quarta-feira, 24 de julho de 2024

Visita Oficial a clube rotário encerrado

 

Eu falei com um anjo rotário! Só pode ser.

Dizem que eles passam pelas nossas vidas e não deixam pegadas.

Era o ano de 2008, quando eu retornava do excelente Instituto Rotary Brasil de Belo Horizonte. Enquanto aguardava o meu voo, um ex-Governador de um distrito do interior de São Paulo resolveu tomar seu cafezinho acompanhado do imperdível pão de queijo. Justamente, no mesmo local em que eu estava.

Eu e ele portávamos o pin rotário. Nessa época eu já era Governador designado do meu distrito. Fase em que nossos olhares e curiosidades ficam aguçados. Rapidamente nos apresentamos e para minha sorte os voos atrasaram. Pude ouvir uma história de uma experiência incrível que ajudou a nortear as minhas decisões e iniciativas relativas ao desenvolvimento do quadro associativo.

Como ex-presidente de clube eu já tinha trabalhado profundamente nesse assunto, liderando a fundação de 3 clubes. Ele, consciente da importância em manter e desenvolver o Rotary em sua região trabalhou com afinco para o crescimento e manutenção de clubes.

Quando de suas Visitas Oficiais, em uma rota longínqua de viagem, após duas visitas realizadas, chegou em uma pequena cidade cumprindo o cronograma definido e ajustado com os Presidentes. Após alguns quilômetros rodados ele e sua esposa estacionaram o seu carro em um posto de gasolina, o local e hora definida para o encontro com os membros do Clube.

Aguardaram por mais de 1 hora, quando ele decidiu contatar o secretário do Clube. Ainda não existia uma rede de comunicação de celulares confiável. Ele foi obrigado a buscar o telefone fixo. Ao atender o telefone e saber quem estava ligando, o secretário informou de que o Clube já não existia mais, portanto não haveria a Visita Oficial.

O nosso anjo rotário, calmo e ciente de sua missão, solicitou a presença do secretário para entender melhor o ocorrido. O secretário ao final do encontro, foi convencido pelo Governador a agendar uma reunião com o Prefeito da cidade, pai da então presidente do Clube. O casal se submeteu a posar aquela noite, como fala o caipira, em uma pequena pensão, em um quarto sem banheiro.

No dia seguinte o Prefeito o recebeu, sem a presença da sua filha, mas junto com o secretário do clube. Quando o Governador chegou ao gabinete do Prefeito, ainda ansioso de como ele poderia estabelecer um vínculo pessoal como estratégia de negociação, avistou um quadro de uma ex-jogadora de vôlei da seleção brasileira.

Ao iniciar sua conversa, soube que ela nasceu na cidade. Vínculo estabelecido, ele ouviu do Prefeito que embora boa parte dos rotarianos que deixaram o clube fossem funcionários públicos, eles estavam desinteressados, restando apenas custos para manter o Clube aberto.

O Governador com a sua genial habilidade, solicitou que todos os quase ex-rotarianos pudessem participar de um jantar nesse mesmo dia para ouvi-lo sobre o que veio fazer na cidade. Ponderou também que seria ruim politicamente para o Prefeito se um Rotary Clube fosse extinto em seu mandato.

Para alegria do Governador e felicidade do Rotary, o jantar se realizou. Ele com a sua persuasão, característica de um grande líder, convenceu os rotarianos a manterem o Clube funcionando e a desenvolverem suas atividades para a comunidade.

Até a data do relato de Confins, já fazia 3 anos que o clube tinha renascido.

Essa experiência foi uma verdadeira aula, em que pude colocar em prática durante o meu ano rotário como Governador, evitando o fechamento de 3 clubes.

Não me lembro o nome do anjo, mas sei que ele já está no céu cuidando de algum clube rotário.

As Visitas Oficiais são fundamentais para a manutenção e sobrevivência dos clubes rotários. O contato pessoal, o olho no olho, a dinâmica da motivação cria vínculos e dão esperança para os líderes locais tornando real e dando vida à nossa organização.

Abril 2024, Marcos A F Franco


quarta-feira, 26 de junho de 2024

XÔ CULTURA EXTRATIVISTA

Desde que o nosso imenso Brasil foi descoberto, em sua maioria, o povo brasileiro imita os índios. Estes nativos buscam na natureza, ao seu redor, alimentos e materiais prontos para sua subsistência. Eles estão certos?

