A riqueza de Doha vai além do valor
material.
Dois fatos incomuns para turistas
marcaram a minha rápida passagem nessa deslumbrante capital do Oriente. A
cidade, com pouco mais de 1,5 milhão de cataris, que foi sede da Copa do Mundo
de Futebol em 2022, demonstrou seu respeito e carinho pelos visitantes.
A caminho do Qanat Quartier, a “Veneza
do Qatar” — um bairro da Pérola, como é conhecida a ilha artificial em Doha — fomos
surpreendidos e recolhidos por duas mulheres em um carro de luxo. Nesse lugar, o romantismo e o charme
venezianos se encontram a sofisticação árabe. Com prédios baixos em tons
pastel, canais que se fundem ao Golfo Pérsico e belas pontes, o cenário é
complementado por lojas, restaurantes e cafés encantadores.
As duas mulheres nos encontraram perdidos
e sozinhos em uma grande praça próxima à estação de metrô onde havíamos descido,
convictos de que estávamos bem perto da Pérola. Quando se aproximaram, envoltas
em suas vestes pretas, ficamos apreensivos. No entanto, a gentileza das duas logo
nos tranquilizou, e acabamos aceitando a carona que nos levaria para o nosso
destino.
Não é comum que alguém suporte o sol
escaldante das arábias naquela hora do dia. O calor pode derreter qualquer um, chegando
a 47 graus Celsius durante o dia. Naturalmente, elas perceberam os turistas
anciões, carregando uma mochila, molhados de suor e examinando um mapa
turístico. Com sorrisos gentis, as duas jovens nos salvaram.
Tudo em Doha é suntuoso, começando pelo
seu aeroporto, um hub que une o Ocidente e Oriente com centenas de conexões. Os
oito estádios de futebol, verdadeiras obras-primas da arquitetura, são
interligados por uma nova e eficiente rede de metrôs, que esbanja conforto e grandiosidade.
Os museus — Nacional e o de Arte Islâmica — impressionam tanto pela arquitetura
moderna quanto pelo rico conteúdo.
Além dos magníficos prédios, dos barcos
de pesca, do transporte público e dos imensos shoppings, a população se resguarda
do sol durante o dia e toma as ruas à noite. Os homens, em sua maioria, vestem
o Thobe — a tradicional túnica branca comprida — acompanhado da Ghutra, o lenço
branco na cabeça, preso pelo Igal, uma corda que o mantém preso na cabeça.
A maioria da população percorre o
antigo mercado Souq Waqif, com suas ruas sinuosas e lojas vibrantes. É o lugar
perfeito para viver a tradicional cultura árabe. O mercado oferece uma grande variedade
de produtos, incluindo especiarias, perfumes, tecidos e artesanato.
O Souq Waqif também oferece casas de
chás e restaurantes imperdíveis, com o melhor da gastronomia local. Em nossa
última noite, após degustarmos um quibe especial, percebi ao pagar a conta que o
serviço não havia sido cobrado. O atendimento, impecável, foi realizado por um
garçom muito simpático. Ao questioná-lo, ele explicou que a gorjeta não fazia
parte da cobrança. Insisti em pagá-lo a parte, mas, para minha surpresa, ele recusou
educadamente, dizendo que não poderia aceitar.
Saímos do restaurante decepcionados por não podermos compensá-lo pelo seu excelente atendimento, mas, ao mesmo tempo, surpresos e tranquilos diante da idoneidade demonstrada. Cada cultura tem seus costumes, e cabe, a nós respeitarmos.
Setembro 2024
Marcos A F Franco

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