quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Doha Além da Riqueza

A riqueza de Doha vai além do valor material.

Dois fatos incomuns para turistas marcaram a minha rápida passagem nessa deslumbrante capital do Oriente. A cidade, com pouco mais de 1,5 milhão de cataris, que foi sede da Copa do Mundo de Futebol em 2022, demonstrou seu respeito e carinho pelos visitantes.

A caminho do Qanat Quartier, a “Veneza do Qatar” — um bairro da Pérola, como é conhecida a ilha artificial em Doha — fomos surpreendidos e recolhidos por duas mulheres em um carro de luxo.  Nesse lugar, o romantismo e o charme venezianos se encontram a sofisticação árabe. Com prédios baixos em tons pastel, canais que se fundem ao Golfo Pérsico e belas pontes, o cenário é complementado por lojas, restaurantes e cafés encantadores.

As duas mulheres nos encontraram perdidos e sozinhos em uma grande praça próxima à estação de metrô onde havíamos descido, convictos de que estávamos bem perto da Pérola. Quando se aproximaram, envoltas em suas vestes pretas, ficamos apreensivos. No entanto, a gentileza das duas logo nos tranquilizou, e acabamos aceitando a carona que nos levaria para o nosso destino.

 Não é comum que alguém suporte o sol escaldante das arábias naquela hora do dia. O calor pode derreter qualquer um, chegando a 47 graus Celsius durante o dia. Naturalmente, elas perceberam os turistas anciões, carregando uma mochila, molhados de suor e examinando um mapa turístico. Com sorrisos gentis, as duas jovens nos salvaram.

Tudo em Doha é suntuoso, começando pelo seu aeroporto, um hub que une o Ocidente e Oriente com centenas de conexões. Os oito estádios de futebol, verdadeiras obras-primas da arquitetura, são interligados por uma nova e eficiente rede de metrôs, que esbanja conforto e grandiosidade. Os museus — Nacional e o de Arte Islâmica — impressionam tanto pela arquitetura moderna quanto pelo rico conteúdo.

Além dos magníficos prédios, dos barcos de pesca, do transporte público e dos imensos shoppings, a população se resguarda do sol durante o dia e toma as ruas à noite. Os homens, em sua maioria, vestem o Thobe — a tradicional túnica branca comprida — acompanhado da Ghutra, o lenço branco na cabeça, preso pelo Igal, uma corda que o mantém preso na cabeça.

A maioria da população percorre o antigo mercado Souq Waqif, com suas ruas sinuosas e lojas vibrantes. É o lugar perfeito para viver a tradicional cultura árabe. O mercado oferece uma grande variedade de produtos, incluindo especiarias, perfumes, tecidos e artesanato.

O Souq Waqif também oferece casas de chás e restaurantes imperdíveis, com o melhor da gastronomia local. Em nossa última noite, após degustarmos um quibe especial, percebi ao pagar a conta que o serviço não havia sido cobrado. O atendimento, impecável, foi realizado por um garçom muito simpático. Ao questioná-lo, ele explicou que a gorjeta não fazia parte da cobrança. Insisti em pagá-lo a parte, mas, para minha surpresa, ele recusou educadamente, dizendo que não poderia aceitar.

 Saímos do restaurante decepcionados por não podermos compensá-lo pelo seu excelente atendimento, mas, ao mesmo tempo, surpresos e tranquilos diante da idoneidade demonstrada. Cada cultura tem seus costumes, e cabe, a nós respeitarmos. 

Setembro 2024

Marcos A F Franco
 

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Quando os Segredos Ainda Brincam

 

Eu tenho um segredo no meu bolso!

Foi assim que Mateus, meu neto — o pequeno falador — rompeu o silêncio dentro do carro. Todos ficamos curiosos. Ele é instigante por natureza.

Estávamos voltando da casa dos bisavós, após celebrar os 91 anos do biso.

— É um elefante? — arrisquei.

— Claro que não — respondeu ele, com um sorrisinho.

— É um chiclete mastigado?

— Também não, vovô.

Sua mãe, também rendida à curiosidade, entrou na brincadeira. — Então dá uma pista... como ele é?

— É um retângulo — disse, com solenidade.

— Ah! Então é uma caixa de fósforo usada? — insisti.

— Não, e nem caberia no seu bolso! — retrucou.

— É um papel?

— Não é.

Então, ele nos deu uma dica preciosa:

— Todos vocês gostam muito do que está no meu bolso.

Sua avó, certeira, arriscou:

— É dinheiro!

Ele ficou em silêncio, com aquele ar de quem foi pego.

Um pouco tímido, revelou:

— Ganhei da bisa! — e completou:

— O presente do Gabriel — seu irmão — está no meu outro bolso...

Segredo em dose dupla.