Sob o ponto de vista ecológico eles seriam elogiados. Mas, sob o ponto de vista da evolução humana e da longevidade eles não lograriam êxito. Infelizmente, no Brasil, os índios vivem em média, pouco mais de 40 anos.

Por definição, a cultura extrativista é a prática de obter recursos naturais para fins econômicos ou subsistência. Ela abrange três tipos: extrativismo animal, extrativismo vegetal e extrativismo mineral.

Os cuidados com a saúde e com a educação são determinantes para que um país se desenvolva plenamente. Infelizmente o ranço do extrativismo embute nas crianças a lei do pouco esforço, a falácia das aparências se sobrepõe ao técnico, tal qual como os índios. Eles colhem o que a natureza lhes dá, caçam animais e se pintam. Nas cidades de hoje, através dos deliverys a caça chega em casa e já preparada. Basta ligar para um restaurante.

O Brasil tem se desenvolvido, mas em uma velocidade inferior ao seu potencial. As melhoras ocorrem graças a pessoas que insistem em investir seu tempo e dinheiro por acreditar que o conhecimento e o estudo é a base de um país desenvolvido. Infelizmente se houvessem no país dois partidos políticos, o partido do extrativismo estaria na frente das pesquisas em relação ao partido do desenvolvimento.

É trabalhoso se desenvolver. Não basta ensinar a pescar, é muito pouco. É preciso saber o que, onde e como pescar. Isso exige pesquisas, conhecimento, monitoramentos e trabalho. Exige uma postura de melhorar a qualidade e de pensar no futuro.

Poderíamos estar em outro patamar caso o ranço da cultura extrativista fosse menos influente.  Desde pequeno escutamos de diversas pessoas, em várias situações, de que neste país em se plantando tudo dá, vamos aguardar que as coisas acontecerão, você verá que tudo vai dar certo.

Infelizmente ainda existe, veladamente, o pensamento de que na escola se aprende pouco, que os políticos garantirão um futuro melhor para o país, que jogar na loteria é o caminho para a riqueza, obter um emprego público produzirá uma aposentadoria tranquila. É a dependência pura.

O Brasil é um imenso país de contrastes. Fazemos parte do seleto grupo da indústria da aviação, mas existem pessoas com fome e vivendo em favelas miseráveis. Mal comparando é como estarmos com a cabeça no forno e os pés no congelador. Teoricamente, a temperatura média seria suportável.

Felizmente existem bolhas de excelência que provam que investir em uma educação de qualidade produz cidadãos capacitados. Preparados, os jovens irão superar a busca pelo trabalho ao invés do emprego, o investimento ao invés da imobilidade, da pesquisa ao invés da suposição e encontrarão soluções viáveis e econômicas para os problemas.

É necessário somente um pouco mais para atingirmos o estágio de um melhor desenvolvimento, um ingrediente sem custo financeiro, uma atitude permanente da população, um chamado conjunto dos líderes da iniciativa privada e governamental: a valorização dos professores.

E se houver um investimento permanente na profissão deles, poderemos atingir em pouco tempo um estágio de desenvolvimento invejável. Substituiríamos com orgulho a expressão usual de vai dar certo para deu certo.

Março 2024,  Marcos A F Franco

Publicado no Jornal A Tribuna de Santos em 26/6/2024

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Netinho guloso

Netos já nascem com um chip especial. É interessante como de geração para geração há uma evolução desses adoráveis pequeninos seres. Hoje, eles saem do ventre de suas mães com um celular na mão. Você pode não enxergar o aparelho, mas eles já sabem pilotá-lo.

Os avós se assustam e ao mesmo tempo se divertem com o que esses espertos netinhos e netinhas com pouca idade, ainda em suas fraldas, são capazes de fazer e falar.

Eu tenho uma história interessante, quando eu e a vovó do Gabriel fomos para casa dele, em São Paulo, passar o dia para que os seus papais pudessem trabalhar.

O Gabriel tinha quase 3 anos de idade, um pirralhinho, ainda filho único, reinava altivo com um olhar astuto, comandando os avós com comentários curtos e certeiros.

Comportando-se como um príncipe em formação, tinha a Sil, a babá, como sua cuidadora ferrenha.

