esses espertos netinhos e netinhas com pouca idade, ainda em suas fraldas, são capazes de fazer e falar.

Eu tenho uma história interessante, quando eu e a vovó do Gabriel fomos para casa dele, em São Paulo, passar o dia para que os seus papais pudessem trabalhar.

O Gabriel tinha quase 3 anos de idade, um pirralhinho, ainda filho único, reinava altivo com um olhar astuto, comandando os avós com comentários curtos e certeiros.

Comportando-se como um príncipe em formação, tinha a Sil, a babá, como sua cuidadora ferrenha.

Brincando, passeando, vendo filmes, tomando banho ou dormindo a avó acompanhava toda a rotina do pequeno, com sugestões como se fosse uma Chef adicionando temperos nos preparos dos pratos.

O nosso príncipe, ouvia, brincava, tornava a ouvir e a observar desferindo os seus olhares de aprovações e reprovações.

Na hora do jantar, após um belo banho tomado junto com os seus brinquedos, o nosso anjinho chegou cheiroso e se sentou em seu pequeno trono: o cadeirão da papinha. Este, todo branco, alto, com uma mesa na frente dele.

O Gabriel sempre foi autônomo. Comia sozinho com sua pequena colher. Sua vassala, a Sil, trouxe o prato do jantar que escondia o seu desenho, devido a quantidade generosa de comida dentro dele. A refeição elaborada exclusivamente para o nosso príncipe produzia um aroma instigante. De cima do seu trono, instalado na sala, ele controlava toda a situação: o avô lendo um livro, a avó assistindo a TV e contemplava até o pôr do sol que insistia em entrar pela janela.

O aroma provocante para os famintos, rapidamente, chegou ao nariz da vovó Adela. Imediatamente ela foi de encontro ao trono do pequeno comensal. Pediu para que ele lhe desse um pouco dela, mencionando que devia estar deliciosa. Ele, levantou a sua cabeça e com um olhar decidido em direção a ela, disparou: — Vai jantar na sua casa. Em seguida olhou para comida, pegou mais uma colherada. Depois a levou na boca e olhou de rabo de olho para a vovó, fazendo uma discreta provocação. Ela, insistiu em pedir, mas não teve sucesso. Teve que ir à cozinha fazer o seu prato.

De volta para a sala, ela o viu terminar a sua missão, deixando o prato limpinho, aparecendo todo o desenho em seu fundo. Ele, com a barriguinha cheia, não se deu ao trabalho de olhar para a desapontada vovó, levantando os seus braços em direção a Sil, para que ela o retirasse do cadeirão.

Netinhos novos são uns amores, engraçadinhos, surpreendentes, mas seus instintos de sobrevivência falam mais alto, quando ameaçados. 

Marcos A F Franco

Fev 2024

 

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