segunda-feira, 27 de julho de 2026

Nas veias de Hanói

Hanói guarda segredos milenares em suas veias pulsantes. A cidade respira como um corpo vivo onde o sangue do comércio e da gente corre sem parar.

Ao visitar a cidade dos lagos, senti-me lançado ao centro do caos. Eram milhões de motocas bailando nas ruas estreitas, quase sempre sem semáforos, nos cruzamentos. Sob o sol escaldante, carregavam de tudo e substituíam caminhões e pick-ups com uma agilidade espantosa. Passei a acreditar que ali morava São Rafael de Arcanjo, protetor dos motociclistas. Elas são tão importantes que as calçadas parecem destinadas a elas, enquanto os pedestres disputam com os carros o leito das ruas.

Caminhando pela capital do Vietnã, segundo maior produtor de café do mundo, fui atraído por um aroma acastanhado que me despertou a curiosidade. À medida que subia uma escada estreita, o perfume se adensava. Ali descobri o famoso café com ovo, invenção nascida da escassez de leite durante a guerra da Indochina. Quente ou gelado, a consistência lembra um creme denso e transforma o amargor do café em doçura. O lugar conserva os móveis pequenos de sua fundação e se tornou um ponto turístico imperdível.

Em cada canto da cidade, senti a presença do espírito de Ho Chi Minh, ex-presidente do país, morto em 1969 e venerado por grande parte dos vietnamitas. Ao trocar dinheiro, recebi as notas de dong estampadas com o rosto do grande herói nacional. Revolucionário, político, escritor, poeta, jornalista e o líder da unificação do país. Ele permanece presente no cotidiano e na memória do Vietnã. Seu corpo embalsamado com perfeição, recebe diariamente milhares de visitantes em seu mausoléu fortemente vigiado.

O famoso chapéu Non Lá, em formato de cone e feito por folhas de palmeira e bambu, circula aos milhares pelas cabeças de trabalhadores rurais e urbanos. Conta a lenda que, em um dia de muita tempestade furiosa, uma mulher gigante desceu dos céus trazendo um Non Lá enorme para proteger a população.

Em Hanói, o chão é severamente respeitado e valorizado. Como historicamente se instituiu um imposto por fachada e a densidade demográfica não parou de crescer, as construções buscaram o céu: são as chamadas casas tubulares, em que cada andar costuma abrigar um cômodo. Muitas reservam o térreo para o comércio da família.

A bandeira do Vietnã, refletida pelo sol no Lago Hoan Kiem, no centro de Hanói, simboliza muito mais que um tecido. O vermelho evoca o sangue derramado por um país livre e unificado, enquanto a estrela amarela de cinco pontas representa a presença de cinco classes sociais. Quase todas as residências ostentam esse símbolo nacional.

Embora o Vietnã tenha sofrido com uma guerra terrível, encontrei um país de 90 milhões de pessoas pujante, alegre, seguro e receptivo. Também me marcou sua gastronomia: simples ou sofisticada, mas sempre saborosa.

Hanói, apesar de tantas cicatrizes, aprendeu a seguir em frente sem perder a delicadeza. 

Julho 2026, Marcos A F Franco

 

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