quinta-feira, 12 de setembro de 2024

EQUIPE DE VENDA SOLITÁRIA

 


Você já ouviu falar de que na prática a teoria é outra?

Ao constituir a minha empresa de vendas no varejo de conveniência, busquei a contratação de 7 profissionais experientes. Eles seriam os nossos vendedores e principais elos com os clientes. Teriam como primeiro objetivo formar uma carteira básica para dar suporte ao novo negócio.

Oriundo da área de recursos humanos, com uma larga experiencia em contratações, iniciei a procura divulgando as vagas nos meios de comunicação e visitando potenciais clientes que pudessem indicar bons profissionais.

O tempo para formação do futuro time da Barcelona Distribuidora era exíguo. O cronograma para o começo do jogo, o início do funcionamento da empresa, já estava determinado, assim como uma partida de futebol. Os ingressos estavam sendo vendidos, nesse caso, a aquisição das mercadorias a serem distribuídas.

Após uma criteriosa análise de diversos currículos e intensas entrevistas individuais acertamos a contratação deles, agendando o início para o primeiro dia do Ano Novo. A expectativa de contarmos com os melhores do mercado foi sendo arrefecida. Começamos a entender melhor as características dessa função. Por ser comissionado, o próprio vendedor é quem faz o seu salário. Para atrair os melhores não bastavam promessas e intenções.

O fato de a empresa ser nova era uma questão a ser superada no convencimento com os futuros campeões de venda. Quem quer apostar no desconhecido? Tivemos que considerar a contratação de vendedores mais novos e apostar em seus potenciais.

Durante as entrevistas, os candidatos preferem expor suas experiências positivas. Todos eles seriam capazes de vender um lugar no céu. À medida que iam sendo submetidos a perguntas, o paraíso ficava mais longe.

Ainda assim, o otimismo permanecia. Iniciar um novo negócio, sem o total conhecimento dele é um imenso desafio. A todo instante surgem novas informações e obstáculos. A gente se sente andando em uma imensa montanha russa. Chegaremos ao ponto final, mas não temos noção das curvas, subidas e descidas que experimentaremos durante o trajeto. Haja emoção!

As demais providências, como a reforma do depósito, aquisição dos veículos para entrega, contratação de motoristas, auxiliares de estoque, o programa moderno de faturamento foram se concretizando.

O dia previsto para a inauguração da empresa era 2 de janeiro. Ano Novo, empresa nova. Cheguei cedo para preparar as pastas com catálogos dos produtos para os vendedores. Na hora marcada, chegou o nosso primeiro recruta. Ele pegou a pasta, recebeu as instruções e saiu para o seu combate.

O tempo foi passando, a nossa ansiedade crescendo, mas os demais 6 contratados não apareceram. O telefone também não tocou. Todo o funcionamento e sucesso da empresa dependeria deles. A frustação foi imensa, mas seguimos em frente.

Aprendemos muito com esse amargo episódio. Apesar de parecer estranho, a escolha final no processo de contratação de um vendedor é decidida por ele. Essa função requer de um profissional com habilidades, atitudes e conhecimentos específicos para conviver com compradores heterogêneos nas mais diversas situações. A sua sensibilidade, a empatia e a capacidade de decisão são determinantes para o sucesso nos negócios.

Com paciência e contando com a experiência de outros profissionais montamos uma equipe que durante 15 anos ganhou diversos campeonatos. Vários vendedores passaram por nossa empresa, em sua maioria bons profissionais que ajudaram a construir uma marca sólida e prestando um excelente serviço para os clientes.

Marcos A F Franco - Março 2024


sábado, 24 de agosto de 2024

ENTREVISTA ao PROGRAMA JOVENS PENSADORES


Esse programa nos traz o empresário e escritor, membro da Academia Santista de Letras, o rotariano MARCOS FRANCO, que nos fala de seus livros infantis, sobre seu esporte preferido, o tênis, numa linguagem fácil, em deliciosa narrativa! Vale muito a pena assistir!!!
https://youtu.be/VZduebx4beI?si=8H7sduG4QR6hr9Gc
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sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Frequência 100% em Rotary, estratégia incomum


 

Qual é o ex-governador de distrito que não tem uma boa história para contar sobre o seu ano rotário?

Histórias são as munições utilizadas nos encontros de ex-governadores. Mais do que contar vantagens, elas agregam experiências e muitas risadas. Basta um pequeno fato pitoresco para que ele seja lembrado e contado com algumas ênfases, artifícios e temperos próprios. Afinal, quem conta um conto aumenta um ponto.

