segunda-feira, 27 de julho de 2026

A um Palmo do Trem

Em uma época em que os trens modernos e rápidos dominam o mundo, ainda existem os antigos, que despertam curiosidade e causam adrenalina em nossos corpos.

Andando pelas ruas e vielas da populosa Hanói, deparei-me com um trem especial. Uma das ruas por onde ele trafega ficou mundialmente conhecida como Train Street. Localizada no centro velho da capital vietnamita, Old Quarter, o bairro mais frequentado pelos turistas. Lá, anda-se literalmente pelas ruas, pois as calçadas são usadas para estacionar motocas e expor os artigos do comércio.

As residências estreitas e os pontos comerciais da Rua do Trem foram crescendo após a implantação da linha férrea, construída no início do século XX, durante a época colonial francesa. Essa ferrovia foi projetada para o transporte de passageiros e mercadorias, tendo sofrido danos na Guerra do Vietnã.

Sem prever que os futuros trens seriam mais largos, as centenas de construções, hoje pequenos prédios estreitos, se parecem mais como muros habitados, por ficarem a poucos centímetros da linha férrea. Em cima dos trilhos, no alto, os moradores de ambos os lados, mantêm toldos estilizados cobrindo a extensão do trajeto, e ostentam orgulhosamente a bandeira do país: vermelha estampada com uma grande estrela amarela.

Jovens vietnamitas, próximos à rua, abordavam os turistas avisando o momento em que o trem passaria e os atraíam para os cafés, bares e lanchonetes que mantêm suas pequenas mesas e cadeiras beirando a linha do trem. Um instante agradável para ignorar o calor úmido, acalmar a tensão, observar mercadorias do comércio expostas no meio dos trilhos e aguardar a chegada da estrela do espetáculo.

A ansiedade era grande: meus ombros se enrijeceram, a respiração encurtou, mas os nativos foram rápidos. Quando o trem se aproximava, recolheram o que estava sobre a linha e puxaram as mesas, enquanto os trilhos tremiam sob meus pés.

Confesso que fiquei tenso apertando a máquina fotográfica. Sensação de que o trem iria esbarrar em qualquer coisa nas laterais do percurso. As pessoas se espremiam nos poucos centímetros entre o trem e as paredes. Um ranger de ferro crescia. Tentei dar um passo para trás sem perceber que não havia para onde recuar.

Quando aquela locomotiva imensa apareceu, o ruído ocupou meu corpo inteiro.  Por alguns segundos, só existiam ferro, vento e parede.

Depois que ele passou, tudo retornou ao lugar: mesas, cadeiras, mercadorias, turistas e moradores. A rua recompôs sua rotina como se o susto fizesse parte do mobiliário. Ninguém embarcou naquele trem; embarcou apenas na breve vertigem de vê-lo passar a um palmo do rosto.

Julho 2026, Marcos A F Franco

 

Nas veias de Hanói

Hanói guarda segredos milenares em suas veias pulsantes. A cidade respira como um corpo vivo onde o sangue do comércio e da gente corre sem parar.

Ao visitar a cidade dos lagos, senti-me lançado ao centro do caos. Eram milhões de motocas bailando nas ruas estreitas, quase sempre sem semáforos, nos cruzamentos. Sob o sol escaldante, carregavam de tudo e substituíam caminhões e pick-ups com uma agilidade espantosa. Passei a acreditar que ali morava São Rafael de Arcanjo, protetor dos motociclistas. Elas são tão importantes que as calçadas parecem destinadas a elas, enquanto os pedestres disputam com os carros o leito das ruas.

Caminhando pela capital do Vietnã, segundo maior produtor de café do mundo, fui atraído por um aroma acastanhado que me despertou a curiosidade. À medida que subia uma escada estreita, o perfume se adensava. Ali descobri o famoso café com ovo, invenção nascida da escassez de leite durante a guerra da Indochina. Quente ou gelado, a consistência lembra um creme denso e transforma o amargor do café em doçura. O lugar conserva os móveis pequenos de sua fundação e se tornou um ponto turístico imperdível.