Brincando, passeando, vendo filmes, tomando banho ou dormindo a avó acompanhava toda a rotina do pequeno, com sugestões como se fosse uma Chef adicionando temperos nos preparos dos pratos.

O nosso príncipe, ouvia, brincava, tornava a ouvir e a observar desferindo os seus olhares de aprovações e reprovações.

Na hora do jantar, após um belo banho tomado junto com os seus brinquedos, o nosso anjinho chegou cheiroso e se sentou em seu pequeno trono: o cadeirão da papinha. Este, todo branco, alto, com uma mesa na frente dele.

O Gabriel sempre foi autônomo. Comia sozinho com sua pequena colher. Sua vassala, a Sil, trouxe o prato do jantar que escondia o seu desenho, devido a quantidade generosa de comida dentro dele. A refeição elaborada exclusivamente para o nosso príncipe produzia um aroma instigante. De cima do seu trono, instalado na sala, ele controlava toda a situação: o avô lendo um livro, a avó assistindo a TV e contemplava até o pôr do sol que insistia em entrar pela janela.

O aroma provocante para os famintos, rapidamente, chegou ao nariz da vovó Adela. Imediatamente ela foi de encontro ao trono do pequeno comensal. Pediu para que ele lhe desse um pouco dela, mencionando que devia estar deliciosa. Ele, levantou a sua cabeça e com um olhar decidido em direção a ela, disparou: — Vai jantar na sua casa. Em seguida olhou para comida, pegou mais uma colherada. Depois a levou na boca e olhou de rabo de olho para a vovó, fazendo uma discreta provocação. Ela, insistiu em pedir, mas não teve sucesso. Teve que ir à cozinha fazer o seu prato.

De volta para a sala, ela o viu terminar a sua missão, deixando o prato limpinho, aparecendo todo o desenho em seu fundo. Ele, com a barriguinha cheia, não se deu ao trabalho de olhar para a desapontada vovó, levantando os seus braços em direção a Sil, para que ela o retirasse do cadeirão.

Netinhos novos são uns amores, engraçadinhos, surpreendentes, mas seus instintos de sobrevivência falam mais alto, quando ameaçados. 

Marcos A F Franco

Fev 2024

 

sábado, 11 de maio de 2024

FUSCA SINISTRO


Somente um Fusca suportaria a inexperiência de um jovem estudante em sua cruzada para obter a vaga de um estágio profissional.

O Fusca, veículo criado na Alemanha, produzido pela Volkswagen durante 65 anos, foi o modelo de carro mais vendido em todo o mundo, ultrapassando o extraordinário número de 21 milhões de unidades.

O Volkswagen sedan deu origem ao nome da empresa. Seu nome em alemão significa o carro do povo. Foi um projeto com apoio do governo alemão que buscava um veículo popular de baixo custo. Tinha a aparência de um besouro e no Brasil ganhou o apelido de Fusca.

Nos anos setenta do século vinte, o Fusca reinava absoluto, era como uma motocicleta nos dias de hoje, tal a quantidade deles em circulação. Um carro com duas portas, barato e simples. Nem de água ele necessitava, por não ter radiador. Seu pequeno motor ficava na traseira. Quando faltava espaço no seu acanhado porta-malas dianteiro, era só instalar um bagageiro no seu teto.

Foi ele que, quando eu frequentava a universidade, me levou para fazer um teste, em um estágio concorrido. Eu residia em Santos e teria que me deslocar para São Paulo, em uma região com poucas opções de transporte público. Meu amigo insistiu para que eu utilizasse o Fuscão verde do seu pai. Verde é a cor da esperança, isso ajudou em minha audaciosa decisão.

No final da tarde peguei o Herbie (nome do fusca protagonista do filme “Se o meu fusca falasse”) sem saber se ele estava assegurado. Começava ali uma aventura temerária. Eu teria de chegar bem cedo no dia seguinte para o teste. Estacionei-o na rua próxima de casa, atrás de outro carro, que era o primeiro antes da esquina, ficando ele como o segundo carro estacionado daquele lado da rua.

No dia seguinte pela manhã, bem preocupado com o teste, fui ao encontro do meu salvador. Para minha surpresa ele parecia que tinha andado para trás, não sendo mais o segundo carro estacionado, antes da esquina. Ele era o terceiro e estava bem mais distante da guia da calçada, em relação ao que eu tinha deixado. Não sabia se era uma mágica, se ele não queria sair ou um presságio.