Ainda como um aprendiz de ex-governador, fui representar o Presidente do Rotary International na Conferência do Distrito 4500, que abrange os clubes dos estados de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. É o Distrito dos ex-diretores Mário Antonino e Bira. Foi um prêmio que eu ganhei. Pude conviver com grandes líderes e vivenciar a cultura rotária nordestina da gema.

Oh lugar de caba bom! Além de se dedicarem ao desenvolvimento do Rotary, são musicais, excelentes anfitriões e gostam de uma boa prosa, especialmente durante um farto almoço. Foi em um desses momentos, em uma mesa composta por grandes rotarianos, especialmente os ex-governadores Mário Antonino, Aluísio Almeida, Alberto Bittencourt e pelo compositor, teatrólogo, escritor e contista, Reinaldo Oliveira. Uma figura ímpar e imperdível. Todos falando sobre o Rotary e de suas aventuras nas Visitas Oficiais. Oportunidade em que Reinaldo fez questão de revelar algo incomum.

Diferente dos dias de hoje a frequência dos associados nas reuniões de seus clubes, no século passado, era uma exigência bem monitorada pelos governadores. Em determinado momento, da reunião administrativa com o Presidente e Secretário de um clube, em uma pequena cidade da Paraíba, Reinaldo perguntou qual era a frequência média nas reuniões do clube. O Presidente, sem titubear afirmou que era de 100%. Reinaldo insistiu perguntando qual seria a frequência sem considerar as recuperações. Novamente o Presidente repetiu que era de 100%.

Reinaldo, admirado da incomum performance, perguntou como funcionava o controle e o que motivava os companheiros a serem tão devotos das reuniões. O Presidente respondeu com muita simplicidade. Governador o nosso clube possui 25 associados e a nossa cidade é pequena, o que facilita atingirmos esse percentual. Entretanto, temos como aliadas as nossas esposas.

— Esposas? Explica melhor — perguntou Reinaldo demonstrando curiosidade.

— Sim, são elas que incentivam os seus maridos a não faltarem em nossas reuniões. Existia até um tempo atrás ausências nas reuniões. Então, por uma atenção pessoal, quando isso ocorria, a maioria dos companheiros do clube ia fazer uma visita ao ausente, em sua residência. Essa visita acontecia no horário do almoço de sábado, momento mais provável para encontrá-lo. Depois de duas ocorrências dessas, ninguém mais faltou.

O controle da frequência caiu em desuso pela maioria dos clubes, entretanto a ausência de companheiros continua sendo sentida. Fica a lição de que boas estratégias para melhorar a frequência dão resultados e fortalece o clube.

Abril 2024, Marco A F Franco

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Visita Oficial a clube rotário encerrado

 

Eu falei com um anjo rotário! Só pode ser.

Dizem que eles passam pelas nossas vidas e não deixam pegadas.

Era o ano de 2008, quando eu retornava do excelente Instituto Rotary Brasil de Belo Horizonte. Enquanto aguardava o meu voo, um ex-Governador de um distrito do interior de São Paulo resolveu tomar seu cafezinho acompanhado do imperdível pão de queijo. Justamente, no mesmo local em que eu estava.

Eu e ele portávamos o pin rotário. Nessa época eu já era Governador designado do meu distrito. Fase em que nossos olhares e curiosidades ficam aguçados. Rapidamente nos apresentamos e para minha sorte os voos atrasaram. Pude ouvir uma história de uma experiência incrível que ajudou a nortear as minhas decisões e iniciativas relativas ao desenvolvimento do quadro associativo.

Como ex-presidente de clube eu já tinha trabalhado profundamente nesse assunto, liderando a fundação de 3 clubes. Ele, consciente da importância em manter e desenvolver o Rotary em sua região trabalhou com afinco para o crescimento e manutenção de clubes.

Quando de suas Visitas Oficiais, em uma rota longínqua de viagem, após duas visitas realizadas, chegou em uma pequena cidade cumprindo o cronograma definido e ajustado com os Presidentes. Após alguns quilômetros rodados ele e sua esposa estacionaram o seu carro em um posto de gasolina, o local e hora definida para o encontro com os membros do Clube.

Aguardaram por mais de 1 hora, quando ele decidiu contatar o secretário do Clube. Ainda não existia uma rede de comunicação de celulares confiável. Ele foi obrigado a buscar o telefone fixo. Ao atender o telefone e saber quem estava ligando, o secretário informou de que o Clube já não existia mais, portanto não haveria a Visita Oficial.

