domingo, 24 de dezembro de 2023

Tocando nos corais

Os 50 centímetros de água não foi obstáculo para que, junto com um amigo, eu pudesse mergulhar em um pequeno trecho da maior barreira de corais do mundo.

A Grande Barreira de Corais pode ser vista do espaço e é a maior estrutura do mundo feita por organismos vivos. Foi eleita como patrimônio mundial da Humanidade e muitos a consideram como uma das Sete Maravilhas naturais do mundo.

Quando comprei a passagem para Cairns, imaginava fazer um mergulho assistido e profundo nesse paraíso australiano, e realizar uma aventura radical como um jovem da terceira idade.

Ao entrar em uma lancha veloz, atracada no porto de Cairns, a euforia ia aumentando. O mar azul e limpo de almirante, indicava que o passeio seria um sucesso. Durante o percurso, os coordenadores da aventura passaram as instruções de segurança e, os cuidados em tocar nos corais. Eles ofereceram a roupa de mergulho de Neoprene para proteção do frio, os óculos, respirador e os pés de pato.

O tempo estava perfeito, o sol que nos acompanhava sorria alegre como um autêntico anfitrião para um mergulhador internacional de primeira viagem.

Ao atracar na bela ilha, bem cuidada e habitada por árvores nativas e frondosas, era possível ver no fundo no mar os desejados corais em suas cores variadas, predominando o amarelo. Uma paisagem deslumbrante que pude fotografá-la por vários ângulos.

O próximo passo era o de vestir as apertadas roupas de mergulho. Um desafio, que só não foi maior do que retirá-las, após a nossa aventura. Situação em que, carregados de areia, foi necessário a ajuda de terceiros.

Com os equipamentos no corpo, o próximo desafio era o de entrar no mar. Caminhar pela areia da praia, com os pés de pato na mão, foi uma tarefa cumprida com louvor.

Vestir os pés de pato, em pé, foi o indício de que a aventura não seria para amadores. Naturalmente, os pés de pato são apertados, mas vencemos essa etapa. Ainda bem que não alugamos o equipamento por tempo, se assim o fosse, não haveria dólares australianos suficiente.

Ninguém nos explicou que andar na parte rasa do mar, vestidos com os pés de pato, seria impossível se não fosse de costas. De costas, sem olhar para onde se pisa, tendo as ondas como inimigas naturais, nos remeteu à infância, na fase de aprender a andar. Mais uma alegre e divertida etapa, com alguns tombos. O nosso consolo é que, poucas pessoas conseguiam se manter em pé.

Com a água na altura dos joelhos, faltava o rápido e longo treino para adaptação da boca ao snorkel. Nele, você o segura em uma das pontas, com os dentes, para poder aspirar o ar pela boca e, posteriormente, soltá-lo pelo nariz. Qualquer deslize, nessa angustiosa operação, você ganha de presente água salgada, ao invés do ar. O snorkel fica acoplado aos óculos grandes, cuja regulagem tem que estar perfeita a sua cabeça para que a água não atrapalhe a sua visão.

Ufa, conseguimos! O próximo passo, foi esticar as pernas e bater os pés de pato, conduzindo com os braços o mergulho deslizante. Aí, foi uma maravilha. Me senti um peixe dentro d´água. Apesar de raso, o local possuía imensa coleção de corais, habitadas por pequenos peixes, animais marinhos e uma linda vegetação aquática.

É indescritível a sensação de poder serpentear por cima dos corais, tocá-los e apreciar os peixes curiosos a nos observarem, em um ambiente com águas cristalinas.

O susto da aventura ficou reservado para o retorno, sem qualquer culpa dos maravilhosos corais. Eles, assistiram impassíveis a uma corrida de tripulantes atrasados na hora de embarcar na lancha que nos levaria de volta ao continente, para a linda cidade de Cairns.

A viagem foi longa, mas não menos intensa do que a sensação de vitória de uma aventura natural, singular e doce, apesar dos mergulhos nas águas salgadas.

