sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Quando a Prudência pede Passagem

Quase iniciando minha oitava década de vida, reflito sobre o aumento de atores no trânsito e testemunho seus efeitos. Ao mesmo tempo, sinto na pele e na mente a lenta e constante perda dos meus reflexos. Enquanto o trânsito se intensifica, meus sentidos diminuem. É uma relação inversamente proporcional e preocupante.

Mas, como pedestre e proprietário de um carro, também sou personagem desse universo. Além de automóveis, motocicletas, bicicletas, bicicletas elétricas, patinetes, skates e semáforos, há ainda as calçadas e seus buracos, obstáculos perigosos ao meu caminhar. Perturbo São Cristóvão pedindo que abençoe seus devotos para que não me encontrem.

Recentemente, testemunhei uma fatalidade envolvendo uma senhora. Foi horrível! Do alto do meu apartamento, ouvi uma gritaria e o barulho de carros freando. Depois, o som de pessoas correndo e chorando, espantadas. Em seguida, ouvi as sirenes das viaturas da polícia e dos bombeiros.

Imaginei que tivesse ocorrido um assalto. Contudo, ao assistir ao vídeo do ocorrido, fiquei mais perplexo: foi um automóvel, parecendo um carrinho de bate-bate que se encontra em parques de diversão, que entrou em um pequeno estacionamento, junto à calçada, em velocidade excessiva. O motorista realizou manobras bruscas, avançando e recuando três vezes sobre a calçada; derrubou cinco motocicletas e atropelou três pessoas, incluindo a senhora idosa que faleceu.

A primeira impressão era a de que o motorista, também idoso, tivera um surto de raiva. Depois, percebi claramente que ele perdera o controle do automóvel. Foi um acidente sem a intenção de ferir ninguém ou de causar danos materiais.

Não sei calcular o quanto esse motorista se sente triste.

A lei permite que idosos dirijam, após serem aprovados em exames médicos; entretanto, é comprovado cientificamente que, com envelhecimento, perdemos nossas capacidades motoras. Frequentemente, não percebemos nem aceitamos essa perda natural.

O Estudo Longitudinal de Envelhecimento de Baltimore - USA, publicado em julho de 1994 pela Revista de Gerontologia, apresentou dados relevantes sobre o envelhecimento. A pesquisa demonstrou que pessoas com idade superior a 80 anos levam o dobro de tempo para reagir, considerando a audição, a visão e a cognição. Ficamos bem mais lentos — 50% em relação a um jovem —, ainda que relutemos em aceitar esse fato.

Lembro-me perfeitamente de que foi difícil convencer meu pai e meu sogro a pararem de dirigir. O trânsito intenso se transforma a cada dia, com novos elementos somados à ansiedade das pessoas, exigindo mais calma, mais perícia e reflexos apurados — requisitos desenvolvidos por profissionais experientes.

Talvez a pergunta mais difícil não seja quando a lei nos permite continuar dirigindo, mas quando a prudência começa a nos pedir licença para parar. Um bom alerta são as marcas deixadas nos carros pelas colunas móveis das garagens dos edifícios. 

Marcos A F Franco

Setembro 2026

O Aroma de Dona Francisca

           "Que horas são, Dona Francisca?” Perguntou o chefe quando ela entrou em sua sala com o café, espalhando pelo ambiente a marca inconfundível de seu aroma. “Sei não, chefe”, respondeu. “Fui até o mercado comprar umas coisinhas, mas caprichei no café.”

Dona Francisca é aquela mulher especial que faz ou fez parte da vida de milhões de pessoas. É preciso que ela aqueça a água e a misture ao pó do escurinho mais famoso do mundo, para produzir o aroma que transforma o humor de todos. Nada acontece antes disso.

As Donas Franciscas não são contratadas para fazer café. Elas surgem como num passe de mágica, dentre outras mulheres do time de limpeza. Assumem essa função naturalmente, como uma mãe que quer dar afeto a um filho. São mulheres independentes que mantêm a família, sustentam o lar e sonham com um futuro promissor.

O cantinho do café ganha vida com a presença de Dona Francisca. Mesmo sem mesa, as conversas, por vezes, revelam segredos do ambiente de trabalho e informações confidenciais, detalhadas e sutis, que chegam antes mesmo das circulares oficiais.

