Sobreviver em
nosso planeta é um grande desafio. Com o crescimento demográfico e com o passar
do tempo, nossas vidas se transformam por milhares de motivos. É necessária uma
grande capacidade de adaptação para usufruirmos dessa evolução.
A estória da
Beleza exemplifica essa afirmativa. Ela pode representar a beleza física,
mental e espiritual dos indivíduos ao longo da história e que hoje é um desejo
de milhões de pessoas. Por vários motivos, testemunhamos o crescimento dessa
obsessão que ocorre ao longo da nossa existência.
Em uma época
longínqua, a Beleza vivia feliz no Egito. Naquele tempo em que a comunicação
era feita boca a boca, ela não imaginava que haveria outras iguais a ela. Suas
referências eram relativas e próximas de si. A aparência tinha a sua
importância, assim como a longevidade física.
Já havia uma
preocupação com o aspecto físico, inclusive em guardar os reis e rainhas,
embalsamando os seus corpos abrigados em pirâmides.
A Beleza
sempre foi admirada pelas pessoas, independentemente de ser homem ou mulher. O
sentimento de ser jovem e belo também foi observado ao longo do tempo. Narciso,
um dos heróis da mitologia Grega, foi famoso por sua beleza e orgulho. O
vidente Tirésias profetizou que Narciso teria vida longa desde que nunca se
reconhecesse. Ele morreu de fome e sede à beira da fonte de água onde via sua
imagem refletida, apaixonado pelo próprio reflexo.
Os amigos
mais íntimos da Beleza são o Espelho, a Consciência e a Vaidade. Em cada
momento da vida, a Beleza se aconselhava com um deles.
Eles também
se transformaram com o tempo. O Espelho teve como antepassado pedras e metais
limados para poder revelar para a Beleza sua imagem. Era uma época em que ele,
o Espelho, produzia um reflexo borrado, sem a necessária nitidez. Muitas vezes,
a Beleza se valia do reflexo das poças de água ou dos rios, para ter a certeza
de que a Vaidade e a Consciência estavam falando a verdade a seu respeito.
O Espelho
costumava dizer que o reflexo da imagem da Beleza, por diversas vezes, era
influenciado pelos seus próprios fatores emocionais, psicológicos e de
autoestima. Ela se via mais linda quando estava feliz.
Há apenas 200
anos, a nova geração dos Espelhos passou a ser como os vemos hoje. Depois de
muitas reclamações e condenações, essa família passou a ser mais transparente,
conseguindo refletir com fidelidade a imagem da Beleza. Há alguns de seus
descendentes que conseguem reproduzir imagens deformadas, mas esses, não passam
pelo teste da Beleza.
A Beleza
sempre foi muito exigente, curiosa e obstinada. Ela buscou, incessantemente,
formas e artifícios de estar em evidência. Chegou a passar fome assim que soube
que experiências com insetos e camundongos retardava o envelhecimento deles.
Quando a
Beleza conheceu Cleópatra, a rainha do Egito, filha de Ptolomeu XII, ela sentiu
que aflorou dentro de si um propósito que transformaria sua vida.
Cleópatra era
uma pequena mulher fisicamente, mas que se fazia maior pelas roupas e adereços
que utilizava. Sua pele era diferente, era bem cuidada, era mais fina e
brilhava. Seus cabelos lisos, pretos e com franja envolviam uma feição
delicada. Seu olhar carismático junto com seu cílio incomum dominava as
multidões. Sua boca carnuda e colorida, enebriava suas palavras.
Cleópatra foi
uma mulher poderosa que, quando passava pelas ruas, o povo ficava anestesiado
com a sua imagem. Ela provocava inveja nas mulheres e desejo nos homens.
Aconselhada
pela Vaidade, a Beleza teria que ser o centro das atenções em seu meio social. Beleza
teria que ser igual a Cleópatra. Com a Rainha, ela aprendeu que teria de tomar
3 banhos ao dia, de leite e mel, para manter sua pele branca e sedosa. Decidiu
que seus cabelos teriam que ter cuidados diários, teriam que ser compridos e
com franja.
Para a
Vaidade, a Beleza deveria se preocupar com a sua aparência física e estética,
cuidando da sua harmonia facial e corporal, bem como primando por sua
apresentação cuidadosa e atraente.
A
Consciência, percebendo que a Beleza convivia mais próxima da Vaidade, sugeria
para que ela desenvolvesse também outras habilidades e capacidades da rainha
Cleópatra, como o estudo, a cultura, a verbalização e o contato com mais
pessoas. Mesmo insistindo, a Consciência não logrou sucesso. Ainda que a Beleza
reclamasse que Cleópatra continuava sendo mais admirada por todos, ela
priorizava apenas os cuidados com os aspectos físicos.
Ao longo dos
tempos, a Beleza conviveu, conflituosamente, com a Consciência, mas não
desistia dela. Para a Consciência, a Beleza deveria ter uma preocupação mais
profunda e abrangente com a sua estética e com seu valor intrínseco, envolvendo
aspectos emocionais, intelectuais e espirituais.