Agosto 2023, Marcos A. F. Franco

 

domingo, 17 de dezembro de 2023

Bibliochácara para as crianças


 

Um incentivo mais a ação tornou o sonho uma realidade

 

A Chácara das Flores Eurípedes Barsanulfo, que surgiu em abril de 2009, é uma instituição assistencial filantrópica, localizada na periferia de Mauá - SP, no Jardim Ituaçu e tem como foco oportunizar as crianças, adolescentes e jovens o acesso a projetos culturais e esportivos como judô, ballet, jazz, pintura e programas de incentivos a leitura todos realizados no contraturno escolar.

Em junho de 2011, decidiu implantar uma Sala de Leitura, oferecida pelo Rotary Club de Mauá – Barão de Mauá, através de um Subsídio Distrital da Fundação Rotária, com objetivo de ampliar suas atividades voltadas para educação e cultura. Desde então já realizou 6.532 atendimentos nesse projeto que está vinculado a Oficina do Conto, onde as crianças passaram a ter contato com os livros através da contação de histórias e das brincadeiras e atividades desenvolvidas a partir das narrativas.

“A implantação da sala de leitura foi o que impulsionou o crescimento físico e emocional da instituição. O apoio do Rotary ajudou a atrair novos patrocinadores que aumentou a credibilidade de nosso trabalho junto à comunidade”, acrescenta Alcione M P de Lima, presidente da entidade.

A leitura possibilitou evoluções: contos, teatros e o progresso de muitas crianças

Almir Correa Domingos, vice-secretário da entidade e um dos coordenadores do projeto confirma que: “a Oficina do Conto, pela sua proposta lúdica de estímulo à leitura com a narração das histórias e de acesso aos livros infanto-juvenis, foi se tornando mais conhecida  pela comunidade e preferida pela maioria das crianças que procuravam a instituição, em especial os pré-adolescentes”.

Assim esse projeto e a sala de leitura, batizada de BIBLIOCHACARA se tornaram a porta de entrada das crianças na Chácara. Depois se incorporou a esse projeto a Oficina de Teatro e uma nova forma de estimular a leitura: a dramatização das histórias lidas o que elevou o número de crianças atendidas e com acesso aos livros.

Tivemos vários casos de crianças que iniciaram bem introspectivas e que foram se desenvolvendo e se integraram ao grupo. Um deles foi o João Victor de 6 anos que não falava nada, mau olhava para as pessoas, e no final do ano passado participou de uma peça teatral. Até sua mãe ficou surpresa ao vê-lo no palco falando sozinho um texto memorizado. Neste ano ele decidiu que também participará da oficina de teatro.

Alcione Lima acrescenta que: “ver o crescimento intelectual e emocional de nossas  crianças, não tem preço que pague o apoio dos rotarianos”. “Houve um crescimento na área de comunicação e aprendizagem a leitura, autoestima, tornando a criança, muitas vezes sofrida, mais alegre e ciente de sua capacidade de integração  e assimilação de conteúdo perante a vida”.

O futuro prevê mais novidades e inclusão para as crianças especiais

A manutenção do projeto é feita com muito esforço, através de doações e atividades que visam a busca de recursos financeiros que permitem manter 4 monitores além de outras despesas materiais e administrativas. Também possibilita a realização de 2 passeios culturais na região, inclusive a visita a Bienal do Livro no Anhembi.

Segundo Almir, o acesso da sala de leitura passará de 2 para 3 oficinas, elevando o número de crianças para 126 e de atendimentos mensais para 504. A nova oficina será a do Blog, que trabalhará em conjunto com a Oficina do Conto e de Teatro no projeto “Manancial de Memórias: onde nascem as águas e as histórias”, que pretende estimular a leitura, a escrita e a pesquisa através do resgate, valorização e disseminação das histórias de quem vive no bairro, que se localiza numa área de manancial.

Outra novidade, este ano, é que as crianças maiores (10 anos em diante) serão capacitadas para se tornarem contadores de história pela contadora de história profissional Vanessa Castro da Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer de Mauá.

Mais um avanço está previsto: o início do atendimento a crianças com deficiências físicas e mentais, como Autismo e Síndrome de Down. Serão realizados parcerias e convênios técnicos com instituições especialistas em deficientes que capacitarão a todos.

