quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Doce de leite e carambolas


 Dia desses fui assistir à apresentação final do projeto “Criança não trabalha, criança dá trabalho”, na escola onde meu neto Gael estuda. Ele cursa o 2º ano do ensino fundamental. Os pais e avós foram convidados para participar. Primeiro ouvimos a apresentação de um jogral, integrado por todos os alunos da mesma classe do Gael. Depois, participamos de duas brincadeiras interativas entre os adultos e os alunos, coordenadas pelas professoras. Em seguida, antes de degustar a merenda que cada pai levou, a professora pediu para os adultos que falassem qual era a memória afetiva gastronômica de cada um. A sugestão da merenda foi exatamente essa: cada pai levar o alimento de preferência da sua memória afetiva. Foi uma sensação agradável e imediata. Naquele instante retrocedi mais de cinquenta anos em um segundo.

Lembrei de quando passava as férias na fazenda dos meus avós maternos, no bairro das Pitas, em Paraibuna, hoje tomada por uma represa. Minha avó Izabel comandava, com meus muitos tios e primos, a fabricação de doce de leite em um grande tacho de cobre. Em um local coberto e muito simples se acendia o fogo no chão, para esquentar o tacho. O leite era de fabricação própria, das vacas da fazenda, ordenhadas ao amanhecer. Todos ao redor do tacho, um de cada vez, com uma grande colher de pau mexiam o leite até que ele engrossasse. A expectativa ficava para o final, quando todos disputavam quem iria raspar o tacho. Era uma verdadeira festa.

Lembrei também de quando ia visitar os meus avós paternos, na avenida Dr. Moura Ribeiro, no bairro do Marapé, em Santos, em uma casa com um pequeno pomar. Minha preferência era pela carambola, uma fruta exótica e agridoce, muito agradável de ser ingerida, especialmente no calor. Eu tinha de pedir a permissão do meu avô José para que pudesse colher um pouco. Ele invariavelmente sisudo, costumava deixar.

Curioso que as duas lembranças gastronômicas que ocorreram naquele instante, me remeteram a infância e aos meus avós. Apesar de ambas serem saborosas, ligadas ao paladar, o sentimento do todo foi diferente. Enquanto a primeira lembrança, a do doce de leite, acompanhava um momento mais alegre e divertido, a segunda, a da carambola, associava a imagem do meu avô, que pouco sorria. Percebi que essa memória ficou muito bem guardada, no cantinho do cérebro, bem lá no fundo. Quando despertada, mexe com as nossas emoções, que nos remete não somente ao fato ocorrido, mas a um conjunto de momentos e personagens que fazem parte da nossa história.

Foi muito bom poder estar presente em um momento significativo, positivo e alegre da vida do Gael. Tenho certeza de que, esse instante especial fará parte da sua memória afetiva. Os avós têm essa aptidão e oportunidade, de construir memórias agradáveis dos seus netos.

Setembro 2021, Marcos A F Franco

Foi, Corinthians


 Vai, Corinthians!

Foi o grito mais ouvido em todo o mundo na última semana. É impressionante o número de torcedores corintianos existentes em todo o mundo. Afinal foram eles que ganharam o título do mundial de clubes da FIFA? Ou foram os jogadores?

Sou santista de coração, mas fiquei comovido com esse movimento da grande massa corintiana. Eles decidiram ganhar esse título. Eles se mobilizaram, muitos venderam seus bens para viajar 18.500 quilômetros e tomar o estádio de Yokohama, a segunda cidade mais importante do Japão. O Bando de Loucos, como eles se intitulam, demonstraram todo o amor pelo seu time, algo mais vibrante do que já vimos, mesmo em uma Copa do Mundo, com a presença da seleção brasileira.

Haverá muitas histórias pessoais: desde quem pediu demissão do seu emprego; outro que só comprou as passagens, não tendo previsto onde iria dormir; outro que abandonou suas atividades; aquele que fez empréstimo e muito mais. Não importa qual sacrifício ou comprometimento foi feito. Aqueles que não foram, congestionaram o Aeroporto de Guarulhos quando o time embarcou e, se organizaram para acompanhar os dois jogos. No primeiro jogo, durante a sua transmissão, o trânsito nas cidades do estado de São Paulo diminuiu muito.

