Dias atrás, fiquei admirado ao assistir a
uma reportagem sobre uma empresa da Amazônia que resolveu industrializar o mingau
da Amazônia, com o objetivo de disponibilizá-lo para além das fronteiras da
região.
O mingau da Amazônia é um prato
nutritivo e sustentável, feito com ingredientes locais como banana, castanha,
cupuaçu, açaí, macaxeira e tapioca. É uma tradição dos povos indígenas e
ribeirinhos da região, passado de geração em geração.
Parafraseando Clarice Lispector em uma
de suas belas crônicas, “o inesperado me tomou”. Voltei ao tempo do meu
curso de mestrado em Administração de Empresas quando estudei sobre Tecnologia Intermediária
— conceito que se baseia na adequação ao ambiente local, com o objetivo de
aumentar a autonomia das comunidades, por meio de soluções de baixo custo.
Fui além: lembrei-me da infância, quando
em busca de diversão e entretenimento, produzia meus próprios brinquedos —
pipas e carrinhos feitos de restos de madeira ou papelão. Construí também
pranchas de surfes de madeirite e o famoso “sonrisal” — um disco de madeirite com
cerca de um metro de diâmetro — para surfar nas partes rasas da praia. Havia
ainda o futebol de botão, com jogadores pintados em celuloides — aquelas coberturas
de relógios de pulso, muito usadas na década de 1970.
A imaginação corria solta para criar
brinquedos de baixo custo. Alguns amigos conseguiam vender suas invenções. Mal
sabíamos que, além de nos entreter, estávamos desenvolvendo o nosso espírito
empreendedor. Era um curso prático e gratuito, cujo professor era a necessidade
— perfeitamente alinhado com o movimento ideológico da Tecnologia Intermediária,
iniciado na década de 1970 pelo economista Ernst Friendrich Schumacher,
descrito em seu livro Small is Beautiful.
Hoje, fico feliz ao ver que um alimento
nutritivo carregado com a essência da cultura, biodiversidade e ancestralidade amazônica
— uma verdadeira tecnologia local — está se tornando acessível para mais
pessoas, deixando de ser um tesouro exclusivamente regional.
O mingau da Amazônia, agora em forma
prática — desidratado dentro e embalado em copos plásticos —, ao entrar em
contato com a água, levará saúde e bem-estar a crianças e adultos muito além da
Amazônia.
A atitude dessa empresa prova que o
empreendedorismo de qualidade, além do sucesso comercial que chancela o
negócio, é composto por valores intangíveis como tenacidade pessoal, paixão, comprometimento
com a qualidade e capacidade de resolver problemas.
Afinal, será que não é justamente da
simplicidade que brotam as inovações mais genuínas?
Marcos A F Franco, abril 2025
Publicado no Jornal A Tribuna de Santos em 22/5/2025

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