Almir prevê que em 2 anos o empréstimo de livros será acessível à todas as crianças da instituição (184), contabilizando cerca de 7.360 atendimentos anuais.

Manoel Pereira Daniel, atual presidente do Rotary Club de Mauá – Barão de Mauá destaca que essa parceria, Rotary – Chácara das Flores, tem sido vitoriosa proporcionando mais apoio de empresas ao projeto e, conclui: “Eu e meus companheiros de clube nos orgulhamos muito em fazer parte da história dessa entidade e apoiar as ações de seus administradores”.

Marcos A F Franco

Presidente do LER Rotary D4420

Fevereiro 2014

Publicado na Revista Brasil Rotário em Junho de 2014

Vamos mudar o mundo


 

Vamos empreender socialmente?

Basta uma ideia seguida de ação.

Cada vez mais nosso desenvolvimento social depende de ações pessoais daqueles que trabalham para o coletivo. Infelizmente o Estado não consegue responder às necessidades sociais, com a rapidez e qualidades necessárias. É um modelo inadequado nos dias de hoje, onde a velocidade das informações é muito grande.

Esse modelo burocrático e com vulnerabilidades faz com que os recursos se percam ou desapareçam ao longo de trâmites legais. São descontroles, lobies, ingerências, excesso de leis, corrupção.

Lembram-se da CPMF, imposto que foi criado com o objetivo de destinar mais verbas para a saúde pública? Esse imposto existiu por muito tempo como uma receita extra para o governo, sem necessariamente ter carreado para saúde.

Estamos vendo uma crescente proliferação de ONGs – Organizações não governamentais - focadas cada uma para um objetivo, independentes do poder público. Graças a esses movimentos, as pessoas com bons valores éticos desenvolvem projetos com grandes retornos sociais. São pessoas que, com pouco, sabem fazer muito.

Conhecemos um empreendedor empresarial por sua capacidade de inovar e gerar lucro em seu negócio. Já o empreendedor social consegue gerar resultados para coletividade. São pessoas profissionais, apaixonadas pelo que fazem, transparentes, determinadas e, sobretudo, indignadas com as injustiças sociais. Podem atuar de forma independente ou através das ONGs.

A criação do sistema de microcrédito por Muhamed Yunus, em Bangladesh, que lhe rendeu um prêmio Nobel, é uma prova que, com um pouco de investimento, a renda individual melhorou muito para muitos. São pequenos empréstimos para aquisição de bicicletas, ferramentas, motores, que permitiram aos seus usuários aumentarem suas rendas.

Fábio Rosa, engenheiro agrônomo, o Gaúcho Elétrico, como é conhecido internacionalmente, desenvolveu um sistema de transmissão elétrico rural, 18 vezes mais barato que o convencional e permitiu que milhares de famílias aumentassem suas rendas e condições de vida.

Esses são apenas dois excelentes exemplos dentre muitos que existem ao nosso redor.

O empreendedor social está se tornando uma profissão. Já existem cursos superiores nos Estados Unidos com essa finalidade. No Brasil existe como extensão, na Universidade de São Paulo.

O empreendedor social será um profissional reconhecido por suas habilidades, dentre elas trabalhar em equipe, negociar, pensar e agir, ágil, flexível, focado, crítico, além de saber trabalhar de modo empresarial.

Será muito importante que no ensino fundamental os jovens sejam estimulados a desenvolver o empreendedorismo.

Todas as idéias, seguidas de ações, contribuem para o nosso desenvolvimento.

Marcos A F Franco

Setembro 2007

Publicado no Informativo da ADASP em Setembro 2007

O número 1 é o craque do time


Em busca de soluções e referências, ouvimos muito que determinada pessoa é a número 1 naquele assunto, que tal empresa é a número 1 no seu segmento, que determinado país é o modelo em desenvolvimento humano.

Quando eu jogava bola na rua, na infância, existia o dono da bola e o craque do time. O craque era logo escolhido para liderar um dos times, o dono da bola também jogava, naturalmente, mas em alguma posição que não prejudicasse o grupo.