O time de guerreiros fez questão que um peruano, com o nome de Guerreiro, registrasse a sua marca composta de garra, humildade, união e simplicidade, para definir o memorável jogo. Afinal o oponente era um time inglês, do país que inventou o futebol, o campeão da Europa, tendo derrotado o maior time da atualidade: o Barcelona. Era uma missão muito difícil, o Chelsea contava com muitos craques de bola, dentre eles três brasileiros, altamente remunerados e com mais experiência internacional. O time do Corinthians sabia que muitos, mas muitos torcedores fanáticos, já tinham definido que aquele título seria deles. Vimos durante os eternos noventa minutos uma doação pessoal de todo o time, cada jogador se desdobrou, eles eram mais do que um, eles carregavam em seu peito uma motivação extra, eles tinham em sua alma uma determinação, eles tinham dentro si toda torcida vibrante.

A comissão técnica deu uma demonstração de muita competência, foi feliz em seu planejamento e, principalmente, na liderança para convencer todo o time a focar a sua meta. Competência e planejamento que tem a cara do futebol europeu, que nos últimos tempos tem reinado em nosso planeta. Será que esse exemplo corintiano pode nos ajudar para o sucesso de nossa seleção na Copa do Mundo de 2014, que será realizada no Brasil?

O tempo vai passar e ficará na memória de todos os brasileiros que foi o Corinthians que conquistou o tão sonhado e desejado título, mas acima de tudo, foi a energia e a solidariedade do Bando de Loucos que determinou como a história seria escrita.

Em 2012, foi Corinthians!

Dezembro 2012, Marcos A F Franco

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

A mímica do Pato

 

Oui. Essa é a palavra sim, em francês, que tem o som, muito próximo da nossa palavra oi. Minha primeira experiência na França aconteceu durante a Copa Mundo de 1998. Eu, e mais 30 pessoas, ganhamos a viagem em um concurso de vendas, para assistir dois jogos da seleção brasileira. Permanecemos lá, por 10 dias, conhecendo uma pequena parte daquele maravilhoso país. Paris é a linda capital da França, conhecida também como Cidade Luz, que até hoje, é o lugar mais visitado no mundo. Não faltam atrações de excelentes qualidades e locais históricos, infindáveis, de valores inestimáveis.

Acrescente-se a isso, as muitas variedades de excelentes queijos, vinhos, pães, enfim, toda culinária tradicional e, muito especial. O povo francês é muito exigente em seu dia a dia. Pesquisei e planejei muitos detalhes para aproveitar bem a viagem, pena, que não houve tempo de aprender a língua francesa. Claro, aprendi algumas palavras básicas, mas nem sempre a memória ajuda. Tinha também a informação, de várias pessoas, que por lá estiveram, de que os famosos andarilhos europeus, o povo francês, não eram muito cordiais com os turistas. Eu queria experimentar um dos pratos típicos, o Magret de Canard ou, em português, peito de pato gordo.

Caminhando, sozinho, pelo distrito de Saint-Germain-dés-Prés, avistei um simpático bistrot, discreto e com pouca gente. Fui recepcionado pelo garçom, que me indicou uma mesa e entregou o cardápio. Tudo parecia muito fácil, já estava me sentindo um parfait cidadão francês. O cardápio, com poucas opções, o que é normal em um bistrot, estava escrito em francês, por óbvio. Ao notar, que eu não tirava o olho do cardápio, o garçom se aproximou, evoluiu na conversação, utilizando-se de palavras que eu ainda não conhecia. A situação ficou engraçada, ele falava, eu olhava para ele, queria responder e não conseguia. Naquela época, não existia smartphone, com tradutor de idiomas, para ajudar. Acredito que ele tenha imaginado que eu era mudo. Ele apontava para o cardápio e explicava, o que dificultava ainda mais. Então, me levantei, balancei os braços e imitei o som de um pato. Ele riu muito, mas entendeu. Depois, pedir o vinho, foi mais fácil e, o pato estava maravilhoso. Realizei o desejo e aprendi que pato em francês é canard.

Pude visitar inúmeros lugares, como a Torre Eiffel, Arco do Triunfo, Palácio de Versalhes, Catedral de Notre-Dame e, tantos outros. Aprendi que o francês gosta de ouvir, dos turistas, algumas palavras no seu idioma, que são fundamentais para que eles nos recepcionem bem: Bomjour, Merci, Au revoir, em português: Bom dia, Obrigado e Até logo. Percebi, que essas três palavras, eles a pronunciavam com muito cuidado e carinho, quase que cantando. Entendi também, que independentemente do idioma, a gentileza faz de você uma pessoa importante.