Ela conhece os gostos de todos: pouco, muito ou nenhum açúcar. Para quem reclama do café, tem sempre uma resposta na ponta da língua, pronta para desarmar o mal-humorado. “Fraco? Você é que está sem coragem para trabalhar”. Quando reclamam que o café tem gosto de ontem, Dona Francisca vira uma leoa, defendendo seu território: responde que ele é honesto, pois não desperdiça memória nem borra de café.

Assim, de café em café, de bobo em bolo e um quitute ou outro, Dona Francisca conquista a confiança dos colegas e, principalmente, da chefia. Quando questionada por eles, mantém a discrição, mas não deixa de revelar alguns segredos sobre outros colaboradores. É o seu momento como psicóloga.

Houve um dia, porém, em que Dona Francisca chegou preocupada. Ainda do lado de fora do seu cantinho, sentiu um aroma de café diferente, mais suave que o de costume. A porta estava enfeitada, com uma placa em seu nome e uma mensagem de agradecimento por tantos anos de trabalho e dedicação. Ela, que chegara triste por ser seu último dia, emocionou-se. Colegas e chefia a esperavam na sala de reuniões, com um café especial para celebrar sua aposentadoria.

Naquele dia, o café não foi servido por ela, mas para ela. E talvez tenha sido esse o mais doce de todos: não pelo açúcar, mas pela gratidão. Porque as Donas Franciscas ficam na memória, no afeto e no aroma de nossos cafés.


Marcos A F Franco

Agosto 2026

O Acaso Sacou Perfeito

 

De passagem por Kaohsiung em Taiwan, cidade litorânea e portuária com quase 3 milhões de habitantes, vivi um raro instante de absurdo em uma esquina movimentada, que parecia vibrar com o quicar de bolinhas de tênis.

Era uma noite úmida e agradável para caminhar e conhecer a famosa feira noturna, que exalava aromas de comidas típicas, das mais simples às mais exóticas. Degustei o cachorro-quente taiwanês: uma linguiça envolta em massa de arroz.

Em seguida, experimentei a sopa de macarrão com carne; o frango empanado, frito e temperado com sal, pimenta, alho e manjericão taiwanês; e os bolinhos cozidos no vapor, recheados com carne de porco e um caldo quente.

E, pasmem: havia também um tofu fedorento e fermentado, famoso pelo aroma forte e peculiar, mas de sabor marcante e muito apreciado pelos locais.

Depois dessa maratona gastronômica, ouvindo Mandopop e com o paladar renovado, seguimos apreciando o visual das barraquinhas de comida. Entre roupas e artesanatos, navegamos pelo mar de pessoas como se adentrássemos em um torneio de tênis de grand slam.

A antiga cidade de pescadores, antes conhecida como Bambu, reservava a surpresa. Ao dobrar uma esquina de uma grande avenida, com calçadas largas e ciclovia. Algo aconteceu. Geralmente, as esquinas são lugares de pausa, decisões e hesitações, mas aquela parecia uma quadra de tênis improvisada. Foi aí que nos deparamos com dois casais, cada qual seguindo em direções diferentes.

Foi um susto! Olhamo-nos admirados. Paramos, enquanto os demais pedestres seguiam alheios, como bolinhas lançadas entre jogadores numa quadra de tênis. Primeiro, os acenos tímidos; em seguida, sorrisos largos; depois, aquele espanto que só a coincidência provoca. Era como assistir a um winner inesperado: a bola bate na fita, sobe, hesita, e cai exatamente sobre a linha. Eram amigos e fanáticos do esporte de raquetes, pertencentes ao Rotary, que falavam línguas diferentes: a coreografia de linguagem entre o português, o mandarim e o lituano transformou-se em inglês com mímicas.

Os outdoors brilhantes, o som das scooters e o jogo de luzes do semáforo, deram lugar à alegria de abraçar amigos de tão longe e à curiosidade em saber o que faziam naquela esquina do mundo.

O encontro durou pouco, como um ponto disputado na quadra de tênis, e não decidiu partida nenhuma. Ele ficou guardado na memória como a lembrança de que o mundo, apesar de enorme, às vezes se dobra sobre si para aproximar quem se gosta.

Foi um ponto breve, mas daqueles que ficam na memória. Daquela esquina improvável, trouxemos uma foto, três continentes reunidos e uma certeza simples: a amizade não mede quilômetros.

Marcos A F Franco

Agosto 2026

Quando a Prudência pede Passagem

Quase iniciando minha oitava década de vida, reflito sobre o aumento de atores no trânsito e testemunho seus efeitos. Ao mesmo tempo, sinto ...