domingo, 10 de março de 2024

O sabiá cantou uma obra prima


 

Ao abrir a janela da sala, me assustei com a entrada inesperada de um pequeno, lindo e alegre pássaro. Ele entrou cantando, parecia que buscava pela água, por ter voado por um longo tempo. Ele era delicado, tinha uma plumagem cinza em seu dorso e alaranjada no seu peito, compondo um conjunto de um colorido singular. Buscou um lugar para ficar, se apoiando no vaso de uma linda orquídea, bem ao lado do sofá.

Enquanto eu providenciava a água, ele continuava cantando. Queria contar a grande viagem que fez pelo Brasil. Ele me olhava ansioso e eu o olhava com curiosidade. Ficou ali parado e quieto por um longo tempo até que eu pudesse ficar próximo dele.

Cada vez que eu me sentava no sofá, ao seu lado, ele cantava uma nova história sobre o folclore de algum canto do Brasil. Seu canto descrevia lendas, mitos, músicas caipiras, dialetos, festas e artes regionais, danças dramáticas, rodeios, vaquejadas e personagens famosos de inúmeros confins desta terra multicultural. Sabia cantar em ricos detalhes cada manifestação popular do nosso imenso país.

Ele me confidenciou que foram necessários muitos anos para conhecer cada minúcia desse imenso tesouro cultural. Se não bastasse se referir a cada um deles, ele cantava em versos, com adivinhas, trava-línguas, ditos populares, provérbios e até frases de caminhão.

Cantava poesias maravilhosas sobre o Saci-pererê, o Uirapuru, o Paiquerê, o Negrinho do pastoreio, o café, o Lobisomem, o Bumba-meu-boi, como se os tivesse visto.

Fui me encantando com os cantos desse sabiá único, alegre, sensível, culto e poeta ímpar. Ele, percebendo a minha admiração e prazer em ouvi-lo, me contemplou com diversos contos fascinantes.

Mais íntimo, e com a maturidade de cem anos vividos ele cantou sabiamente em um de seus contos: “Como a vida poderia ser mais bonita! A flor, mais flor! A luz, mais Luz! O amor, mais amor... Coisas que os artistas veem em profundidade porque seus olhos têm alma! E essa alma lhes permite abraçar e sentir com maior amplitude, as minúcias e os encantos despercebidos pela maioria dos viventes, presos ao prosaísmo, sem tempo disponível para captar o belo!...”

Percebi que a alma desse sabiá especial era feminina e tinha o nome de Carolina Ramos, a admirável, sensível e imortal poeta santista, autora da magnífica obra-prima, o livro Canta...Sabiá!

Parabéns pelo seu centenário! Obrigado por nos brindar por esta grande obra literária.

Novembro 2023, Marcos A F Franco

Publicado no Jornal A Tribuna de Santos em 10/03/2024

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