Em cada canto da cidade, senti a presença do espírito de Ho Chi Minh, ex-presidente do país, morto em 1969 e venerado por grande parte dos vietnamitas. Ao trocar dinheiro, recebi as notas de dong estampadas com o rosto do grande herói nacional. Revolucionário, político, escritor, poeta, jornalista e o líder da unificação do país. Ele permanece presente no cotidiano e na memória do Vietnã. Seu corpo embalsamado com perfeição, recebe diariamente milhares de visitantes em seu mausoléu fortemente vigiado.

O famoso chapéu Non Lá, em formato de cone e feito por folhas de palmeira e bambu, circula aos milhares pelas cabeças de trabalhadores rurais e urbanos. Conta a lenda que, em um dia de muita tempestade furiosa, uma mulher gigante desceu dos céus trazendo um Non Lá enorme para proteger a população.

Em Hanói, o chão é severamente respeitado e valorizado. Como historicamente se instituiu um imposto por fachada e a densidade demográfica não parou de crescer, as construções buscaram o céu: são as chamadas casas tubulares, em que cada andar costuma abrigar um cômodo. Muitas reservam o térreo para o comércio da família.

A bandeira do Vietnã, refletida pelo sol no Lago Hoan Kiem, no centro de Hanói, simboliza muito mais que um tecido. O vermelho evoca o sangue derramado por um país livre e unificado, enquanto a estrela amarela de cinco pontas representa a presença de cinco classes sociais. Quase todas as residências ostentam esse símbolo nacional.

Embora o Vietnã tenha sofrido com uma guerra terrível, encontrei um país de 90 milhões de pessoas pujante, alegre, seguro e receptivo. Também me marcou sua gastronomia: simples ou sofisticada, mas sempre saborosa.

Hanói, apesar de tantas cicatrizes, aprendeu a seguir em frente sem perder a delicadeza. 

Julho 2026, Marcos A F Franco

 

O Afeto que cheira fubá

Em meio a uma grande recepção anual de uma importante entidade mundial, reencontrei Encarnacion — uma amiga que o destino nos apresentou há dezesseis anos. Tivemos um ano rico e bem próximo liderando pessoas para transformar vidas. Na época, ela e seu companheiro, Mazza, nos receberam na cidade de São Caetano do Sul, com chá, café, quitutes e dois bolos de fubá, feitos por suas mãos.

Assim que Encarnacion percebeu que eu havia sido atraído pelo aroma marcante e quentinho dos bolos, separou um deles e me presenteou na hora de ir embora. Depois, quando confidenciei que ela havia descoberto meu ponto fraco, prometeu fazer sempre que eu pedisse. Um mimo que só minha mãe, caipira da gema do interior de São Paulo, costumava preparar.

Talvez eu goste tanto desse bolo porque ele é parte da minha vida e da memória do Brasil. O fubá — milho seco bem moído — significa “farinha” no idioma africano quimbundo, de Angola. Sua história é um verdadeiro caldeirão cultural, resultado da tradição indígena no cultivo do milho, cuja raiz social mistura três matrizes: indígena, africana e portuguesa.

Na culinária, o bolo de fubá conquistou muitos glutões e ganhou variações como o cremoso, o com goiabada, o com erva-doce, entre outras. Mas minha preferência continua sendo o bolo de fubá raiz, bem fofinho, com a cara da roça do interior e, se possível, acompanhado de um café coado, passado na hora. Ambos os aromas misturados formam uma dupla muito desejada.

Já saboreei centenas de bolos de fubá. Entretanto, naquele dia, em que me reencontrei com Encarnacion, ao abraçá-la, não resisti e perguntei sobre o nosso ponto em comum, só para puxar uma prosa. Ela, sem titubear, pediu um instante e, para minha surpresa e alegria, em plena festa repleta de salgadinhos, refrigerantes e whisky, me entregou um bolo de fubá feito com o carinho do tamanho do seu imenso coração.

Naquele instante, compreendi que o bolo era apenas um pretexto. Ela havia levado a lembrança de momentos especiais.  Em meio ao barulho, às luzes e às conversas apressadas, aquele gesto simples destoava — era íntimo, silencioso, quase tímido, mas carregava uma força que nenhuma taça de whisky poderia igualar. Enquanto todos celebravam o momento presente, ela celebrava a memória e a amizade.

O bolo estava ali deslocado, acanhado, esperando que eu aparecesse.

