sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O Acaso Sacou Perfeito

 

De passagem por Kaohsiung em Taiwan, cidade litorânea e portuária com quase 3 milhões de habitantes, vivi um raro instante de absurdo em uma esquina movimentada, que parecia vibrar com o quicar de bolinhas de tênis.

Era uma noite úmida e agradável para caminhar e conhecer a famosa feira noturna, que exalava aromas de comidas típicas, das mais simples às mais exóticas. Degustei o cachorro-quente taiwanês: uma linguiça envolta em massa de arroz.

Em seguida, experimentei a sopa de macarrão com carne; o frango empanado, frito e temperado com sal, pimenta, alho e manjericão taiwanês; e os bolinhos cozidos no vapor, recheados com carne de porco e um caldo quente.

E, pasmem: havia também um tofu fedorento e fermentado, famoso pelo aroma forte e peculiar, mas de sabor marcante e muito apreciado pelos locais.

Depois dessa maratona gastronômica, ouvindo Mandopop e com o paladar renovado, seguimos apreciando o visual das barraquinhas de comida. Entre roupas e artesanatos, navegamos pelo mar de pessoas como se adentrássemos em um torneio de tênis de grand slam.

A antiga cidade de pescadores, antes conhecida como Bambu, reservava a surpresa. Ao dobrar uma esquina de uma grande avenida, com calçadas largas e ciclovia. Algo aconteceu. Geralmente, as esquinas são lugares de pausa, decisões e hesitações, mas aquela parecia uma quadra de tênis improvisada. Foi aí que nos deparamos com dois casais, cada qual seguindo em direções diferentes.

Foi um susto! Olhamo-nos admirados. Paramos, enquanto os demais pedestres seguiam alheios, como bolinhas lançadas entre jogadores numa quadra de tênis. Primeiro, os acenos tímidos; em seguida, sorrisos largos; depois, aquele espanto que só a coincidência provoca. Era como assistir a um winner inesperado: a bola bate na fita, sobe, hesita, e cai exatamente sobre a linha. Eram amigos e fanáticos do esporte de raquetes, pertencentes ao Rotary, que falavam línguas diferentes: a coreografia de linguagem entre o português, o mandarim e o lituano transformou-se em inglês com mímicas.

Os outdoors brilhantes, o som das scooters e o jogo de luzes do semáforo, deram lugar à alegria de abraçar amigos de tão longe e à curiosidade em saber o que faziam naquela esquina do mundo.

O encontro durou pouco, como um ponto disputado na quadra de tênis, e não decidiu partida nenhuma. Ele ficou guardado na memória como a lembrança de que o mundo, apesar de enorme, às vezes se dobra sobre si para aproximar quem se gosta.

Foi um ponto breve, mas daqueles que ficam na memória. Daquela esquina improvável, trouxemos uma foto, três continentes reunidos e uma certeza simples: a amizade não mede quilômetros.

Marcos A F Franco

Agosto 2026

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