Ser o número 1 é a forma de como somos vistos. Enquanto ser o primeiro necessariamente implica em participar de uma competição ou exercer um comando formal. A figura da eminência parda, aquele que influencia constantemente a liderança formal em muitos governos, instituições, empresas e mesmo em um grupo social, ajuda a explicar o fator número 1. Mesmo não sendo o líder formal, o número 1 será a referência para a solução de vários assuntos. Em Cuba, onde a maior referência política se afastou da presidência, ainda é lembrado constantemente na política internacional. No mundo corporativo vemos muitas empresas tornarem-se grandes e novas referências por buscarem constantemente a inovação, provocando uma mudança na mente dos consumidores.

Ser visto como número 1 implica em possuir acessibilidade ao grupo, público ou comunidade na qual se convive, conhecimento específico, história pessoal conhecida, credibilidade, visão de futuro, bons exemplos e carisma. Predicados de uma liderança natural. O número 1 é uma referência consagrada para determinado assunto porque os outros o veem dessa forma e confiam em suas propostas. Ele impõe naturalmente suas ideias e conduz os processos de planejamento e decisões.

Recentemente testemunhamos o surgimento de um novo Papa da Igreja Católica. De repente, o Papa anterior Bento XVI resolveu se afastar e os cardeais de todo o mundo, reunidos em conclave, na Capela Sistina, decidiram emergir a nova liderança do então Cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco. Os cardeais viram em Bergoglio o número 1 da Igreja e uma liderança para se adaptar às novas demandas.

Em um mesmo grupo ou organização pode haver mais de um número 1. Cada assunto ou situação, como em uma empresa, onde há diversos departamentos, é conduzido por aquele que é mais experiente e perspicaz. Imagine no circo, onde existe um proprietário, é o domador que entra na jaula para conter o leão para apresentar o espetáculo, o palhaço é o responsável pela alegria e o bilheteiro faz a cobrança. Cada qual é o número 1 dentro do seu contexto. Se houver inversão de funções, o circo ficará triste.

Muitas vezes, por vaidade ou por outros interesses, buscamos ser o primeiro, ao invés de ser o número 1. Ser o primeiro gera competição e muitas turbulências pessoais, pois precisamos estar atentos aos que também têm esse objetivo, enquanto para ser o número 1 se requer um desenvolvimento pessoal e profissional constante.

E você está preparado para ser o número 1 na sua profissão?

Marcos A F Franco

Fevereiro 2014

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

FOZ INFERNAL


            Já estive na antessala do inferno! Era calor para todos os lados.

O 11º Campeonato Brasileiro de Tênis de Rotarianos realizado em Foz do Iguaçu, no final de novembro de 2023 foi um teste físico, mental e cardíaco para os 55 jogadores que, por 3 dias, suportaram a alta temperatura e o calor humano irradiado em excesso.

A noite de abertura foi reservada para as palavras de boas-vindas dos presidentes dos 2 Rotary Clubs anfitriões, seguido da degustação das pizzas da Dal, para quebrar o gelo entre os que ainda não se conheciam. A preocupação da maioria era o de saber os seus adversários do dia seguinte. Mal sabiam eles que um oponente forte e perigoso iria impor mais dificuldades nos jogos de todos os inscritos.

A dupla inesperada do calor úmido e do sol intenso foi um adversário monstruoso, mas não impossível de ser superada pelos participantes. Ambos foram surpreendidos pela resiliência, energia, tenacidade, vibração, garra e técnicas aplicadas pelos verdadeiros guerreiros do tênis.

As duas frondosas mangueiras existentes no Eco Tênis, sede do torneio, mantiveram a sentinela e abrigaram, com frescor, desde os mais jovens até os mais experientes, arrefecendo os corações ferventes. Corações que insistiam todo o tempo em sorrir, ajudar e compartilhar a alegria do ambiente aconchegante propiciado pelo local arborizado e das quadras bem cuidadas.