Após dezesseis anos, sem saber se me encontraria, seu gesto delicado e seu sorriso largo, me emocionaram profundamente. Senti meu corpo ser invadido por inúmeras lembranças. Não contive as lágrimas. Foi um momento de felicidade pura, produzido pela delicadeza de uma pessoa especial que transforma lembranças em afeto. Um presente especialíssimo que me remeteu à infância, à minha família, e me fez flutuar por alguns segundos.

Maio 2026, Marcos A F Franco

 

Olhos puxados que tocam o coração

A Ásia oferece algo a mais do que consta em folhetos de viagem. Vai além de experiências que tocam em nossos sentidos básicos, como aventuras especiais, o exotismo das paisagens, o perfume das especiarias e o conforto do luxo. É algo que toca os afetos.

Ainda que a língua, a religião e a cultura sejam diferentes das nossas, o respeito ao intruso curioso é excepcional. Em minha viagem pelo continente do arroz, encontrei mais do que imaginava. Não foi o sol nascendo, nem as montanhas refletidas nos mares azuis. Não foram os edifícios que desafiam o céu, os carros inteligentes, os palácios centenários ou os budas monumentais. Foi uma sensação de retorno ao útero: protegido, aquecido e cuidado.

As pessoas se esforçavam para me compreender, como quem tenta decifrar um enigma com delicadeza. Pareciam velhos amigos. Alguns se assustavam com a barreira da língua, mas não perdiam o sorriso; outros chamavam reforços para me ajudar.

Em Kaohsiung, Taiwan, cidade portuária de quase três milhões de almas, fui recebido na porta de um banco como se fosse rei. O recepcionista, solícito, guiou-me até o setor de câmbio, onde aguardei sentado, envolto por um silêncio tão suave que até a copiadora parecia falar baixo. Ao final, com o dinheiro nas mãos, ouvi um “xièxiè” que soou como bênção.

Carregando malas, a caminho do aeroporto de Taipei, desci do trem-bala. Um casal local, também com o mesmo objetivo, percebeu minha hesitação e, com naturalidade, nos acompanhou até a estação correta. Entre gestos e improvisos linguísticos, assistimos no celular ao show do pequeno saxofonista da família, o filho de 12 anos que os acompanhava. Ficamos íntimos sem perceber. O tempo passou rápido.

Em cada escala, em cada dúvida, surgia um anjo de olhos puxados. Até a garçonete correu para me atender.

Em Seul, numa lanchonete, perfumada de pães e doces franceses, fiz um pedido errado: o chá veio quente, não gelado. Uma senhora coreana, que não trabalhava ali, notou minha trapalhada. Minutos depois, pousou em minha mesa um copo cheio de gelo, como quem oferece um gesto simples capaz de iluminar o dia.

No trânsito, o respeito é quase uma coreografia. Mesmo em Hanói, onde milhões de motocas disputam espaços com poucos semáforos, elas se cruzam sem se tocar, como malabaristas disciplinados. O som dos motores vence o das buzinas. Não vi acidentes, nem discussões.

Gentileza e cortesia foram o que mais me marcou nesses trinta dias de mergulho asiático. A simplicidade convive com o luxo sem conflito. Foi um panorama diferente que nos obriga a refletir sobre a evolução que a educação é capaz de produzir. É um sentimento que toca a alma, aquece o coração e deixa saudade.

Julho 2026, Marcos A F Franco

Frei Gaspar e a Memória do Litoral Paulista nos 70 anos da ASL

Em junho, a Academia Santista de Letras — Casa de Martins Fontes — celebra 70 anos de existência espargindo luzes da literatura na região. Pouco mais de cem confreiras e confrades, representando quarenta patronos ilustres, revezaram-se nesse período produzindo textos, livros e trabalhos para manter vivos seus ideais — imortais.

Tive a felicidade de ser eleito para a cadeira de Frei Gaspar da Madre de Deus, o que me fez mergulhar nesse universo infinito e constatar a importância da literatura para a humanidade. Sou um grão de areia ativo tentando dar visibilidade à sociedade de trabalhos do quilate de pessoas especiais como Martins Fontes, Vicente de Carvalho, José Bonifácio, Afonso Schmidt, Benedito Calixto.