O nosso anjo rotário, calmo e ciente de sua missão, solicitou a presença do secretário para entender melhor o ocorrido. O secretário ao final do encontro, foi convencido pelo Governador a agendar uma reunião com o Prefeito da cidade, pai da então presidente do Clube. O casal se submeteu a posar aquela noite, como fala o caipira, em uma pequena pensão, em um quarto sem banheiro.

No dia seguinte o Prefeito o recebeu, sem a presença da sua filha, mas junto com o secretário do clube. Quando o Governador chegou ao gabinete do Prefeito, ainda ansioso de como ele poderia estabelecer um vínculo pessoal como estratégia de negociação, avistou um quadro de uma ex-jogadora de vôlei da seleção brasileira.

Ao iniciar sua conversa, soube que ela nasceu na cidade. Vínculo estabelecido, ele ouviu do Prefeito que embora boa parte dos rotarianos que deixaram o clube fossem funcionários públicos, eles estavam desinteressados, restando apenas custos para manter o Clube aberto.

O Governador com a sua genial habilidade, solicitou que todos os quase ex-rotarianos pudessem participar de um jantar nesse mesmo dia para ouvi-lo sobre o que veio fazer na cidade. Ponderou também que seria ruim politicamente para o Prefeito se um Rotary Clube fosse extinto em seu mandato.

Para alegria do Governador e felicidade do Rotary, o jantar se realizou. Ele com a sua persuasão, característica de um grande líder, convenceu os rotarianos a manterem o Clube funcionando e a desenvolverem suas atividades para a comunidade.

Até a data do relato de Confins, já fazia 3 anos que o clube tinha renascido.

Essa experiência foi uma verdadeira aula, em que pude colocar em prática durante o meu ano rotário como Governador, evitando o fechamento de 3 clubes.

Não me lembro o nome do anjo, mas sei que ele já está no céu cuidando de algum clube rotário.

As Visitas Oficiais são fundamentais para a manutenção e sobrevivência dos clubes rotários. O contato pessoal, o olho no olho, a dinâmica da motivação cria vínculos e dão esperança para os líderes locais tornando real e dando vida à nossa organização.

Abril 2024, Marcos A F Franco


quarta-feira, 26 de junho de 2024

XÔ CULTURA EXTRATIVISTA

Desde que o nosso imenso Brasil foi descoberto, em sua maioria, o povo brasileiro imita os índios. Estes nativos buscam na natureza, ao seu redor, alimentos e materiais prontos para sua subsistência. Eles estão certos?

Sob o ponto de vista ecológico eles seriam elogiados. Mas, sob o ponto de vista da evolução humana e da longevidade eles não lograriam êxito. Infelizmente, no Brasil, os índios vivem em média, pouco mais de 40 anos.

Por definição, a cultura extrativista é a prática de obter recursos naturais para fins econômicos ou subsistência. Ela abrange três tipos: extrativismo animal, extrativismo vegetal e extrativismo mineral.

Os cuidados com a saúde e com a educação são determinantes para que um país se desenvolva plenamente. Infelizmente o ranço do extrativismo embute nas crianças a lei do pouco esforço, a falácia das aparências se sobrepõe ao técnico, tal qual como os índios. Eles colhem o que a natureza lhes dá, caçam animais e se pintam. Nas cidades de hoje, através dos deliverys a caça chega em casa e já preparada. Basta ligar para um restaurante.

O Brasil tem se desenvolvido, mas em uma velocidade inferior ao seu potencial. As melhoras ocorrem graças a pessoas que insistem em investir seu tempo e dinheiro por acreditar que o conhecimento e o estudo é a base de um país desenvolvido. Infelizmente se houvessem no país dois partidos políticos, o partido do extrativismo estaria na frente das pesquisas em relação ao partido do desenvolvimento.

É trabalhoso se desenvolver. Não basta ensinar a pescar, é muito pouco. É preciso saber o que, onde e como pescar. Isso exige pesquisas, conhecimento, monitoramentos e trabalho. Exige uma postura de melhorar a qualidade e de pensar no futuro.

Poderíamos estar em outro patamar caso o ranço da cultura extrativista fosse menos influente.  Desde pequeno escutamos de diversas pessoas, em várias situações, de que neste país em se plantando tudo dá, vamos aguardar que as coisas acontecerão, você verá que tudo vai dar certo.

Infelizmente ainda existe, veladamente, o pensamento de que na escola se aprende pouco, que os políticos garantirão um futuro melhor para o país, que jogar na loteria é o caminho para a riqueza, obter um emprego público produzirá uma aposentadoria tranquila. É a dependência pura.

O Brasil é um imenso país de contrastes. Fazemos parte do seleto grupo da indústria da aviação, mas existem pessoas com fome e vivendo em favelas miseráveis. Mal comparando é como estarmos com a cabeça no forno e os pés no congelador. Teoricamente, a temperatura média seria suportável.

