De passagem por Kaohsiung em Taiwan,
cidade litorânea e portuária com quase 3 milhões de habitantes, vivi um raro
instante de absurdo em uma esquina movimentada, que parecia vibrar com o quicar
de bolinhas de tênis.
Era uma noite úmida e agradável para
caminhar e conhecer a famosa feira noturna, que exalava aromas de comidas típicas,
das mais simples às mais exóticas. Degustei o cachorro-quente taiwanês: uma
linguiça envolta em massa de arroz.
Em seguida, experimentei a sopa de
macarrão com carne; o frango empanado, frito e temperado com sal, pimenta, alho
e manjericão taiwanês; e os bolinhos cozidos no vapor, recheados com carne de
porco e um caldo quente.
E, pasmem: havia também um tofu
fedorento e fermentado, famoso pelo aroma forte e peculiar, mas de sabor
marcante e muito apreciado pelos locais.
Depois dessa maratona gastronômica, ouvindo
Mandopop e com o paladar renovado, seguimos apreciando o visual das
barraquinhas de comida. Entre roupas e artesanatos, navegamos pelo mar de
pessoas como se adentrássemos em um torneio de tênis de grand slam.
A antiga cidade de pescadores, antes
conhecida como Bambu, reservava a surpresa. Ao dobrar uma esquina de uma grande
avenida, com calçadas largas e ciclovia. Algo aconteceu. Geralmente, as
esquinas são lugares de pausa, decisões e hesitações, mas aquela parecia uma
quadra de tênis improvisada. Foi aí que nos deparamos com dois casais, cada qual
seguindo em direções diferentes.
Foi um susto! Olhamo-nos admirados. Paramos,
enquanto os demais pedestres seguiam alheios, como bolinhas lançadas entre jogadores
numa quadra de tênis. Primeiro, os acenos tímidos; em seguida, sorrisos largos;
depois, aquele espanto que só a coincidência provoca. Era como assistir a um
winner inesperado: a bola bate na fita, sobe, hesita, e cai exatamente sobre a
linha. Eram amigos e fanáticos do esporte de raquetes, pertencentes ao Rotary,
que falavam línguas diferentes: a coreografia de linguagem entre o português, o
mandarim e o lituano transformou-se em inglês com mímicas.
Os outdoors brilhantes, o som das
scooters e o jogo de luzes do semáforo, deram lugar à alegria de abraçar amigos
de tão longe e à curiosidade em saber o que faziam naquela esquina do mundo.
O encontro durou pouco, como um ponto
disputado na quadra de tênis, e não decidiu partida nenhuma. Ele ficou guardado
na memória como a lembrança de que o mundo, apesar de enorme, às vezes se dobra
sobre si para aproximar quem se gosta.
Foi um ponto breve, mas daqueles que
ficam na memória. Daquela esquina improvável, trouxemos uma foto, três
continentes reunidos e uma certeza simples: a amizade não mede quilômetros.
Marcos A F Franco
Agosto 2026
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