Quanto a Copa do Mundo, assisti a derrota do Brasil, por dois gols a um, frente a Noruega, em Marselha, no Estádio Vélodrome e a vitória do Brasil, nas oitavas de final, por quatro gols a um, contra o Chile, em Paris, no Parc des Princes.

Merci, Au revoir

          Outubro 2021, Marcos A F Franco

Netos andarilhos e conectados

Tenho 3 netos, com 7, 5 e 3 anos. Mantenho contato com todos quase que semanalmente, em geral quando nos reunimos para um almoço de domingo. Momentos de muita alegria e intenso convívio como pedidos, reclamações, choros, brincadeiras, correrias, próprios da idade e que nos remete a nossa infância. A medida do possível interagimos com eles, ainda que de forma capenga, porque o nosso lado adulto nos coloca limites.

Mês passado, convivemos 1 semana completa com os netos mais novos: Gabriel e Mateus, devido a viagem do nosso filho Bruno e sua esposa Roberta, os pais dos dois. Fomos para São Paulo, no bairro da Vila Mariana, onde residem. Uma missão nova, avós cuidando de filhos do filho no seu dia a dia. Tarefas que já fizemos muito no passado, como levar à escola, refeições, hora do banho, hora de dormir, hora da TV, brincar com amiguinhos no prédio e uma nova super atração: joguinhos no tablet e celular, ah isso “é da hora”.

Gabriel, o neto mais velho, pergunta: - vô me dá seu Ipad? Quando ele pega o Ipad, seu olho brilha. Ele busca incessantemente novos jogos e pede para que o ajude a procurar e autorização para baixá-los, Depois insiste para jogar com ele e, explica com toda autoridade como funciona. São os tempos, duas gerações à frente, vô moderno tem que aprender. O mais novo, Mateus, mais tranquilo, mas tagarela, baixa um joguinho e fica mostrando suas vitórias: - oia vô, eu consegui!

No Sábado, logo cedo, depois de tomarmos café da manhã com “queca”, abreviação de panqueca com banana, farinha de aveia e um ovo, receia da Chef Claudia, super ajudante de alguns anos, saímos para um passeio no Parque Ibirapuera, fomos os 4 caminhando, um dando a mão para o vô e outro, dando a mão para a vovó. Os dois pequenos, durante o percurso estavam falantes, conversamos sobre coisas que víamos pelo caminho até chegar ao parque: árvores, flores, casas, carros, construção, uma feira. Andamos por uma passarela, sobre a avenida 23 de Maio e avistamos o Obelisco e o Monumento Mausoléu ao Soldado Constitucionalista de 32, registrando o feito em uma foto.

Andamos pelo parque, fomos ao playground, muita gente andando a pé, de bicicleta, de patins, de skate, jogando basquete, queimada, futebol, badminton e até frisbee, que o Mateus resolveu experimentar. Primeiro ficou olhando um casal jogar até que eles o convidaram para experimentar. Ele arriscou alguns arremessos e gostou.

Como ninguém é de ferro, o Gabriel pediu para descansar um pouco, tomamos água, eles comeram um doce, vimos os pássaros e muita gente passando. Após um tempo, já era hora de voltar, mas tinham quase 2 quilômetros em subida para serem percorridos, a pé, e aí a conversa foi se acabando. O menor, e bem robusto, queria colo, então o maior disse: - vovô, de carro seria mais rápido! Bem, o jeito foi falar sobre o menu do almoço, eles são bons de garfo e, falar também sobre o sorvete que teria depois do almoço.

Ah, o sorvete, rendeu mais de um quilometro de conversa. Cada um imaginou o seu sorvete. Falaram sobre vários tipos e sabores, enquanto o Gabriel queria um de menta, com granulados e chocolate por cima, o Mateus queria um picolé do Minions, personagem de filme infantil. Um tentando convencer o outro do que seria melhor. Assim chegamos na padaria para comer os sanduiches que eles queriam. O Gabriel pediu um hot dog e o Mateus com o seu famoso: - deixa eu falar? Quis um hamburguer.

