Em meio a uma grande recepção anual de uma
importante entidade mundial, reencontrei Encarnacion — uma amiga que o destino
nos apresentou há dezesseis anos. Tivemos um ano rico e bem próximo liderando
pessoas para transformar vidas. Na época, ela e seu companheiro, Mazza, nos receberam
na cidade de São Caetano do Sul, com chá, café, quitutes e dois bolos de fubá,
feitos por suas mãos.
Assim que Encarnacion percebeu que eu
havia sido atraído pelo aroma marcante e quentinho dos bolos, separou um deles
e me presenteou na hora de ir embora. Depois, quando confidenciei que ela havia
descoberto meu ponto fraco, prometeu fazer sempre que eu pedisse. Um mimo que
só minha mãe, caipira da gema do interior de São Paulo, costumava preparar.
Talvez eu goste tanto desse bolo porque
ele é parte da minha vida e da memória do Brasil. O fubá — milho seco bem moído
— significa “farinha” no idioma africano quimbundo, de Angola. Sua história é
um verdadeiro caldeirão cultural, resultado da tradição indígena no cultivo do
milho, cuja raiz social mistura três matrizes: indígena, africana e portuguesa.
Na culinária, o bolo de fubá conquistou
muitos glutões e ganhou variações como o cremoso, o com goiabada, o com
erva-doce, entre outras. Mas minha preferência continua sendo o bolo de fubá
raiz, bem fofinho, com a cara da roça do interior e, se possível, acompanhado
de um café coado, passado na hora. Ambos os aromas misturados formam uma dupla muito
desejada.
Já saboreei centenas de bolos de fubá. Entretanto,
naquele dia, em que me reencontrei com Encarnacion, ao abraçá-la, não resisti e
perguntei sobre o nosso ponto em comum, só para puxar uma prosa. Ela, sem
titubear, pediu um instante e, para minha surpresa e alegria, em plena festa repleta
de salgadinhos, refrigerantes e whisky, me entregou um bolo de fubá feito com o
carinho do tamanho do seu imenso coração.
Naquele instante, compreendi que o bolo
era apenas um pretexto. Ela havia levado a lembrança de momentos especiais. Em meio ao barulho, às luzes e às conversas
apressadas, aquele gesto simples destoava — era íntimo, silencioso, quase
tímido, mas carregava uma força que nenhuma taça de whisky poderia igualar.
Enquanto todos celebravam o momento presente, ela celebrava a memória e a
amizade.
O bolo estava ali deslocado, acanhado, esperando
que eu aparecesse.
Após dezesseis anos, sem saber se me
encontraria, seu gesto delicado e seu sorriso largo, me emocionaram
profundamente. Senti meu corpo ser invadido por inúmeras lembranças. Não
contive as lágrimas. Foi um momento de felicidade pura, produzido pela
delicadeza de uma pessoa especial que transforma lembranças em afeto. Um
presente especialíssimo que me remeteu à infância, à minha família, e me fez
flutuar por alguns segundos.
Maio 2026, Marcos A F Franco

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