Quase iniciando minha oitava década de
vida, reflito sobre o aumento de atores no trânsito e testemunho seus efeitos.
Ao mesmo tempo, sinto na pele e na mente a lenta e constante perda dos meus
reflexos. Enquanto o trânsito se intensifica, meus sentidos diminuem. É uma
relação inversamente proporcional e preocupante.
Mas, como pedestre e proprietário de um
carro, também sou personagem desse universo. Além de automóveis, motocicletas,
bicicletas, bicicletas elétricas, patinetes, skates e semáforos, há ainda as
calçadas e seus buracos, obstáculos perigosos ao meu caminhar. Perturbo São
Cristóvão pedindo que abençoe seus devotos para que não me encontrem.
Recentemente, testemunhei uma fatalidade
envolvendo uma senhora. Foi horrível! Do alto do meu apartamento, ouvi uma
gritaria e o barulho de carros freando. Depois, o som de pessoas correndo e
chorando, espantadas. Em seguida, ouvi as sirenes das viaturas da polícia e dos
bombeiros.
Imaginei que tivesse ocorrido um
assalto. Contudo, ao assistir ao vídeo do ocorrido, fiquei mais perplexo: foi
um automóvel, parecendo um carrinho de bate-bate que se encontra em parques de
diversão, que entrou em um pequeno estacionamento, junto à calçada, em
velocidade excessiva. O motorista realizou manobras bruscas, avançando e
recuando três vezes sobre a calçada; derrubou cinco motocicletas e atropelou
três pessoas, incluindo a senhora idosa que faleceu.
A primeira impressão era a de que o
motorista, também idoso, tivera um surto de raiva. Depois, percebi claramente que
ele perdera o controle do automóvel. Foi um acidente sem a intenção de ferir ninguém
ou de causar danos materiais.
Não sei calcular o quanto esse motorista
se sente triste.
A lei permite que idosos dirijam, após
serem aprovados em exames médicos; entretanto, é comprovado cientificamente que,
com envelhecimento, perdemos nossas capacidades motoras. Frequentemente, não
percebemos nem aceitamos essa perda natural.
O Estudo Longitudinal de Envelhecimento
de Baltimore - USA, publicado em julho de 1994 pela Revista de Gerontologia, apresentou
dados relevantes sobre o envelhecimento. A pesquisa demonstrou que pessoas com
idade superior a 80 anos levam o dobro de tempo para reagir, considerando a
audição, a visão e a cognição. Ficamos bem mais lentos — 50% em relação a um
jovem —, ainda que relutemos em aceitar esse fato.
Lembro-me perfeitamente de que foi
difícil convencer meu pai e meu sogro a pararem de dirigir. O trânsito intenso
se transforma a cada dia, com novos elementos somados à ansiedade das pessoas, exigindo
mais calma, mais perícia e reflexos apurados — requisitos desenvolvidos por
profissionais experientes.