Andaram 6 quilômetros e no meio da tarde ainda foram correr e brincar no parquinho do condomínio. Ah, mas antes, se banquetearam na sorveteria, com direito a fotos babadas.

Ouço falar que a convivência com os mais novos é fundamental para a manutenção mental dos mais velhos e, os netos nos dão essa oportunidade. Você não sabe se volta no tempo ou se está indo para além do seu tempo. Você se vê pequeno em um tempo que não é seu. Se eles ganharão algo conosco, o tempo irá dizer, mas nós, os avós, ganhamos muito, muitos sorrisos, gargalhadas, energia, carinhos, novas informações, conversas, atenção, amizade e muitas saudades. Sou feliz em poder conviver com meus netos, uma experiência impagável.

Setembro 2021, Marcos A F Franco

Um certo Coronel da gelada

 

O Coronel, todos os fins de semana e feriados, após o café da manhã, arrumava sua mochila de tênis, com roupa, raquete, garrafa de água. Poderia ser sua farda, armas e cantil. Chamava um taxi e seguia para o Tenis Clube de Santos. É como se ele estivesse a caminho do quartel. Tranquilo, mas na expectativa de que logo encontraria seus parceiros de tênis. Meticuloso com sua rotina, assim que chegava desejava um bom dia para os colaboradores, com seu jeito discreto e sério, mas afável. Carregando sua mochila, com o andar firme de um ex militar, adentrava no vestiário e colocava a sua farda de jogador, para a batalha com os amigos.

Chegando na quadra recebia um efusivo bom dia Rivaldo, bom dia Coronel ou até mesmo, para os mais íntimos, bom dia Peruquinha, mas era raro. Somente quando alguém estivesse com a intenção de perturbá-lo, antes da partida. Durante o jogo ele seguia à risca todas as regras do esporte, a exceção do saque, que deveria ser feito somente a favor do sol. Assim, cada jogador, ou dupla executava o seu serviço por duas vezes seguida, ordenado por dele. Às vezes, com adversários mais novos, determinava a dimensão da quadra, sendo que para ele, o limite do jogo seriam as linhas de simples e para o adversário valeria as de duplas, ou seja, um tamanho maior da quadra.

Após o jogo, durante o banho, contava alguns casos pertinentes ao gênero masculino, despertando a atenção de alguns. Nascido nos anos vinte, do século vinte, acumulou muita experiência no exército e na iniciativa privada. Ele tinha muito orgulho da sua vitalidade e encorajava os mais jovens a praticar muitos exercícios. Não lembro de qualquer reclamação que ele tenha feito sobre seu próprio físico.

Para o Coronel, jogar era só o preâmbulo de um bom dia. Conversar com os amigos na mesa do bar, após o jogo, completava plenamente um dia bem vivido. Geralmente era o primeiro a sentar, escolhendo o lugar com a melhor vista, para observar o movimento das pessoas no clube. Após sentar-se, colocava em cima da mesa um queijo especial, que oferecia rotineiramente aos amigos e para qualquer um que se juntasse à mesa.

Quando o garçom se aproximava, pedia uma Brahma gelada e, muitas vezes, assim que a cerveja era aberta, ele aferia a temperatura dela com um termômetro especial. Repetiu essa atitude por muito tempo até que todos no clube passaram a pedir a Brahma estilo coronel, ou seja, bem gelada, com uma névoa branca em torno da garrafa, mas o líquido ainda não congelado. Poucos sabiam que, ao chegar no clube, antes de se dirigir ao vestiário, ele passava pelo bar para recomendar ao copeiro, como a cerveja tinha que ser gelada. Era o seu segredo.

Sentar-se à mesa com o Coronel, era um privilégio, mas tinha que se cumprir algumas regras. Existia um valor a ser depositado em um envelope, assim que se sentasse, que ficava ao lado do Coronel, a exceção dos que quisessem outro tipo de bebida. Ele determinava o valor a ser colocado e, ao final, acertava a conta do dia, incluindo uma gorjeta especial para o copeiro, que cuidava da cerveja bem gelada. Outra regra era não falar de doenças, mas política, economia e muitas piadas ele permitia. Participar da roda da mesa do Coronel, com ele presente, era aprender um pouco mais sobre a vida. Ele, no seu modo tranquilo e matuto, estimulava que seus amigos também contassem suas histórias.