Felizmente existem bolhas de excelência que provam que investir em uma educação de qualidade produz cidadãos capacitados. Preparados, os jovens irão superar a busca pelo trabalho ao invés do emprego, o investimento ao invés da imobilidade, da pesquisa ao invés da suposição e encontrarão soluções viáveis e econômicas para os problemas.

É necessário somente um pouco mais para atingirmos o estágio de um melhor desenvolvimento, um ingrediente sem custo financeiro, uma atitude permanente da população, um chamado conjunto dos líderes da iniciativa privada e governamental: a valorização dos professores.

E se houver um investimento permanente na profissão deles, poderemos atingir em pouco tempo um estágio de desenvolvimento invejável. Substituiríamos com orgulho a expressão usual de vai dar certo para deu certo.

Março 2024,  Marcos A F Franco

Publicado no Jornal A Tribuna de Santos em 26/6/2024

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Netinho guloso

Netos já nascem com um chip especial. É interessante como de geração para geração há uma evolução desses adoráveis pequeninos seres. Hoje, eles saem do ventre de suas mães com um celular na mão. Você pode não enxergar o aparelho, mas eles já sabem pilotá-lo.

Os avós se assustam e ao mesmo tempo se divertem com o que esses espertos netinhos e netinhas com pouca idade, ainda em suas fraldas, são capazes de fazer e falar.

Eu tenho uma história interessante, quando eu e a vovó do Gabriel fomos para casa dele, em São Paulo, passar o dia para que os seus papais pudessem trabalhar.

O Gabriel tinha quase 3 anos de idade, um pirralhinho, ainda filho único, reinava altivo com um olhar astuto, comandando os avós com comentários curtos e certeiros.

Comportando-se como um príncipe em formação, tinha a Sil, a babá, como sua cuidadora ferrenha.

Brincando, passeando, vendo filmes, tomando banho ou dormindo a avó acompanhava toda a rotina do pequeno, com sugestões como se fosse uma Chef adicionando temperos nos preparos dos pratos.

O nosso príncipe, ouvia, brincava, tornava a ouvir e a observar desferindo os seus olhares de aprovações e reprovações.

Na hora do jantar, após um belo banho tomado junto com os seus brinquedos, o nosso anjinho chegou cheiroso e se sentou em seu pequeno trono: o cadeirão da papinha. Este, todo branco, alto, com uma mesa na frente dele.

O Gabriel sempre foi autônomo. Comia sozinho com sua pequena colher. Sua vassala, a Sil, trouxe o prato do jantar que escondia o seu desenho, devido a quantidade generosa de comida dentro dele. A refeição elaborada exclusivamente para o nosso príncipe produzia um aroma instigante. De cima do seu trono, instalado na sala, ele controlava toda a situação: o avô lendo um livro, a avó assistindo a TV e contemplava até o pôr do sol que insistia em entrar pela janela.

O aroma provocante para os famintos, rapidamente, chegou ao nariz da vovó Adela. Imediatamente ela foi de encontro ao trono do pequeno comensal. Pediu para que ele lhe desse um pouco dela, mencionando que devia estar deliciosa. Ele, levantou a sua cabeça e com um olhar decidido em direção a ela, disparou: — Vai jantar na sua casa. Em seguida olhou para comida, pegou mais uma colherada. Depois a levou na boca e olhou de rabo de olho para a vovó, fazendo uma discreta provocação. Ela, insistiu em pedir, mas não teve sucesso. Teve que ir à cozinha fazer o seu prato.

De volta para a sala, ela o viu terminar a sua missão, deixando o prato limpinho, aparecendo todo o desenho em seu fundo. Ele, com a barriguinha cheia, não se deu ao trabalho de olhar para a desapontada vovó, levantando os seus braços em direção a Sil, para que ela o retirasse do cadeirão.

Netinhos novos são uns amores, engraçadinhos, surpreendentes, mas seus instintos de sobrevivência falam mais alto, quando ameaçados. 

Marcos A F Franco

Fev 2024

 

sábado, 11 de maio de 2024

FUSCA SINISTRO


Somente um Fusca suportaria a inexperiência de um jovem estudante em sua cruzada para obter a vaga de um estágio profissional.

O Fusca, veículo criado na Alemanha, produzido pela Volkswagen durante 65 anos, foi o modelo de carro mais vendido em todo o mundo, ultrapassando o extraordinário número de 21 milhões de unidades.

