Dia desses fui assistir à apresentação final do projeto “Criança não trabalha, criança dá trabalho”, na escola onde meu neto Gael estuda. Ele cursa o 2º ano do ensino fundamental. Os pais e avós foram convidados para participar. Primeiro ouvimos a apresentação de um jogral, integrado por todos os alunos da mesma classe do Gael. Depois, participamos de duas brincadeiras interativas entre os adultos e os alunos, coordenadas pelas professoras. Em seguida, antes de degustar a merenda que cada pai levou, a professora pediu para os adultos que falassem qual era a memória afetiva gastronômica de cada um. A sugestão da merenda foi exatamente essa: cada pai levar o alimento de preferência da sua memória afetiva. Foi uma sensação agradável e imediata. Naquele instante retrocedi mais de cinquenta anos em um segundo.
Lembrei de
quando passava as férias na fazenda dos meus avós maternos, no bairro das
Pitas, em Paraibuna, hoje tomada por uma represa. Minha avó Izabel comandava,
com meus muitos tios e primos, a fabricação de doce de leite em um grande tacho
de cobre. Em um local coberto e muito simples se acendia o fogo no chão, para
esquentar o tacho. O leite era de fabricação própria, das vacas da fazenda,
ordenhadas ao amanhecer. Todos ao redor do tacho, um de cada vez, com uma
grande colher de pau mexiam o leite até que ele engrossasse. A expectativa
ficava para o final, quando todos disputavam quem iria raspar o tacho. Era uma verdadeira
festa.
Lembrei
também de quando ia visitar os meus avós paternos, na avenida Dr. Moura
Ribeiro, no bairro do Marapé, em Santos, em uma casa com um pequeno pomar.
Minha preferência era pela carambola, uma fruta exótica e agridoce, muito
agradável de ser ingerida, especialmente no calor. Eu tinha de pedir a
permissão do meu avô José para que pudesse colher um pouco. Ele invariavelmente
sisudo, costumava deixar.
Curioso que
as duas lembranças gastronômicas que ocorreram naquele instante, me remeteram a
infância e aos meus avós. Apesar de ambas serem saborosas, ligadas ao paladar,
o sentimento do todo foi diferente. Enquanto a primeira lembrança, a do doce de
leite, acompanhava um momento mais alegre e divertido, a segunda, a da
carambola, associava a imagem do meu avô, que pouco sorria. Percebi que essa
memória ficou muito bem guardada, no cantinho do cérebro, bem lá no fundo.
Quando despertada, mexe com as nossas emoções, que nos remete não somente ao
fato ocorrido, mas a um conjunto de momentos e personagens que fazem parte da
nossa história.
Foi muito bom
poder estar presente em um momento significativo, positivo e alegre da vida do
Gael. Tenho certeza de que, esse instante especial fará parte da sua memória
afetiva. Os avós têm essa aptidão e oportunidade, de construir memórias
agradáveis dos seus netos.
Setembro 2021, Marcos A F Franco

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