Já há algum tempo ele foi comandar outra mesa no céu. O Clube providenciou uma placa em sua homenagem escrito: “Mesa do Coronel”, no local que costumeiramente utilizava, demonstrando assim todo o carinho que todos tinham pelo Rivaldo, o Coronel da cerveja gelada, do queijo especial, da disciplina, da felicidade em ver os amigos jogando, sorrindo e jogando conversa fora.

Setembro 2021, Marcos A F Franco

Quer saber qual é o certo?

Conheci uma pessoa de personalidade muito peculiar, em uma fábrica que trabalhei, no início de minha vida profissional. Seu nome era Ângelo, que em grego significa mensageiro e, no latim, significa anjo. Um senhor dos seus 45 anos, falante e vigoroso. Era o chefe do departamento chamado de ferro-liga. São ligas de ferro com outro elemento químico, que são usados na fabricação de aços, como também para as ligas ferrosos. Durante o processo da fabricação, quando o aço se encontra em estado líquido, são adicionados os ferros-liga para mudar a composição química do aço e dar uma característica especial a este. Essa foi uma das primeiras atividades dessa empresa que, posteriormente, passou a fabricar, também, ligas de alumínio, para a indústria automobilística. Nesse departamento eram processados alguns produtos, utilizando-se diversas peneiras para se obter tamanhos variados, de acordo com as encomendas.

Ângelo era responsável pelo bom andamento dos serviços, comandando um grupo de trabalhadores desse setor. Ele era um verdadeiro leão no trabalho, um tipo de liderança natural, também conhecida como paternalista, cujas características são marcantes na defesa e proteção do seu grupo. Qualquer falha, ocorrida no processo, que dependia muito das pessoas, ele, naturalmente, defendia o grupo, muitas vezes argumentando que o erro não era motivado pela sua equipe. Ele trabalhava na empresa desde rapaz, e desde a fundação da empresa, quando só existia essa atividade e a produção de alumínio estrela. Gozava de total confiança dos sócios, com muita justiça.

Certa vez, em uma reunião realizada pela gerência, após o controle de qualidade identificar um erro na moagem de um produto, ele foi indagado sobre esse problema. Sem saída, para defender o responsável pelo erro, ou se era um problema do processo, ele, imediatamente falou, em alto e bom som: “Vocês querem saber qual é o certo? Pois bem, o certo, é o certo mesmo!” Desta feita foi a forma que ele encontrou para defender o seu grupo. A reunião acabou e essa explicação viralizou na boca de todos, por meio da rádio peão.

A primeira reação que temos, ao sermos inquiridos por um erro é a da negação. É uma atitude instintiva de defesa que, muitas vezes, nem esperamos o interlocutor terminar a sua fala e já nos defendemos. Existem outros estilos de liderança, como o coercitivo, o consultivo e o participativo, que devem ser aplicados em momentos e situações diferentes, sempre que necessário. Ângelo optou por ser o anjo do seu grupo, fazendo jus a origem latina do seu nome. 

Outubro 2021, Marcos A F Franco

terça-feira, 29 de agosto de 2023

Os resquícios no rio da pandemia

“A seca bebeu os rios/Só deixou pedra e poeira/A roça só tem garrancho/O curral só tem caveira/A gente é bicho enjeitado/Que não tem ninguém que queira”.

Ao ler esse trecho da música Retirante, de autor desconhecido, que integra a peça Auto do reino do sol, escrito por Ariano Suassuna, logo percebi muita semelhança com a pandemia do COVID 19.

É interessante como o nosso comportamento se aflora diante desse inimigo invisível e cruel. Assim como os resquícios que aparecem quando um rio seca, a pandemia nos desnuda mostrando nossas atitudes e pensamentos inimagináveis. Diante do inesperado, nosso medo, nos transforma. Temos medo, mas negamos que o problema é grave até que o mal nos atinja, culpamos nossos governantes por falta de ações concretas ou por ações ineficazes, mas não oferecemos soluções reais, passamos a prescrever e utilizamos remédios, ainda não comprovados cientificamente, para prevenção, mas não temos a certeza da sua eficácia.

O rio secou e os fragmentos de nossas imperfeições apareceram, como a falta de confiança em profissionais experientes, muitos discursos e mensagens nas mídias sociais feitos por leigos, como se especialistas fossem, a incompreensão por aqueles que não podem trabalhar, pois os clientes se escassearam, como os pescadores sem peixes quando o rio seca.