A Beleza, cada
vez mais obstinada em busca da melhor aparência, foi uma das primeiras a
utilizar as famosas perucas de Luiz XIV, tendo ido à Paris diversas vezes, em
pleno século XVII.
Onde
existisse algo novo relacionado a manutenção de sua jovialidade a Beleza não
media esforços para buscá-lo. Alegava para a Consciência que se sentir mais
jovem era benéfico para sua autoestima.
Certa vez, a
Consciência afirmou para a Beleza que a sua paranoia era uma gerascofobia, palavra
adotada para identificar as pessoas que tem o medo irracional de envelhecer. A
Beleza se assustou e por um período abandonou a convivência com a Vaidade.
Entretanto, o
seu amigo Espelho não escondia a sua aparência mais velha. O conflito com a
Consciência se fortaleceu novamente.
A Beleza não
queria envelhecer. Ela sempre associou a velhice com a perda de vitalidade,
beleza e saúde. Além disso, o envelhecimento poderia trazer consigo uma série
de doenças e limitações físicas que afetariam a qualidade de vida.
O tempo foi
passando e a sua obstinação era cada vez maior. Ela começou a acreditar na
existência de um elixir da juventude e não media esforços para encontrá-lo. O
elixir da juventude é um mito antigo que tem sido objeto de muitas histórias e
lendas. Os antigos magos acreditavam poder captar as energias vitais universais
e concentrá-las em um medicamento global que manteria o corpo jovem e são, com
o objetivo de prolongar a vida. Os alquimistas acreditavam que o elixir da
juventude se encontrava no Ouro Potável, cujas propriedades permitiriam a cura
e a regeneração do organismo, prolongando a vida.
No início do
século vinte, a Beleza passou a dispor de tinturas artificiais em substituição as
tinturas naturais e a henna. Já com muita idade, mas persistente ao seu
propósito, ela incentivou milhões de pessoas a seguir o seu sonho, e todas elas
puderam colorir os seus cabelos em busca de um novo visual.
A Beleza prosseguiu
incansável e paranoica. Nos anos 60 do século 20 experimentou não só o Botox
para eliminar suas rugas, como também a cirurgia plástica com finalidade
estética. Ela pôde diminuir o seu nariz, estilizar suas orelhas e deixar os
seus olhos mais expressivos. Foi uma época mais difícil para a Beleza, pois, o número
de pessoas que passaram a se valer dessas cirurgias, buscando um novo e jovem
rosto cresceu muito. A Beleza percebeu que a concorrência aumentou e que,
embora a sua fisionomia pudesse parecer mais jovem, a sua essência visual
sofreria mudanças, a ponto de não ser reconhecida.
A Beleza, ao
longo dos anos passou a usar outros artifícios como roupas menos discretas,
bijuterias, óculos, chapéus, colares, para encobrir as marcas inevitáveis da
sua idade. Sua maior frustração era a de não ficar igual a sua Deusa, a Rainha
Cleópatra.
Recentemente
a Beleza, por sugestão da Vaidade, foi até a Argentina experimentar uma nova
moda da estética, a harmonização facial, que está se espalhando pelo mundo a
fora. Ela promove o alinhamento e a correção de ângulos da face, melhora o
equilíbrio do rosto e dos dentes, promove o rejuvenescimento da pele e melhora
a simetria facial.
A Consciência
e o Espelho acreditam que enquanto a Vaidade existir, a Beleza continuará
ouvindo-a e seguirá firme em seu objetivo de não querer envelhecer a sua
aparência.
No mundo de
hoje, a visão que a sociedade tem do idoso contribui para a construção de
conceitos negativos e depreciativos, o que leva a uma rejeição ao processo de
envelhecimento. Essa situação se propagou ao longo dos séculos, fazendo com que
os idosos sejam vistos como seres inúteis e descartáveis, como um fardo a se
carregar.
Outro fator
fundamental para querer se manter jovem é que a expectativa de vida humana,
quase dobrou em menos de um século graças aos avanços da ciência. Saneamento
básico, vacinas e antibióticos venceram as doenças infecciosas que tanto
devastaram populações. Doenças como Mal de Alzheimer, câncer e infarto nunca
chegaram a ser, de fato, um problema porque as pessoas não envelheciam o
suficiente para desenvolvê-las.
Com o advento
das mídias sociais, onde a própria pessoa produz seus conteúdos, verbais e
visuais, a indústria da beleza cresce a passos largos. Muitas fake News são
divulgadas, convencendo quem acredita nos elixires da juventude. A Beleza
envelheceu, milhares já morreram, mas ela, movida pelas Vaidades procriou suas
sucessoras.
Envelhecer pode ser um processo difícil para muitas pessoas, mas é
importante lembrar que é uma parte natural da vida. É possível envelhecer com
saúde e qualidade de vida, e muitas pessoas estão inaugurando um novo ciclo de
vida após os 60 anos.
A cada fase da vida podemos estabelecer a nossa beleza, equilibrando o
uso do espelho, controlando a nossa vaidade e avaliando conscientemente o dia a
dia do nosso bem-estar.
Marcos A F Franco
Setembro 2023
Publicado na Revista da Academia Santista de Letras No XXVI - ANO 2023