Muitos litros de água, refrigerantes e até o suco de cevada evaporaram, dos corpos molhados, dos insistentes e fanáticos profissionais do tênis da amizade. Houve torcida fervorosa, houve bolas duvidosas, bolas discutidas, bolas curtas, bolas altas, pontos recontados, pontos bem jogados, pontos atrapalhados, bolas que teimavam em resvalar na rede. Mas ao final de cada jogo o cumprimento e abraço amigo selava o compromisso da amizade. Teve também as fotos dos parceiros, no início ou no final de cada partida, ressalvando que as capturadas no início, ambos se apresentavam sorrindo.

A turma da organização foi buscar gente no aeroporto, com direito a brindes e sorrisos. Providenciaram um churras delicioso de costela bovina, que pelo tempo de brasa, com o seu aroma intenso, acelerou o término dos jogos dos mais glutões. Junto com a carne, foi oferecido chope bem gelado pelos aniversariantes locais do mês, que foi todo ele degustado, até a última gota. Foi o momento de esfriar o radiador dos jogadores, principalmente daqueles superaquecidos. Algumas fotos provam que os pets não conseguiram lamber os ossos, teve gente que não deixou.

A última noite foi reservada para a entrega dos troféus aos vencedores, em uma cerimônia simples, seguida de um banquete árabe, composto por diversos pratos deliciosos, em um grande salão suntuoso, que abrigava 500 pessoas. Foi o momento de alegria e descontração absoluta, com muitas fotos dos vencedores e companheirismo em abundância. O calor que prevaleceu foi o humano. Apesar do cansaço de três dias intensos, ele foi anestesiado pelo imenso carinho com que os companheiros locais receberam os gaúchos, catarinenses, paranaenses, paulistas, sul-mato-grossenses, argentinos e paraguaios.

Esse torneio ficará marcado, ou melhor, queimado do sol intenso, pelo excessivo calor suportado por todos. Calor este que não foi maior do que o calor humano e carinhos distribuídos à vontade entre todos os participantes.

Vivemos três dias em um paraíso infernal.


Dezembro 2023

Marcos A F Franco

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

A BUSCA MILENAR DA BELEZA


Sobreviver em nosso planeta é um grande desafio. Com o crescimento demográfico e com o passar do tempo, nossas vidas se transformam por milhares de motivos. É necessária uma grande capacidade de adaptação para usufruirmos dessa evolução.

A estória da Beleza exemplifica essa afirmativa. Ela pode representar a beleza física, mental e espiritual dos indivíduos ao longo da história e que hoje é um desejo de milhões de pessoas. Por vários motivos, testemunhamos o crescimento dessa obsessão que ocorre ao longo da nossa existência.

Em uma época longínqua, a Beleza vivia feliz no Egito. Naquele tempo em que a comunicação era feita boca a boca, ela não imaginava que haveria outras iguais a ela. Suas referências eram relativas e próximas de si. A aparência tinha a sua importância, assim como a longevidade física.

Já havia uma preocupação com o aspecto físico, inclusive em guardar os reis e rainhas, embalsamando os seus corpos abrigados em pirâmides.

A Beleza sempre foi admirada pelas pessoas, independentemente de ser homem ou mulher. O sentimento de ser jovem e belo também foi observado ao longo do tempo. Narciso, um dos heróis da mitologia Grega, foi famoso por sua beleza e orgulho. O vidente Tirésias profetizou que Narciso teria vida longa desde que nunca se reconhecesse. Ele morreu de fome e sede à beira da fonte de água onde via sua imagem refletida, apaixonado pelo próprio reflexo.

Os amigos mais íntimos da Beleza são o Espelho, a Consciência e a Vaidade. Em cada momento da vida, a Beleza se aconselhava com um deles.

Eles também se transformaram com o tempo. O Espelho teve como antepassado pedras e metais limados para poder revelar para a Beleza sua imagem. Era uma época em que ele, o Espelho, produzia um reflexo borrado, sem a necessária nitidez. Muitas vezes, a Beleza se valia do reflexo das poças de água ou dos rios, para ter a certeza de que a Vaidade e a Consciência estavam falando a verdade a seu respeito.