Lentamente, estou ficando amigo de Frei Gaspar. Infelizmente não o conheci, mas seu trabalho mostra a tenacidade de um historiador dedicado à fé cristã.

O beneditino Gaspar nasceu em Santos há cerca de 300 anos e viveu grande parte da vida em mosteiros, dedicando-se à escrita e à pesquisa histórica. Sua obra mais conhecida, publicada após sua morte, trata da História da Capitania de São Vicente, onde empresta seu nome à Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios.

Seu maior legado foi ter deixado um dos primeiros estudos sistemáticos sobre as origens de São Vicente e do litoral paulista, ajudando a preservar e compreender as raízes históricas da região.

É de Frei Gaspar o pequeno trecho sobre a fundação de Santos: “Animado, Braz Cubas, com a vizinhança dos novos habitadores, tratou de fundar huma Villa no porto de Enguaguaçú, onde já tinha as suas casas e fazendas; e por ser este o lugar mais seguro para os navios e mais vizinho às terras de que se haviam de prover os moradores, não lhe foi difícil persuadi-los a que mudassem para ali o assento da Villa, que novamente se fundava."

O que mais me chama atenção é o jeito contido com que ele esclarece fatos: quase sem adjetivos, raramente opinando, sempre apoiado em registros e documentos. Talvez por isso me identifique com ele. No meio de tantas versões repetidas há séculos, Frei Gaspar parece aquele amigo que não aumenta história — apenas a retrata.

Seu trabalho foi pioneiro porque buscou fundamentar a narrativa histórica em documentos e registros, algo pouco comum em seu tempo.

Frei Gaspar procurou corrigir e esclarecer fatos importantes da história, justificando utilidades para a comunidade e sempre com um ar de testemunho e erudição genealógica. Sua importância reside em ter sido o fundador da historiografia paulista, transformando papéis de cartório em crônicas que resgataram a nobreza e a verdade histórica dos primeiros povoadores da Capitania de São Vicente.

Parabéns, Academia Santista de Letras!

Abril 2026, Marcos A F Franco

Publicado no jornal A Tribuna de Santos em 19/5/2026.

Um século de saibro em Santos


 

Passados cem anos, ainda resta uma testemunha viva que exala maresia. Ela não fala nem se move, mas enxerga, registra, ouve e sente. Todas as manhãs é a primeira a receber o raio de sol, ouvindo o canto dos pássaros e anunciando que será mais um dia de voleios, pontos vencedores, lobs e muita diversão.

À noite, exausta e ainda cercada por tenistas incansáveis, reflete a luz em suas linhas para parecer mais imponente e permitir que saques, devoluções e smashes continuem sendo distribuídos sem economia.

Como uma rainha, ela exige zelo: embora não tenha cabelos, gosta de ser “penteada”, de ter as linhas bem limpas e tomar banho com frequência. A umidade é a sua energia.

Já viu passar ao menos quatro gerações de associados apaixonados, que antes usavam uniforme branco de linho — saias longas, calças compridas e tênis simples. Hoje, tudo isso deu lugar a bermudas, saias curtas e calçados especiais, coloridos e de alta tecnologia.

Observou, com discrição, crianças com raquetes de madeira e cordas de tripa evoluírem para compostos de grafite, fibra de carbono e kevlar. A bolinha branca de lã tornou-se amarela e recebeu materiais sintéticos, encantando ainda mais nos seus pulos.

A famosa quadra número 1 do Tênis Clube de Santos abrigou grandes campeonatos internacionais, inclusive jogos da Copa Davis. Sentiu o deslizar dos tênis de campeões mundiais e a vibração de torcidas enlouquecidas, como as fortes ondas do mar.

Suportou tempestades, a movimentação desajeitada de milhares de alunos, a batida das bolinhas em sua rede (agradando ou não os competidores), o peso das raquetes dos insatisfeitos, a raspagem do piso — sua pele — para a reposição do majestoso saibro e até quedas dolorosas de jogadores. Em troca, entrega um pouco do seu pó às meias de cada um que a utiliza.

Sobreviveu a uma guerra mundial e a uma grande pandemia. Foi “oásis” e esperança para milhares de famílias, dependentes do cheiro de uma bolinha nova.