O egoísmo idiota dos que pensam que são autoimunes que se expõe levando o vírus inimigo para o seu amigo. Há também a indiferença por aqueles que não podem estudar. Os governantes, naturalmente inexperientes, despreparados e desfocados do grave problema titubeiam para decidir as atitudes corretas e até generais sem guerra não utilizam as armas adequadas para vencer cada batalha, exemplo maior o governo federal que demorou um ano para iniciar a instalação de um comitê de crise específico (ainda que no âmbito político).

José Saramago, em seu livro Ensaio sobre a cegueira descreve reações semelhantes em um mundo cuja cegueira de todos é o sintoma de uma hipotética pandemia.

É muito difícil a reação positiva de todos. Acredito que o melhor remédio é a solidariedade, acatar definitivamente o vacine-se, use a máscara, lave muito as mãos, não se aglomere, ou não se junte, acredite em quem é especialista no assunto, colabore com o seu prefeito (ainda que algumas medidas não deem certo de imediato), não reverbere mensagens de leigos.

Os profissionais da saúde que estão na linha de frente deste combate, nossos guerreiros, precisam da nossa ajuda, a guerra está pesada e eles vão perdendo suas forças físicas e emocionais. Nos protegendo, eles lutarão contra menos inimigos.

A solidariedade é fazer algo que o outro necessita, de forma gratuita. O momento exige que ajudemos os que estão mais necessitados, principalmente os que ficaram sem renda. Isso não é difícil fazer, dá trabalho, mas se não tiver dinheiro, vale pedir por quem necessita. Também vale insistir com os políticos para desenvolverem programas urgentes para que essas pessoas possam sobreviver dignamente e evitando que se contaminem.

Quando um rio seca, é difícil saber quando ele terá água novamente, dependerá do tempo e de outros fatores do meio ambiente, parte controlada pelo homem e outra pela natureza. A pandemia, também é assim, embora com vacinas, ela ainda continuará por um tempo indeterminado. A vacina é uma arma poderosa, mas não é infalível.

A solidariedade também é uma arma a ser utilizada por todos, seja doando alimento, com informações corretas, estimulando, compreendendo, viabilizando ações comunitárias. A pergunta é: o que posso fazer de melhor para o combate da pandemia que gerarão resultados positivos para todas as pessoas? As respostas são difíceis, mas não impossíveis.

Janeiro 2021, Marcos A F Franco

Handebol Feminino - Campeão mundial com méritos

Há 2 anos, presenciamos o 20º Mundial de Handebol Feminino, realizado no Brasil, tendo Santos como sede de um dos grupos, onde presenciamos a final olímpica antecipada de 2012, quando a potente seleção da Noruega enfrentou a seleção de Montenegro.

Desta feita, na Sérvia, ocorreu o 21º Mundial, e o Brasil saboreou a vitória, com poucos torcedores presentes e sem TV. Foi campeão invicto, ao derrotar a forte seleção da casa.

Fruto de um trabalho de longo prazo, com metas, com parceria internacional e com atletas de alto nível, sendo uma delas considerada a melhor do mundo - Alexandra Nascimento. O Brasil foi a segunda seleção do planeta, fora da Europa, a realizar este feito. Uma conquista que parecia impossível, mas que a determinação, competência e um feliz casamento com o técnico dinamarquês, Morten Soubak deixará um bom exemplo de como podemos progredir realizando parcerias por mérito.

 Fevereiro 2014, Marcos A F Franco

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Queijo bom dimaidaconta

Quase que semanalmente faço compras em uma loja de cereais, onde se pesa a quantidade de cada produto que se queira comprar.

Desta vez ouvi uma voz mineira, bem próxima, de prosódia diferenciada da costumeiramente ouvida aqui em Santos. Era uma senhora fazendo seus pedidos para outro atendente. Seu sotaque, em uma voz suave, com um “jentin” bem característico de Minas não deixava dúvidas.

Após concluir os meus pedidos, dirigindo-me ao caixa, parei diante da geladeira dos queijos e a voz mineira, com muita amabilidade, me perguntou se eu já havia experimentado aquele queijo. Tinha dúvidas e achou o pedaço grande para ela.

