terça-feira, 29 de agosto de 2023

Os resquícios no rio da pandemia

“A seca bebeu os rios/Só deixou pedra e poeira/A roça só tem garrancho/O curral só tem caveira/A gente é bicho enjeitado/Que não tem ninguém que queira”.

Ao ler esse trecho da música Retirante, de autor desconhecido, que integra a peça Auto do reino do sol, escrito por Ariano Suassuna, logo percebi muita semelhança com a pandemia do COVID 19.

É interessante como o nosso comportamento se aflora diante desse inimigo invisível e cruel. Assim como os resquícios que aparecem quando um rio seca, a pandemia nos desnuda mostrando nossas atitudes e pensamentos inimagináveis. Diante do inesperado, nosso medo, nos transforma. Temos medo, mas negamos que o problema é grave até que o mal nos atinja, culpamos nossos governantes por falta de ações concretas ou por ações ineficazes, mas não oferecemos soluções reais, passamos a prescrever e utilizamos remédios, ainda não comprovados cientificamente, para prevenção, mas não temos a certeza da sua eficácia.

O rio secou e os fragmentos de nossas imperfeições apareceram, como a falta de confiança em profissionais experientes, muitos discursos e mensagens nas mídias sociais feitos por leigos, como se especialistas fossem, a incompreensão por aqueles que não podem trabalhar, pois os clientes se escassearam, como os pescadores sem peixes quando o rio seca.

O egoísmo idiota dos que pensam que são autoimunes que se expõe levando o vírus inimigo para o seu amigo. Há também a indiferença por aqueles que não podem estudar. Os governantes, naturalmente inexperientes, despreparados e desfocados do grave problema titubeiam para decidir as atitudes corretas e até generais sem guerra não utilizam as armas adequadas para vencer cada batalha, exemplo maior o governo federal que demorou um ano para iniciar a instalação de um comitê de crise específico (ainda que no âmbito político).

José Saramago, em seu livro Ensaio sobre a cegueira descreve reações semelhantes em um mundo cuja cegueira de todos é o sintoma de uma hipotética pandemia.

É muito difícil a reação positiva de todos. Acredito que o melhor remédio é a solidariedade, acatar definitivamente o vacine-se, use a máscara, lave muito as mãos, não se aglomere, ou não se junte, acredite em quem é especialista no assunto, colabore com o seu prefeito (ainda que algumas medidas não deem certo de imediato), não reverbere mensagens de leigos.

Os profissionais da saúde que estão na linha de frente deste combate, nossos guerreiros, precisam da nossa ajuda, a guerra está pesada e eles vão perdendo suas forças físicas e emocionais. Nos protegendo, eles lutarão contra menos inimigos.

A solidariedade é fazer algo que o outro necessita, de forma gratuita. O momento exige que ajudemos os que estão mais necessitados, principalmente os que ficaram sem renda. Isso não é difícil fazer, dá trabalho, mas se não tiver dinheiro, vale pedir por quem necessita. Também vale insistir com os políticos para desenvolverem programas urgentes para que essas pessoas possam sobreviver dignamente e evitando que se contaminem.

Quando um rio seca, é difícil saber quando ele terá água novamente, dependerá do tempo e de outros fatores do meio ambiente, parte controlada pelo homem e outra pela natureza. A pandemia, também é assim, embora com vacinas, ela ainda continuará por um tempo indeterminado. A vacina é uma arma poderosa, mas não é infalível.

A solidariedade também é uma arma a ser utilizada por todos, seja doando alimento, com informações corretas, estimulando, compreendendo, viabilizando ações comunitárias. A pergunta é: o que posso fazer de melhor para o combate da pandemia que gerarão resultados positivos para todas as pessoas? As respostas são difíceis, mas não impossíveis.

Janeiro 2021, Marcos A F Franco

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