O Coronel, todos
os fins de semana e feriados, após o café da manhã, arrumava sua mochila de
tênis, com roupa, raquete, garrafa de água. Poderia ser sua farda, armas e
cantil. Chamava um taxi e seguia para o Tenis Clube de Santos. É como se ele
estivesse a caminho do quartel. Tranquilo, mas na expectativa de que logo encontraria
seus parceiros de tênis. Meticuloso com sua rotina, assim que chegava desejava
um bom dia para os colaboradores, com seu jeito discreto e sério, mas afável.
Carregando sua mochila, com o andar firme de um ex militar, adentrava no
vestiário e colocava a sua farda de jogador, para a batalha com os amigos.
Chegando na
quadra recebia um efusivo bom dia Rivaldo, bom dia Coronel ou até mesmo, para
os mais íntimos, bom dia Peruquinha, mas era raro. Somente quando alguém
estivesse com a intenção de perturbá-lo, antes da partida. Durante o jogo ele seguia
à risca todas as regras do esporte, a exceção do saque, que deveria ser feito somente
a favor do sol. Assim, cada jogador, ou dupla executava o seu serviço por duas
vezes seguida, ordenado por dele. Às vezes, com adversários mais novos,
determinava a dimensão da quadra, sendo que para ele, o limite do jogo seriam
as linhas de simples e para o adversário valeria as de duplas, ou seja, um
tamanho maior da quadra.
Após o jogo,
durante o banho, contava alguns casos pertinentes ao gênero masculino,
despertando a atenção de alguns. Nascido nos anos vinte, do século vinte, acumulou
muita experiência no exército e na iniciativa privada. Ele tinha muito orgulho
da sua vitalidade e encorajava os mais jovens a praticar muitos exercícios. Não
lembro de qualquer reclamação que ele tenha feito sobre seu próprio físico.
Para o Coronel,
jogar era só o preâmbulo de um bom dia. Conversar com os amigos na mesa do bar,
após o jogo, completava plenamente um dia bem vivido. Geralmente era o primeiro
a sentar, escolhendo o lugar com a melhor vista, para observar o movimento das
pessoas no clube. Após sentar-se, colocava em cima da mesa um queijo especial,
que oferecia rotineiramente aos amigos e para qualquer um que se juntasse à
mesa.
Quando o
garçom se aproximava, pedia uma Brahma gelada e, muitas vezes, assim que a
cerveja era aberta, ele aferia a temperatura dela com um termômetro especial. Repetiu
essa atitude por muito tempo até que todos no clube passaram a pedir a Brahma
estilo coronel, ou seja, bem gelada, com uma névoa branca em torno da garrafa,
mas o líquido ainda não congelado. Poucos sabiam que, ao chegar no clube, antes
de se dirigir ao vestiário, ele passava pelo bar para recomendar ao copeiro,
como a cerveja tinha que ser gelada. Era o seu segredo.
Sentar-se à
mesa com o Coronel, era um privilégio, mas tinha que se cumprir algumas regras.
Existia um valor a ser depositado em um envelope, assim que se sentasse, que
ficava ao lado do Coronel, a exceção dos que quisessem outro tipo de bebida.
Ele determinava o valor a ser colocado e, ao final, acertava a conta do dia,
incluindo uma gorjeta especial para o copeiro, que cuidava da cerveja bem
gelada. Outra regra era não falar de doenças, mas política, economia e muitas
piadas ele permitia. Participar da roda da mesa do Coronel, com ele presente,
era aprender um pouco mais sobre a vida. Ele, no seu modo tranquilo e matuto, estimulava
que seus amigos também contassem suas histórias.
Já há algum
tempo ele foi comandar outra mesa no céu. O Clube providenciou uma placa em sua
homenagem escrito: “Mesa do Coronel”, no local que costumeiramente utilizava,
demonstrando assim todo o carinho que todos tinham pelo Rivaldo, o Coronel da
cerveja gelada, do queijo especial, da disciplina, da felicidade em ver os
amigos jogando, sorrindo e jogando conversa fora.
Setembro 2021, Marcos A F Franco
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