Registrou o crescimento do clube, que sempre priorizou a família. Com a chegada de novos esportes e atividades, acolheu todos os que ousaram desafiá-la.

Viu hábitos mudarem: das torcidas silenciosas e educadas às vozes exaltadas, batuques e celulares soando; do chá das cinco aos isotônicos gelados; das famosas domingueiras às baladas noturnas. Sustentou dezenas de festas juninas, torneios internos e celebrações de datas especiais: Dia das Crianças, das Mães, dos Pais e o Natal.

“As pessoas não me escutam, mas me entendem. Se eu pudesse falar, agradeceria a todos que cuidaram — e ainda cuidam — de mim, a todos que me respeitam e, em especial, àquelas pessoas visionárias que me conceberam em 2 de junho de 1926.”

Cem anos não cabem em uma raqueteira — mas ecoam em cada centímetro de saibro tocado por um ponto vencedor. Rumo ao segundo centenário.

Abril 2026, Marcos A F Franco

Publicado nos jornais A Tribuna e Jornal da Orla, de Santos em 2/6/2026.

sábado, 11 de abril de 2026

Coincidênica, Probabilidade ou Bruxaria

 



















Nos idos de 1992, dirigindo pelas arborizadas estradas da Galícia, ansioso para chegar à terrinha de meu avô, apresentei meu passaporte na fronteira com Portugal a um gajo inspetor. Ao avaliar o documento, ele pediu que o acompanhasse até o escritório. Fiquei apreensivo.

Sem negar sua origem lusitana, ele mostrou seu documento de identidade — estranhei — pois, ele era autoridade.  Seu primeiro nome era igual aos meu e o mais incrível foi constatar que a data de nascimento era idêntica à minha: dia, mês e ano. Encontrei um irmão gêmeo de pais diferentes. Ele era eu em Portugal e eu, era ele no Brasil. Oh pá!

A sensação foi estranha. Pensei: por que ocorre esse instante único? Existem no mundo várias pessoas que nasceram no mesmo dia que eu, mas com o mesmo nome, talvez seja somente ele. Foi como achar uma agulha no palheiro.

Tenho mais um episódio curioso: meu sogro, em viagem pela Alemanha, ao entrar no elevador, conheceu uma senhora espanhola. Ao notar que ele era brasileiro, disse que seu irmão Pablo residia no Brasil.  

Meu sogro, amante de uma prosa, perguntou de qual cidade ele era. Ela respondeu: “São Roque, uma pequena cidade do estado de São Paulo”. Meu sogro se admirou, porque era onde eu residia. Depois revelou que ele era empreiteiro-construtor de casas.

O mais incrível: eu estava construindo uma casa cujo empreiteiro era o irmão dela. Como pode ocorrer tamanha coincidência? O que pode explicar o fato de ambos se encontrarem em um país diferente, em um determinado instante, em um elevador, em um lugar que ambos jamais tinham visitado e não retornariam? Por segundos, eles não teriam se conhecido.

De tempos em tempos, nos deparamos com coincidências. Algumas são mais óbvias, outras improváveis e até inimagináveis. Sempre que isso ocorre, imediatamente, em um instante, algo acontece em nossa mente e corpo. Pode ser um sentimento agradável, de felicidade, ou nem tanto. Por vezes, é o oposto, causando tristeza ou raiva.

Há quem não acredite em coincidências. Para o professor de matemática e autor do livro Fluke: The Maths and Myths of Coincidences Joseph Mazur, tudo se resume a probabilidades, até nos casos mais inacreditáveis.

É de Albert Einstein a frase: “Coincidência é o nome de Deus quando ele quer permanecer anônimo”. Os espanhóis, por sua vez, convivem com um ditado popular galego, muito conhecido: “No creo en brujas, pero que las hay, las hay”.

A repetição inesperada de algo, ou um fato inimaginável, não é comum. Mas não sabemos por qual motivo elas ocorrem. É sorte, é azar ou simplesmente é a vida?

Fevereiro 2026

Marcos A F Franco

Publicado no Jornal A Tribuna de Santos em 11/04/2026

A um Palmo do Trem

Em uma época em que os trens modernos e rápidos dominam o mundo, ainda existem os antigos, que despertam curiosidade e causam adrenalina em ...