Mateus tem essa coisa de não conseguir guardar segredos por muito tempo. Lembro de um almoço, tempos atrás, quando contei a ele — só entre nós — que sua outra avó era um pouquinho tagarela. Pedi que não contasse para ninguém.

Minutos depois, ele se aproximou da mãe, e, como quem carrega uma joia rara, sussurrou no ouvido dela...
Mais um segredo revelado com todo o cuidado do mundo.

Segredos infantis têm prazo de validade curta, mas são sempre emocionantes.

Lembro da professora perguntando à turma:

— Quem jogou essa bolinha de papel?

Todos sabiam, mas o silêncio cúmplice era absoluto.
Ou então o clássico: confidenciar ao melhor amigo que gostava de uma certa menina — e no dia seguinte, todos sabiam. Em casa, os pais escondiam presentes para o Dia das Mães, contando apenas aos filhos. Mas dificilmente o segredo chegava intacto até a data.

Com o tempo, os segredos crescem. Ficam mais densos, mais sérios.
Alguns viram confidências. Outros, pesos. Há os que, se revelados, ferem.
E há aqueles que, se guardados, sufocam.

Crescer é complicado.

Mas... e o segredo de se manter criança? Talvez esse seja o grande mistério da vida. Talvez o segredo esteja em não guardar segredos.

Guarde esse segredo.

Abril 2025, Marcos A F Franco

Publicado no Jornal A Tribuna de Santos em 25/04/2025

O Valor do Primeiro Emprego


           Qual o melhor momento para o primeiro emprego?

Duvido que haja uma resposta exata. Muitas vezes, é a necessidade que nos empurra: falta de dinheiro, desejo de independência, vontade de aprender, pressão dos amigos. Alguns seguem um caminho tradicional — escola, faculdade, carreira. Outros, sem condições financeiras, trabalham para sustentar os estudos. Há também quem precise fazer bicos apenas para sobreviver ou ajudar a família. São muitas as realidades que a vida nos impõe.

Independentemente do motivo, iniciar cedo no mundo do trabalho é sempre enriquecedor. Mesmo atividades que não têm relação direta com a profissão desejada proporcionam aprendizados e relacionamentos valiosos para o futuro.

Aos 15 anos, decidi buscar um emprego, sem saber ainda qual carreira seguir. Queria ser independente. Talvez por ver meu pai, que chegou a ter quatro empregos — professor e escrevente na Justiça — sempre tão ativo. Foi ele quem me contou sobre uma vaga de office boy em um escritório de contabilidade. Transferi minhas aulas para a noite e comecei a trabalhar.

Foi uma mudança enorme para um garoto. Precisei aprender a respeitar horários, superiores, clientes e tarefas. O mundo se abriu diante de mim como se eu enxergasse através de um binóculo.

Minha primeira tarefa foi furar papéis para arquivamento. Quando o patrão perguntou se eu sabia, respondi que sim — com a segurança típica da juventude. Mas ao ver meu trabalho, ele corrigiu gentilmente: “Você não dobrou a folha para achar o centro. Assim, os furos ficam alinhados.” Nunca mais esqueci essa lição.

Passei a observar atentamente os colegas mais experientes. Cada detalhe era uma oportunidade de aprendizado. Com o tempo, tive outros empregos, até me formar em Administração de Empresas. Cada experiência me trouxe conhecimento, amigos e crescimento — e abriu portas para cargos importantes, até eu fundar minha própria empresa.

Percebi, ao longo da vida, que os vencedores são aqueles que geram valor para a comunidade por meio do seu trabalho. Por isso, quanto antes você se envolver com o mundo profissional — seja por emprego, estágio ou atividade informal —, menos dependerá da sorte. Seu diferencial estará no que você sabe, no que viveu e nas conexões que construiu.

O primeiro emprego fortalece a autoestima para a busca de uma colocação desejada e adequada ao seu perfil. E, um dia, você sentirá orgulho de contar sua história.

Junho 2025, Marcos A F Franco

Publicado no Jornal A Tribuna de Santos em 18/6/2025

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Empreendedorismo da Terra

Dias atrás, fiquei admirado ao assistir a uma reportagem sobre uma empresa da Amazônia que resolveu industrializar o mingau da Amazônia, com o objetivo de disponibilizá-lo para além das fronteiras da região.

O mingau da Amazônia é um prato nutritivo e sustentável, feito com ingredientes locais como banana, castanha, cupuaçu, açaí, macaxeira e tapioca. É uma tradição dos povos indígenas e ribeirinhos da região, passado de geração em geração. 

Parafraseando Clarice Lispector em uma de suas belas crônicas, “o inesperado me tomou”. Voltei ao tempo do meu curso de mestrado em Administração de Empresas quando estudei sobre Tecnologia Intermediária — conceito que se baseia na adequação ao ambiente local, com o objetivo de aumentar a autonomia das comunidades, por meio de soluções de baixo custo.