O Volkswagen sedan deu origem ao nome da empresa. Seu nome em alemão significa o carro do povo. Foi um projeto com apoio do governo alemão que buscava um veículo popular de baixo custo. Tinha a aparência de um besouro e no Brasil ganhou o apelido de Fusca.

Nos anos setenta do século vinte, o Fusca reinava absoluto, era como uma motocicleta nos dias de hoje, tal a quantidade deles em circulação. Um carro com duas portas, barato e simples. Nem de água ele necessitava, por não ter radiador. Seu pequeno motor ficava na traseira. Quando faltava espaço no seu acanhado porta-malas dianteiro, era só instalar um bagageiro no seu teto.

Foi ele que, quando eu frequentava a universidade, me levou para fazer um teste, em um estágio concorrido. Eu residia em Santos e teria que me deslocar para São Paulo, em uma região com poucas opções de transporte público. Meu amigo insistiu para que eu utilizasse o Fuscão verde do seu pai. Verde é a cor da esperança, isso ajudou em minha audaciosa decisão.

No final da tarde peguei o Herbie (nome do fusca protagonista do filme “Se o meu fusca falasse”) sem saber se ele estava assegurado. Começava ali uma aventura temerária. Eu teria de chegar bem cedo no dia seguinte para o teste. Estacionei-o na rua próxima de casa, atrás de outro carro, que era o primeiro antes da esquina, ficando ele como o segundo carro estacionado daquele lado da rua.

No dia seguinte pela manhã, bem preocupado com o teste, fui ao encontro do meu salvador. Para minha surpresa ele parecia que tinha andado para trás, não sendo mais o segundo carro estacionado, antes da esquina. Ele era o terceiro e estava bem mais distante da guia da calçada, em relação ao que eu tinha deixado. Não sabia se era uma mágica, se ele não queria sair ou um presságio.

Aquilo me intrigou. Seguimos pensativo para o nosso destino. Antes de tomarmos a estrada, por um infortúnio, ao parar em um semáforo, emparelha à minha esquerda uma grande carreta em cima de centenas de pneus. O Fusca parecia um ratinho perto dela.

Em seguida ao surgir a luz verde, a carreta sem nos notar, ao fazer a conversão para o lado direito, veio em nossa direção esbarrando seus imensos pneus no paralama esquerdo do meu indefeso automóvel, amassando o seu capô e prendendo o pneu dianteiro. A carreta sem sentir o carinho que nos fez e sem ouvir a tímida buzina acionada pelo motorista apavorado, seguiu o seu caminho.

Desci do valente companheiro, agora triste. Olhei para sua frente e lamentei. Mas, eu tinha a missão, de fazer o teste para o estágio. Puxei a parte empenada do seu paralama, liberando o pneu prensado. Sem consultá-lo, seguimos para o nosso destino. Deixei para pensar o que fazer no retorno da viagem.

O teste que durou 4 horas, pareceu ter sido uma eternidade. Minha mente ficou dividida. A viagem de volta, ao descer a serra de Santos, as curvas ficaram mais perigosas do que na música do Roberto Carlos. O impassível Fusca resistia firme em nossa desastrada viagem.

Apreensivo com a reação do meu amigo e de seu pai fui direto para a oficina de funilaria. Não queria que eles vissem o estado do agora estragado Fusca. Mas eu teria de contar para eles.

Ao telefonar para o meu amigo, o senti tenso e ansioso. Antes que eu pudesse relatar o estrago do dia, ele desvendou o mistério da noite anterior. Disse que o seu pai não sabendo que o seu Fusca tinha sido emprestado, estranhou vê-lo estacionado na rua. Retornou para sua casa, pegou a cópia da chave do seu protegido e o levou de volta para o seu aconchego. Quando o meu amigo foi indagado pelo seu pai, ele revelou que o tinha emprestado. Então o seu pai devolveu o Fusca ao local onde o tinha encontrado.

Enfim foi revelado como o Fusca se moveu. Mas ainda tinha a segunda e cruel revelação.

Constrangido, falei para o meu amigo que ocorreu um pequeno acidente causado por uma carreta, deixando o rosto do nosso personagem central igual ao de um nocauteado lutador de boxe. Seriam necessários 5 dias para fazer uma boa plástica no fiel, forte, mas azarado Fusca.

Bem que os mais experientes motoristas nos alertam, só dirijam carros próprios e, com seguro em dia. As aventuras podem nos assustar, mas o custo financeiro será pequeno.

Março 2024

Marcos A F Franco

Quando a Prudência pede Passagem

Quase iniciando minha oitava década de vida, reflito sobre o aumento de atores no trânsito e testemunho seus efeitos. Ao mesmo tempo, sinto ...