Era mais um dia de viagem a passeio pelos Estados Unidos. Desta vez, rumo a Anchorage, a gelada capital do Alasca. Saí do hotel e embarquei no metrô de superfície, que me levou direto ao aeroporto. Pude me despedir da linda e acolhedora Seattle, com um sol matutino aquecendo o caminho sinuoso, enquanto minhas vistas contemplavam, pequenos bairros com paisagens verdes e floridas.
O check-in hoje é quase uma conversa com máquinas. Jovens parecem se entender melhor com elas. Em seguida, encarei a longa — e até divertida — fila da revista pessoal. Cães farejadores circulavam atentos, em busca de líquidos e objetos proibidos. Além do casaco, é preciso tirar os sapatos e qualquer coisa de metal. Se o detector apita, você vira alvo de olhares desconfiados e se sente, por um instante, um estranho transgressor.
Depois, começa a torcida: que o voo saia no horário. Não foi o caso. O jeito foi se distrair com um café, um lanche e, principalmente, observar os tipos curiosos que povoam as salas de embarque — todos com o mesmo destino e a mesma ansiedade.
Quando o voo foi anunciado, formou-se a fila. Já dentro da aeronave, acomodei-me tranquilamente e fiquei observando os passageiros que passavam pelo corredor. Uns carregavam volumes demais, outros quase nada. E então apareceu ele.
Um senhor de estatura média, aparentando uns 65 anos. Cabelos despenteados, barba por fazer, expressão fechada. Parou na fileira à frente da minha, e com certa dificuldade, acomodou suas malas no bagageiro superior.
Mas o que me chamou atenção foi o charuto. Apagado, firme entre os lábios. Pensei: “Deve ter apagado antes de embarcar.” Mas não. Sentou-se ao lado da janela e manteve o charuto ali. O avião decolou, e ele continuou com o charuto na boca. “Será que vai esperar atingir a altitude de cruzeiro para acendê-lo?” — pensei. Mas não pode. “Será que está colado?”
Quatro horas se passaram, com o charuto imóvel, como se fizesse parte dele. Talvez fosse de plástico. Ou talvez fosse resistente o suficiente para não se desfazer com a saliva. Mas o que importa é que ele não o tirou. Nem uma vez.
Ele continuava calado. O charuto, apagado e imóvel, repousava entre seus lábios como um ponto final que nunca vinha. Os olhos, semicerrados, pareciam contemplar um pensamento que ninguém podia alcançar.
E quando
o avião pousou, ele se levantou, ajeitou o paletó, pegou sua mala e saiu sem
dizer nada. O charuto ainda em sua boca, como se fosse parte dele. Como se
fosse ele. Um mistério que cruzou os céus comigo e ainda permanece.
Agosto 2025
Marcos A F Franco

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