O Espelho costumava dizer que o reflexo da imagem da Beleza, por diversas vezes, era influenciado pelos seus próprios fatores emocionais, psicológicos e de autoestima. Ela se via mais linda quando estava feliz.

Há apenas 200 anos, a nova geração dos Espelhos passou a ser como os vemos hoje. Depois de muitas reclamações e condenações, essa família passou a ser mais transparente, conseguindo refletir com fidelidade a imagem da Beleza. Há alguns de seus descendentes que conseguem reproduzir imagens deformadas, mas esses, não passam pelo teste da Beleza.

A Beleza sempre foi muito exigente, curiosa e obstinada. Ela buscou, incessantemente, formas e artifícios de estar em evidência. Chegou a passar fome assim que soube que experiências com insetos e camundongos retardava o envelhecimento deles.

Quando a Beleza conheceu Cleópatra, a rainha do Egito, filha de Ptolomeu XII, ela sentiu que aflorou dentro de si um propósito que transformaria sua vida.

Cleópatra era uma pequena mulher fisicamente, mas que se fazia maior pelas roupas e adereços que utilizava. Sua pele era diferente, era bem cuidada, era mais fina e brilhava. Seus cabelos lisos, pretos e com franja envolviam uma feição delicada. Seu olhar carismático junto com seu cílio incomum dominava as multidões. Sua boca carnuda e colorida, enebriava suas palavras.

Cleópatra foi uma mulher poderosa que, quando passava pelas ruas, o povo ficava anestesiado com a sua imagem. Ela provocava inveja nas mulheres e desejo nos homens.  

Aconselhada pela Vaidade, a Beleza teria que ser o centro das atenções em seu meio social. Beleza teria que ser igual a Cleópatra. Com a Rainha, ela aprendeu que teria de tomar 3 banhos ao dia, de leite e mel, para manter sua pele branca e sedosa. Decidiu que seus cabelos teriam que ter cuidados diários, teriam que ser compridos e com franja.

Para a Vaidade, a Beleza deveria se preocupar com a sua aparência física e estética, cuidando da sua harmonia facial e corporal, bem como primando por sua apresentação cuidadosa e atraente.

A Consciência, percebendo que a Beleza convivia mais próxima da Vaidade, sugeria para que ela desenvolvesse também outras habilidades e capacidades da rainha Cleópatra, como o estudo, a cultura, a verbalização e o contato com mais pessoas. Mesmo insistindo, a Consciência não logrou sucesso. Ainda que a Beleza reclamasse que Cleópatra continuava sendo mais admirada por todos, ela priorizava apenas os cuidados com os aspectos físicos.

Ao longo dos tempos, a Beleza conviveu, conflituosamente, com a Consciência, mas não desistia dela. Para a Consciência, a Beleza deveria ter uma preocupação mais profunda e abrangente com a sua estética e com seu valor intrínseco, envolvendo aspectos emocionais, intelectuais e espirituais.

A Beleza, cada vez mais obstinada em busca da melhor aparência, foi uma das primeiras a utilizar as famosas perucas de Luiz XIV, tendo ido à Paris diversas vezes, em pleno século XVII.

Onde existisse algo novo relacionado a manutenção de sua jovialidade a Beleza não media esforços para buscá-lo. Alegava para a Consciência que se sentir mais jovem era benéfico para sua autoestima.

Certa vez, a Consciência afirmou para a Beleza que a sua paranoia era uma gerascofobia, palavra adotada para identificar as pessoas que tem o medo irracional de envelhecer. A Beleza se assustou e por um período abandonou a convivência com a Vaidade.

Entretanto, o seu amigo Espelho não escondia a sua aparência mais velha. O conflito com a Consciência se fortaleceu novamente.

A Beleza não queria envelhecer. Ela sempre associou a velhice com a perda de vitalidade, beleza e saúde. Além disso, o envelhecimento poderia trazer consigo uma série de doenças e limitações físicas que afetariam a qualidade de vida.