Aquilo me intrigou. Seguimos pensativo para o nosso destino. Antes de tomarmos a estrada, por um infortúnio, ao parar em um semáforo, emparelha à minha esquerda uma grande carreta em cima de centenas de pneus. O Fusca parecia um ratinho perto dela.

Em seguida ao surgir a luz verde, a carreta sem nos notar, ao fazer a conversão para o lado direito, veio em nossa direção esbarrando seus imensos pneus no paralama esquerdo do meu indefeso automóvel, amassando o seu capô e prendendo o pneu dianteiro. A carreta sem sentir o carinho que nos fez e sem ouvir a tímida buzina acionada pelo motorista apavorado, seguiu o seu caminho.

Desci do valente companheiro, agora triste. Olhei para sua frente e lamentei. Mas, eu tinha a missão, de fazer o teste para o estágio. Puxei a parte empenada do seu paralama, liberando o pneu prensado. Sem consultá-lo, seguimos para o nosso destino. Deixei para pensar o que fazer no retorno da viagem.

O teste que durou 4 horas, pareceu ter sido uma eternidade. Minha mente ficou dividida. A viagem de volta, ao descer a serra de Santos, as curvas ficaram mais perigosas do que na música do Roberto Carlos. O impassível Fusca resistia firme em nossa desastrada viagem.

Apreensivo com a reação do meu amigo e de seu pai fui direto para a oficina de funilaria. Não queria que eles vissem o estado do agora estragado Fusca. Mas eu teria de contar para eles.

Ao telefonar para o meu amigo, o senti tenso e ansioso. Antes que eu pudesse relatar o estrago do dia, ele desvendou o mistério da noite anterior. Disse que o seu pai não sabendo que o seu Fusca tinha sido emprestado, estranhou vê-lo estacionado na rua. Retornou para sua casa, pegou a cópia da chave do seu protegido e o levou de volta para o seu aconchego. Quando o meu amigo foi indagado pelo seu pai, ele revelou que o tinha emprestado. Então o seu pai devolveu o Fusca ao local onde o tinha encontrado.

Enfim foi revelado como o Fusca se moveu. Mas ainda tinha a segunda e cruel revelação.

Constrangido, falei para o meu amigo que ocorreu um pequeno acidente causado por uma carreta, deixando o rosto do nosso personagem central igual ao de um nocauteado lutador de boxe. Seriam necessários 5 dias para fazer uma boa plástica no fiel, forte, mas azarado Fusca.

Bem que os mais experientes motoristas nos alertam, só dirijam carros próprios e, com seguro em dia. As aventuras podem nos assustar, mas o custo financeiro será pequeno.

Março 2024

Marcos A F Franco

sexta-feira, 26 de abril de 2024

CALÇADAS COM OBSTÁCULOS

Sou um andarilho!

Todos os dias caminho para me exercitar. Enquanto ativo meus músculos, oxigeno meu cérebro e converso comigo mesmo. Seja para ver e sentir a nossa praia, para tomar um café, para passear ou para fazer compras eu vou somando quilômetros em meu odômetro corporal. Felizmente vejo um volume grande de pessoas que me acompanham. São crianças, jovens, idosos, deficientes físicos, cadeirantes e cegos.

Minhas estradas, a exceção das areias da praia, são as calçadas. São elas que asseguram o meu caminho. Como um pedestre veterano, posso garantir que há dias mais difíceis para se chegar ao meu destino. Além da necessidade se atravessar as ruas competindo com motoristas que não respeitam as faixas de pedestres, me deparo com outros obstáculos perigosos e que podem provocar acidentes.

Caminhando eu vejo o lixo produzido por alguns edifícios e estabelecimentos comerciais. Estes são visitados por catadores, que após uma vistoria desorganizada, ficam espalhados pelas calçadas. As vezes provocando acidentes nos transeuntes como desequilíbrios, quedas e cortes.

Caminhando eu vejo as árvores que nos protege do sol e que generosamente produzem o oxigênio. Quanto mais elas crescem, mais desnivelam as calçadas, expondo suas raízes. Já presenciei pessoas que tiveram fraturas ou sérias escoriações, inclusive a minha progenitora.

