Somente um Fusca suportaria a
inexperiência de um jovem estudante em sua cruzada para obter a vaga de um estágio
profissional.
O Fusca, veículo criado na Alemanha, produzido
pela Volkswagen durante 65 anos, foi o modelo de carro mais vendido em todo o
mundo, ultrapassando o extraordinário número de 21 milhões de unidades.
O Volkswagen sedan deu origem ao nome da
empresa. Seu nome em alemão significa o carro do povo. Foi um projeto com apoio
do governo alemão que buscava um veículo popular de baixo custo. Tinha a
aparência de um besouro e no Brasil ganhou o apelido de Fusca.
Nos anos setenta do século vinte, o
Fusca reinava absoluto, era como uma motocicleta nos dias de hoje, tal a
quantidade deles em circulação. Um carro com duas portas, barato e simples. Nem
de água ele necessitava, por não ter radiador. Seu pequeno motor ficava na
traseira. Quando faltava espaço no seu acanhado porta-malas dianteiro, era só
instalar um bagageiro no seu teto.
Foi ele que, quando eu frequentava a
universidade, me levou para fazer um teste, em um estágio concorrido. Eu
residia em Santos e teria que me deslocar para São Paulo, em uma região com
poucas opções de transporte público. Meu amigo insistiu para que eu utilizasse
o Fuscão verde do seu pai. Verde é a cor da esperança, isso ajudou em minha audaciosa
decisão.
No final da tarde peguei o Herbie (nome
do fusca protagonista do filme “Se o meu fusca falasse”) sem saber se ele
estava assegurado. Começava ali uma aventura temerária. Eu teria de chegar bem
cedo no dia seguinte para o teste. Estacionei-o na rua próxima de casa, atrás
de outro carro, que era o primeiro antes da esquina, ficando ele como o segundo
carro estacionado daquele lado da rua.
No dia seguinte pela manhã, bem
preocupado com o teste, fui ao encontro do meu salvador. Para minha surpresa
ele parecia que tinha andado para trás, não sendo mais o segundo carro
estacionado, antes da esquina. Ele era o terceiro e estava bem mais distante da
guia da calçada, em relação ao que eu tinha deixado. Não sabia se era uma
mágica, se ele não queria sair ou um presságio.
Aquilo me intrigou. Seguimos pensativo para
o nosso destino. Antes de tomarmos a estrada, por um infortúnio, ao parar em um
semáforo, emparelha à minha esquerda uma grande carreta em cima de centenas de
pneus. O Fusca parecia um ratinho perto dela.
Em seguida ao surgir a luz verde, a
carreta sem nos notar, ao fazer a conversão para o lado direito, veio em nossa
direção esbarrando seus imensos pneus no paralama esquerdo do meu indefeso
automóvel, amassando o seu capô e prendendo o pneu dianteiro. A carreta sem sentir
o carinho que nos fez e sem ouvir a tímida buzina acionada pelo motorista
apavorado, seguiu o seu caminho.
Desci do valente companheiro, agora
triste. Olhei para sua frente e lamentei. Mas, eu tinha a missão, de fazer o
teste para o estágio. Puxei a parte empenada do seu paralama, liberando o pneu prensado.
Sem consultá-lo, seguimos para o nosso destino. Deixei para pensar o que fazer
no retorno da viagem.
O teste que durou 4 horas, pareceu ter
sido uma eternidade. Minha mente ficou dividida. A viagem de volta, ao descer a
serra de Santos, as curvas ficaram mais perigosas do que na música do Roberto
Carlos. O impassível Fusca resistia firme em nossa desastrada viagem.
Apreensivo com a reação do meu amigo e de
seu pai fui direto para a oficina de funilaria. Não queria que eles vissem o
estado do agora estragado Fusca. Mas eu teria de contar para eles.
Ao telefonar para o meu amigo, o senti
tenso e ansioso. Antes que eu pudesse relatar o estrago do dia, ele desvendou o
mistério da noite anterior. Disse que o seu pai não sabendo que o seu Fusca
tinha sido emprestado, estranhou vê-lo estacionado na rua. Retornou para sua
casa, pegou a cópia da chave do seu protegido e o levou de volta para o seu
aconchego. Quando o meu amigo foi indagado pelo seu pai, ele revelou que o
tinha emprestado. Então o seu pai devolveu o Fusca ao local onde o tinha encontrado.
Enfim foi revelado como o Fusca se
moveu. Mas ainda tinha a segunda e cruel revelação.
Constrangido, falei para o meu amigo que
ocorreu um pequeno acidente causado por uma carreta, deixando o rosto do nosso
personagem central igual ao de um nocauteado lutador de boxe. Seriam
necessários 5 dias para fazer uma boa plástica no fiel, forte, mas azarado
Fusca.
Bem que os mais experientes motoristas
nos alertam, só dirijam carros próprios e, com seguro em dia. As aventuras
podem nos assustar, mas o custo financeiro será pequeno.
Março 2024
Marcos A F Franco

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