O tempo foi passando e a sua obstinação era cada vez maior. Ela começou a acreditar na existência de um elixir da juventude e não media esforços para encontrá-lo. O elixir da juventude é um mito antigo que tem sido objeto de muitas histórias e lendas. Os antigos magos acreditavam poder captar as energias vitais universais e concentrá-las em um medicamento global que manteria o corpo jovem e são, com o objetivo de prolongar a vida. Os alquimistas acreditavam que o elixir da juventude se encontrava no Ouro Potável, cujas propriedades permitiriam a cura e a regeneração do organismo, prolongando a vida.

No início do século vinte, a Beleza passou a dispor de tinturas artificiais em substituição as tinturas naturais e a henna. Já com muita idade, mas persistente ao seu propósito, ela incentivou milhões de pessoas a seguir o seu sonho, e todas elas puderam colorir os seus cabelos em busca de um novo visual.

A Beleza prosseguiu incansável e paranoica. Nos anos 60 do século 20 experimentou não só o Botox para eliminar suas rugas, como também a cirurgia plástica com finalidade estética. Ela pôde diminuir o seu nariz, estilizar suas orelhas e deixar os seus olhos mais expressivos. Foi uma época mais difícil para a Beleza, pois, o número de pessoas que passaram a se valer dessas cirurgias, buscando um novo e jovem rosto cresceu muito. A Beleza percebeu que a concorrência aumentou e que, embora a sua fisionomia pudesse parecer mais jovem, a sua essência visual sofreria mudanças, a ponto de não ser reconhecida.

A Beleza, ao longo dos anos passou a usar outros artifícios como roupas menos discretas, bijuterias, óculos, chapéus, colares, para encobrir as marcas inevitáveis da sua idade. Sua maior frustração era a de não ficar igual a sua Deusa, a Rainha Cleópatra.

Recentemente a Beleza, por sugestão da Vaidade, foi até a Argentina experimentar uma nova moda da estética, a harmonização facial, que está se espalhando pelo mundo a fora. Ela promove o alinhamento e a correção de ângulos da face, melhora o equilíbrio do rosto e dos dentes, promove o rejuvenescimento da pele e melhora a simetria facial.

A Consciência e o Espelho acreditam que enquanto a Vaidade existir, a Beleza continuará ouvindo-a e seguirá firme em seu objetivo de não querer envelhecer a sua aparência.

No mundo de hoje, a visão que a sociedade tem do idoso contribui para a construção de conceitos negativos e depreciativos, o que leva a uma rejeição ao processo de envelhecimento. Essa situação se propagou ao longo dos séculos, fazendo com que os idosos sejam vistos como seres inúteis e descartáveis, como um fardo a se carregar.

Outro fator fundamental para querer se manter jovem é que a expectativa de vida humana, quase dobrou em menos de um século graças aos avanços da ciência. Saneamento básico, vacinas e antibióticos venceram as doenças infecciosas que tanto devastaram populações. Doenças como Mal de Alzheimer, câncer e infarto nunca chegaram a ser, de fato, um problema porque as pessoas não envelheciam o suficiente para desenvolvê-las.

Com o advento das mídias sociais, onde a própria pessoa produz seus conteúdos, verbais e visuais, a indústria da beleza cresce a passos largos. Muitas fake News são divulgadas, convencendo quem acredita nos elixires da juventude. A Beleza envelheceu, milhares já morreram, mas ela, movida pelas Vaidades procriou suas sucessoras.

Envelhecer pode ser um processo difícil para muitas pessoas, mas é importante lembrar que é uma parte natural da vida. É possível envelhecer com saúde e qualidade de vida, e muitas pessoas estão inaugurando um novo ciclo de vida após os 60 anos.

A cada fase da vida podemos estabelecer a nossa beleza, equilibrando o uso do espelho, controlando a nossa vaidade e avaliando conscientemente o dia a dia do nosso bem-estar.

Marcos A F Franco

Setembro 2023

Publicado na Revista da Academia Santista de Letras  No XXVI - ANO 2023

Cego, Surdo e Bem-casado

Enquanto caminhava na esteira da academia, ouvi de um personal trainer uma afirmação curiosa: “O casamento afeta os sentidos, especialmente ...