Caminhando eu vejo os abrigos de pontos de ônibus. Alguns, devido ao fluxo de passageiros em determinados horários, nos obrigam a utilizar a rua. Isso também ocorre enquanto aguardamos o tempo de duração das novas construções. Nesse caso as calçadas provisórias e precárias diminuem suas larguras e por vezes sem a devida sinalização.

Caminhando eu vejo as lindas calçadas de pedras portuguesas com seus desenhos artísticos e assentadas por exímios artesãos. Um trabalho deslumbrante. Entretanto, os pequenos desníveis provocados pelo tempo e a falta de manutenção são um risco para torções e quedas. Há também os pisos abandonados, os remendados, os esburacados, os quebrados, os de paralelepípedos irregulares e até aqueles em estados naturais não cobertos.

O poder público municipal, através de lei específica aprovada em 2017, estabeleceu responsabilidades para a manutenção de calçadas, inclusive adotando como padrão um piso adequado que tem sido utilizado em novas construções e reformas. É um piso de concreto econômico, resistente, seguro e confortável. Ele se distingue dos demais criando uma aparência de limpeza.

A cidade dos idosos, como é conhecida no Brasil, vem evoluindo e se adensando com a construção de prédios mais altos. Já existe uma preocupação clara com a segurança viária como as ciclovias, o investimento em transportes coletivos e o cuidado com o sufocante trânsito de veículos. Coisas do desenvolvimento que contribui para o crescimento do número de pedestres.

Como as calçadas não são de borracha fica o sentimento de que a largura delas vai diminuindo lentamente. A esperança é de que as soluções aconteçam para que os obstáculos não concorram conosco e permitam um caminhar tranquilo e seguro. Seja intensificando a fiscalização, a conscientização dos proprietários de imóveis sobre suas responsabilidades e a adequação dos equipamentos públicos que interferem nas calçadas.

Março 2024

Marcos A F Franco

Publicado no Jornal A Tribuna de Santos em 26/4/2024

 

domingo, 14 de abril de 2024

CAFÉ AMIGO


Vamos tomar um cafezinho?

Enquanto eu escrevo e você lê, um café cai bem e deixará este texto com um aroma especial, ainda que seja imaginário.

Eu gosto de café de várias formas. Pode ser coado, turco, expresso, desde que seja um bom café e em boa companhia.

O café é a bebida mais consumida depois da água, sem a qual ele não tem vida. Dificilmente alguém resiste a ele e o deixa de ingeri-lo com frequência. Em qualquer lugar ele é encontrado, seja em bares, restaurantes, residências, cafeterias, comércios ambulantes, escritórios, repartições públicas, máquinas de bebidas, obras, rodoviárias ou estradas. Eu já o consumi no deserto. Ele é um produto universal e contribui deliciosamente para aproximar as pessoas.

Em qualquer construção, seja de um shopping center, escritórios, fábricas ou galpões, o local do café é um dos primeiros a serem definidos. Por ser famoso teve o seu nome roubado para definir uma cor.

A hora do café nas empresas é sagrado, algumas delas constam em acordos sindicais. É um momento de referência para muitos, causando ciúmes ao medidor do tempo. Pode ser um pouco antes, após ou na hora do café, mas é ele quem determina esse instante. Até aqueles que não o consomem respeitam a pausa do café.

O profissional que prepara o café é escolhido com o máximo rigor, sendo muito popular em seu ambiente de trabalho. Se alguém, momentaneamente esquece o seu nome, se refere a ela como a moça ou moço do café.

A forma como o escurinho é servido são incontáveis e imprevisíveis, desde xícaras mais sofisticadas e valiosas até em pequenas embalagens plásticas, simples copos e canecas. O importante é que ele esteja bem-preparado e na temperatura a gosto do consumidor. A embalagem, por mais que insista e se atreva, não é a protagonista desse momento. As pessoas elogiam ou criticam o café, não se importando com o recipiente utilizado para protegê-lo.

O poder do café é imenso, chegando a ser rotulado pelos negociadores de insucesso como café amargo, ainda que ele tenha sido adoçado. O inverso também é verdadeiro. Para um resultado positivo ele é citado como um doce café. Muitas casas de café passaram a ser utilizadas para reuniões de negócios e facilitar o acesso para o uso de celulares e laptops. É o café se digitalizando.

