Hanói guarda segredos milenares em suas veias
pulsantes. A cidade respira como um corpo vivo onde o sangue do comércio e da
gente corre sem parar.
Ao visitar a cidade dos lagos, senti-me
lançado ao centro do caos. Eram milhões de motocas bailando nas ruas estreitas,
quase sempre sem semáforos, nos cruzamentos. Sob o sol escaldante, carregavam
de tudo e substituíam caminhões e pick-ups com uma agilidade espantosa. Passei
a acreditar que ali morava São Rafael de Arcanjo, protetor dos motociclistas. Elas
são tão importantes que as calçadas parecem destinadas a elas, enquanto os
pedestres disputam com os carros o leito das ruas.
Caminhando pela capital do Vietnã,
segundo maior produtor de café do mundo, fui atraído por um aroma acastanhado que
me despertou a curiosidade. À medida que subia uma escada estreita, o perfume
se adensava. Ali descobri o famoso café com ovo, invenção nascida da escassez
de leite durante a guerra da Indochina. Quente ou gelado, a consistência lembra
um creme denso e transforma o amargor do café em doçura. O lugar conserva os
móveis pequenos de sua fundação e se tornou um ponto turístico imperdível.
Em cada canto da cidade, senti a
presença do espírito de Ho Chi Minh, ex-presidente do país, morto em 1969 e
venerado por grande parte dos vietnamitas. Ao trocar dinheiro, recebi as notas
de dong estampadas com o rosto do grande herói nacional. Revolucionário,
político, escritor, poeta, jornalista e o líder da unificação do país. Ele
permanece presente no cotidiano e na memória do Vietnã. Seu corpo embalsamado
com perfeição, recebe diariamente milhares de visitantes em seu mausoléu
fortemente vigiado.
O famoso chapéu Non Lá, em formato de
cone e feito por folhas de palmeira e bambu, circula aos milhares pelas cabeças
de trabalhadores rurais e urbanos. Conta a lenda que, em um dia de muita
tempestade furiosa, uma mulher gigante desceu dos céus trazendo um Non Lá
enorme para proteger a população.
Em Hanói, o chão é severamente
respeitado e valorizado. Como historicamente se instituiu um imposto por
fachada e a densidade demográfica não parou de crescer, as construções buscaram
o céu: são as chamadas casas tubulares, em que cada andar costuma abrigar um
cômodo. Muitas reservam o térreo para o comércio da família.
A bandeira do Vietnã, refletida pelo sol
no Lago Hoan Kiem, no centro de Hanói, simboliza muito mais que um tecido. O vermelho
evoca o sangue derramado por um país livre e unificado, enquanto a estrela
amarela de cinco pontas representa a presença de cinco classes sociais. Quase
todas as residências ostentam esse símbolo nacional.
Embora o Vietnã tenha sofrido com uma
guerra terrível, encontrei um país de 90 milhões de pessoas pujante, alegre,
seguro e receptivo. Também me marcou sua gastronomia: simples ou sofisticada,
mas sempre saborosa.
Hanói, apesar de tantas cicatrizes,
aprendeu a seguir em frente sem perder a delicadeza.
Julho 2026, Marcos A F Franco

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