Então, quando lhe perguntei se poderia guardar uma parte do queijo no freezer, para consumo posterior, ela olhou firme nos meus olhos e, respondeu com todo conhecimento, autoridade e orgulho mineiro: “sou de São Lourenço. Não se guarda queijo no freezer. Na minha terra os queijos são uma delícia. Adoro a minha cidade e quando viajo para lá, ao chegar em Cruzeiro meu coração já bate mais forte”.

Ela pegou o queijo da geladeira, com muito cuidado, e disse que Santos também é uma boa cidade para se viver. Agradeci a lição, peguei um queijo meia cura na certeza de que esse trem é bom, “dimaidaconta”, mas fora do freezer.

Nenhum encontro é casual porque todos trazem uma finalidade. E, nesse caso, a senhora mineira, com a sua maneira mansa de falar, alertou-me para algo, para mim, ainda era pouco conhecido.  E, agora, arrisco afirmar que sempre é tempo de aprender. E o melhor exercício é aquele que é adquirido a partir da convivência e do imediato compartilhamento, práticas essenciais para o verdadeiro aprendizado.

Julho 2021, Marcos A F Franco

Muita Paz para o Matheus

Após o Natal de 2013, recebi em minha casa para os festejos de fim de ano a minha sobrinha Marilia e seu marido Fred, acompanhados de seus dois lindos filhos: Jhoão e Matheus. Eles vieram de Piracicaba rever a família e tomar um banho de mar. É isso mesmo, os dois meninos possuem a letra h em seus nomes, acredito que para identificar o sexo. Jhoão, com 3 anos, um alemãozinho de olho azul, esperto, conversador e guloso. Ele já esteve em nossa casa, no ano passado, e continua preocupado com seu almoço. A surpresa foi o pequeno e forte Matheus, o Leitãozinho, como o seu pai o chama. Completando os seus primeiros noventa dias, mas muito desenvolvido, graças a alimentação direta da fonte da sua mãe.

Matheus só chora para pedir mais “tete”. Ele faz força para virar de lado, fica todo feliz quando o colocamos sentado. Também se comunica muito, através do seu olhar e sorrisos. Foi em uma dessas conversas que tive com ele que me fez refletir sobre o Ano Novo, afinal é um momento apropriado. O que queremos que seja melhor para as nossas vidas? Mais bens materiais, bons amigos, viagens, saúde, dinheiro, bem-estar para os familiares, conquistas, realização de sonhos, políticos éticos e pensando na melhora do Brasil? Cada um de nós tem um pensamento e uma expectativa positiva, ainda que para se conquistar o desejado dependa-se de outras pessoas ou de muitas iniciativas.

O Matheus me olhou muito, sorriu e pensou: “No momento eu quero que Deus cuide muito bem da minha mãe, ela tem o meu leite especial, quero muita segurança para ela, que não aconteça nada de ruim e que ela esteja sempre ao meu lado me dando muito carinho.” Simples assim. Então me deixou muito claro que temos muitas etapas em nossa vida e, cada uma delas exigirá sempre segurança em torno daqueles de quem dependemos, para a nossa felicidade. Como sonhar com segurança com o atual nível de violência que convivemos? Alto índice de criminalidade, muita corrupção, aumento do consumo de drogas e por aí vai.

Entendo que essa questão é cultural e que existem muitos fatores que contribuem para gerar mais violências em nosso cotidiano, como o tom de voz, a falta de paciência com as crianças, a difusão da comunicação por monólogos, a falta de investimentos pessoais e programas de governo para uma educação de qualidade. Investir um pouco de esforço pessoal no dia a dia para uma convivência coletiva, em detrimento do interesse individual, ajudaria muito para não gerar mais violência. 

Falei para o Matheus que sonho com um programa de Violência Zero, onde cada cidade e estado poderia ter seus parâmetros de avaliação: um Medidor da Paz. Todos os cidadãos e poderes públicos pudessem participar ativamente desse objetivo. Mostrar menos violências para as crianças, através de atitudes pessoais no cotidiano, com palavras simples: por favor, obrigado, desculpe-me e atitudes: um sorriso, mais paciência e compreensão.

Muita Paz para o Matheus.

Janeiro 2014, Marcos A F Franco

Cego, Surdo e Bem-casado

Enquanto caminhava na esteira da academia, ouvi de um personal trainer uma afirmação curiosa: “O casamento afeta os sentidos, especialmente ...