No mundo do café existem os ladrões do seu aroma. Eles entram em uma casa de café, enquanto apreciam a sua decoração e produtos, viajam e se enebriam com a fragrância dele, comparando-o a sensação de um perfume francês.

Dizem os pesquisadores que o café tem diversos benefícios para a saúde. Melhora a disposição física e emagrece. Auxilia na digestão, reduz dores de cabeça, tem efeitos anti-inflamatórios, previne alguns tipos de câncer e melhora o funcionamento do sistema cardiovascular. Também alivia o estresse, ativa o cérebro e ajuda na memória. Claro, se ingerido com moderação.

Um grande benefício do hábito de tomar café é o contato social. Da mesma forma que ele se compõe com outras bebidas, como o leite, o whisky, a cachaça, o bebedor de café aprecia o convívio com os amigos, familiares, colegas, clientes, fornecedores e até desconhecidos. É quando se usufrui o prazer de um momento alegre, leve e lembrando de suas memórias afetivas.

Esse instante torna-se longo, extenso, às vezes são horas incontroladas, mas controladas unicamente pelos comerciantes das casas de cafés.

Este foi somente um cafezinho curto, embora forte em sua sedução. Deixará boas lembranças.

Marcos A F Franco, Fevereiro 2024

domingo, 10 de março de 2024

O sabiá cantou uma obra prima


 

Ao abrir a janela da sala, me assustei com a entrada inesperada de um pequeno, lindo e alegre pássaro. Ele entrou cantando, parecia que buscava pela água, por ter voado por um longo tempo. Ele era delicado, tinha uma plumagem cinza em seu dorso e alaranjada no seu peito, compondo um conjunto de um colorido singular. Buscou um lugar para ficar, se apoiando no vaso de uma linda orquídea, bem ao lado do sofá.

Enquanto eu providenciava a água, ele continuava cantando. Queria contar a grande viagem que fez pelo Brasil. Ele me olhava ansioso e eu o olhava com curiosidade. Ficou ali parado e quieto por um longo tempo até que eu pudesse ficar próximo dele.

Cada vez que eu me sentava no sofá, ao seu lado, ele cantava uma nova história sobre o folclore de algum canto do Brasil. Seu canto descrevia lendas, mitos, músicas caipiras, dialetos, festas e artes regionais, danças dramáticas, rodeios, vaquejadas e personagens famosos de inúmeros confins desta terra multicultural. Sabia cantar em ricos detalhes cada manifestação popular do nosso imenso país.

Ele me confidenciou que foram necessários muitos anos para conhecer cada minúcia desse imenso tesouro cultural. Se não bastasse se referir a cada um deles, ele cantava em versos, com adivinhas, trava-línguas, ditos populares, provérbios e até frases de caminhão.

Cantava poesias maravilhosas sobre o Saci-pererê, o Uirapuru, o Paiquerê, o Negrinho do pastoreio, o café, o Lobisomem, o Bumba-meu-boi, como se os tivesse visto.

Fui me encantando com os cantos desse sabiá único, alegre, sensível, culto e poeta ímpar. Ele, percebendo a minha admiração e prazer em ouvi-lo, me contemplou com diversos contos fascinantes.

Mais íntimo, e com a maturidade de cem anos vividos ele cantou sabiamente em um de seus contos: “Como a vida poderia ser mais bonita! A flor, mais flor! A luz, mais Luz! O amor, mais amor... Coisas que os artistas veem em profundidade porque seus olhos têm alma! E essa alma lhes permite abraçar e sentir com maior amplitude, as minúcias e os encantos despercebidos pela maioria dos viventes, presos ao prosaísmo, sem tempo disponível para captar o belo!...”

Percebi que a alma desse sabiá especial era feminina e tinha o nome de Carolina Ramos, a admirável, sensível e imortal poeta santista, autora da magnífica obra-prima, o livro Canta...Sabiá!

Parabéns pelo seu centenário! Obrigado por nos brindar por esta grande obra literária.

Novembro 2023, Marcos A F Franco

Publicado no Jornal A Tribuna de Santos em 10/03/2024

Quando a Prudência pede Passagem

Quase iniciando minha oitava década de vida, reflito sobre o aumento de atores no trânsito e testemunho seus efeitos. Ao mesmo tempo, sinto ...