Em uma época em que os trens modernos e
rápidos dominam o mundo, ainda existem os antigos, que despertam curiosidade e
causam adrenalina em nossos corpos.
Andando pelas ruas e vielas da populosa
Hanói, deparei-me com um trem especial. Uma das ruas por onde ele trafega ficou
mundialmente conhecida como Train Street. Localizada no centro velho da capital
vietnamita, Old Quarter, o bairro mais frequentado pelos turistas. Lá, anda-se
literalmente pelas ruas, pois as calçadas são usadas para estacionar motocas e expor
os artigos do comércio.
As residências estreitas e os pontos
comerciais da Rua do Trem foram crescendo após a implantação da linha férrea, construída
no início do século XX, durante a época colonial francesa. Essa ferrovia foi
projetada para o transporte de passageiros e mercadorias, tendo sofrido danos
na Guerra do Vietnã.
Sem prever que os futuros trens seriam
mais largos, as centenas de construções, hoje pequenos prédios estreitos, se
parecem mais como muros habitados, por ficarem a poucos centímetros da linha
férrea. Em cima dos trilhos, no alto, os moradores de ambos os lados, mantêm
toldos estilizados cobrindo a extensão do trajeto, e ostentam orgulhosamente a
bandeira do país: vermelha estampada com uma grande estrela amarela.
Jovens vietnamitas, próximos à rua,
abordavam os turistas avisando o momento em que o trem passaria e os atraíam
para os cafés, bares e lanchonetes que mantêm suas pequenas mesas e cadeiras
beirando a linha do trem. Um instante agradável para ignorar o calor úmido,
acalmar a tensão, observar mercadorias do comércio expostas no meio dos trilhos
e aguardar a chegada da estrela do espetáculo.
A ansiedade era grande: meus ombros se
enrijeceram, a respiração encurtou, mas os nativos foram rápidos. Quando o trem
se aproximava, recolheram o que estava sobre a linha e puxaram as mesas,
enquanto os trilhos tremiam sob meus pés.
Confesso que fiquei tenso apertando a
máquina fotográfica. Sensação de que o trem iria esbarrar em qualquer coisa nas
laterais do percurso. As pessoas se espremiam nos poucos centímetros entre o
trem e as paredes. Um ranger de ferro crescia. Tentei dar um passo para trás
sem perceber que não havia para onde recuar.
Quando aquela locomotiva imensa apareceu,
o ruído ocupou meu corpo inteiro. Por
alguns segundos, só existiam ferro, vento e parede.
Depois que ele passou, tudo retornou ao
lugar: mesas, cadeiras, mercadorias, turistas e moradores. A rua recompôs sua
rotina como se o susto fizesse parte do mobiliário. Ninguém embarcou naquele
trem; embarcou apenas na breve vertigem de vê-lo passar a um palmo do rosto.
Julho 2026, Marcos A F Franco

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