Fui além: lembrei-me da infância, quando em busca de diversão e entretenimento, produzia meus próprios brinquedos — pipas e carrinhos feitos de restos de madeira ou papelão. Construí também pranchas de surfes de madeirite e o famoso “sonrisal” — um disco de madeirite com cerca de um metro de diâmetro — para surfar nas partes rasas da praia. Havia ainda o futebol de botão, com jogadores pintados em celuloides — aquelas coberturas de relógios de pulso, muito usadas na década de 1970.

A imaginação corria solta para criar brinquedos de baixo custo. Alguns amigos conseguiam vender suas invenções. Mal sabíamos que, além de nos entreter, estávamos desenvolvendo o nosso espírito empreendedor. Era um curso prático e gratuito, cujo professor era a necessidade — perfeitamente alinhado com o movimento ideológico da Tecnologia Intermediária, iniciado na década de 1970 pelo economista Ernst Friendrich Schumacher, descrito em seu livro Small is Beautiful.

Hoje, fico feliz ao ver que um alimento nutritivo carregado com a essência da cultura, biodiversidade e ancestralidade amazônica — uma verdadeira tecnologia local — está se tornando acessível para mais pessoas, deixando de ser um tesouro exclusivamente regional.

O mingau da Amazônia, agora em forma prática — desidratado dentro e embalado em copos plásticos —, ao entrar em contato com a água, levará saúde e bem-estar a crianças e adultos muito além da Amazônia.

A atitude dessa empresa prova que o empreendedorismo de qualidade, além do sucesso comercial que chancela o negócio, é composto por valores intangíveis como tenacidade pessoal, paixão, comprometimento com a qualidade e capacidade de resolver problemas.

Afinal, será que não é justamente da simplicidade que brotam as inovações mais genuínas?

Marcos A F Franco, abril 2025

Publicado no Jornal A Tribuna de Santos em 22/5/2025

sábado, 10 de maio de 2025

terça-feira, 29 de abril de 2025

Empreendedor das Areias

Por uma semana, convivi com a namorada de Tom Jobim. Cobiçada, famosa e bem conhecida, cada vez que a vejo, me encanto com suas belezas naturais. O tempo não é problema para ela. O sol, sua vegetação e os movimentos do mar a mantêm maravilhosamente jovem.

A ex-capital do Brasil continua vibrante. Os cariocas se esforçam para superar seus desafios de uma grande cidade, onde todos querem desfrutar dos seus encantos, disputando cada centímetro dela. Eles cultuam a alegria, ingrediente mais distribuído durante o magnífico Carnaval, marcado por histórias e irreverências. Também são mestres em marketing. Não é à toa que muitos eventos e grandes agências internacionais estão por lá. Existe algo no ar que provoca e aguça a imaginação dos cariocas.

Durante o Rio Open — o maior torneio de tênis realizado na América do Sul — circulava entre os espectadores o Nei. Carregando duas pequenas caixas térmicas de dez litros cada uma, pendurados nos ombros, ele vendia o seu Nei Mate. Trazia consigo copos plásticos, um pacote dos famosos biscoitos Globo e um largo sorriso ao oferecer mate e limonada gelados.

O nome do seu negócio foi inspirado no famoso craque de futebol Neymar, esporte que o Nei praticou na sua adolescência. Ele vestia uma roupa própria para se proteger do sol, supercolorida em verde e laranja, estampando o slogan: “Só os Crias!” — gíria regional que remete à exclusividade, indicando aqueles que tem moral.

Em um dia ensolarado, andando descalço, pela areia escaldante das praias, chega a vender 100 litros de mate, usando sua voz para divulgar os produtos e interagindo com os banhistas como um amigo. Quando escuta um pedido de mate, rapidamente, com seus braços compridos, puxa o copo, abre a torneira da caixa do mate, bem gelado, depois a da limonada, oferece o biscoito, crocante, e pede para o cliente copiar o QR Code do seu Pix, estampado na camiseta e nas caixas térmicas.

Nei poderia ser mais um simples vendedor ambulante de mate, mas resolveu ser o Nei Mate. Com dedicação e perspicácia solidificou-se como referência na sua atividade profissional. Além da esposa, tem duas filhas adolescentes, a quem incentiva a cursar uma faculdade — oportunidade que ele não teve.

A veia empreendedora fez com que Nei interagisse com sua clientela por meio das mídias sociais, tornando-se uma atração em eventos sociais e esportivos internacionais, onde oferece aos turistas uma bebida genuinamente brasileira. Além disso, realiza palestras em empresas e universidades. O Nei “manda bem”.

Marcos A F Franco

Março 2025

Publicado no Jornal A Tribuna de Santos em 29/04/2025 

 

Quando a Prudência pede Passagem

Quase iniciando minha oitava década de vida, reflito sobre o aumento de atores no trânsito e testemunho seus efeitos. Ao mesmo tempo, sinto ...