sábado, 10 de maio de 2025
O livro Tennis Dreams foi apresentado no Sport TV
Apresentado pelo jornalista Marcelo Barreto, em seu programa Redação SporTV, no dia 19 de fevereiro de 2025.
terça-feira, 29 de abril de 2025
Empreendedor das Areias
Por
uma semana, convivi com a namorada de Tom Jobim. Cobiçada, famosa e bem
conhecida, cada vez que a vejo, me encanto com suas belezas naturais. O tempo
não é problema para ela. O sol, sua vegetação e os movimentos do mar a mantêm
maravilhosamente jovem.
A ex-capital
do Brasil continua vibrante. Os cariocas se esforçam para superar seus desafios
de uma grande cidade, onde todos querem desfrutar dos seus encantos, disputando
cada centímetro dela. Eles cultuam a alegria, ingrediente mais distribuído
durante o magnífico Carnaval, marcado por histórias e irreverências. Também são
mestres em marketing. Não é à toa que muitos eventos e grandes agências
internacionais estão por lá. Existe algo no ar que provoca e aguça a imaginação
dos cariocas.
Durante
o Rio Open — o maior torneio de tênis realizado na América do Sul — circulava
entre os espectadores o Nei. Carregando duas pequenas caixas térmicas de dez
litros cada uma, pendurados nos ombros, ele vendia o seu Nei Mate. Trazia consigo
copos plásticos, um pacote dos famosos biscoitos Globo e um largo sorriso ao
oferecer mate e limonada gelados.
O
nome do seu negócio foi inspirado no famoso craque de futebol Neymar, esporte
que o Nei praticou na sua adolescência. Ele vestia uma roupa própria para se
proteger do sol, supercolorida em verde e laranja, estampando o slogan: “Só
os Crias!” — gíria regional que remete à exclusividade, indicando aqueles
que tem moral.
Em um
dia ensolarado, andando descalço, pela areia escaldante das praias, chega a
vender 100 litros de mate, usando sua voz para divulgar os produtos e
interagindo com os banhistas como um amigo. Quando escuta um pedido de mate,
rapidamente, com seus braços compridos, puxa o copo, abre a torneira da caixa
do mate, bem gelado, depois a da limonada, oferece o biscoito, crocante, e pede
para o cliente copiar o QR Code do seu Pix, estampado na camiseta e nas caixas
térmicas.
Nei
poderia ser mais um simples vendedor ambulante de mate, mas resolveu ser o Nei
Mate. Com dedicação e perspicácia solidificou-se como referência na sua
atividade profissional. Além da esposa, tem duas filhas adolescentes, a quem incentiva
a cursar uma faculdade — oportunidade que ele não teve.
A veia empreendedora fez com que Nei interagisse com sua clientela por meio das mídias sociais, tornando-se uma atração em eventos sociais e esportivos internacionais, onde oferece aos turistas uma bebida genuinamente brasileira. Além disso, realiza palestras em empresas e universidades. O Nei “manda bem”.
Marcos A F Franco
Março 2025
Publicado no Jornal A Tribuna de Santos em 29/04/2025
domingo, 27 de abril de 2025
terça-feira, 25 de março de 2025
Entre Cajus e Carangueijos
Vivi momentos alegres.
Conheci a terra do caju, a capital de Sergipe, o menor estado da federação
brasileira em extensão territorial, mas imenso pela recepção e acolhida do povo
amigo dos caranguejos. O nome Aracaju não nega as origens indígenas e carrega a
coragem de Cristóvão de Barros, grande líder em diversas batalhas contra a
anexação de Sergipe à Capitânia da Bahia de Todos os Santos, no século XVI.
Dentro de um Uber, a
caminho do centenário Mercado
Municipal, que leva o nome de três personagens ilustres, sendo dois deles
idênticos ao meu sobrenome, o motorista me surpreendeu. Além de sua habilidade ao
volante, era um guia turístico por vocação.
Protegido pelo
ar-condicionado do calor do vigoroso sol nordestino, em um confortável
veículo, o meu guia, orgulhoso de sua cidade, descrevia e apontava o cuidado
com a preservação dos manguezais ao longo do rio Sergipe, que deságua no
oceano.
Saindo da praia de
Atalaia, onde se encontra a instagramável e imponente escultura de um
caranguejo, percorri ruas planas de uma cidade ampla e bem cuidada. No trajeto,
vi prédios luxuosos até avistar grandes esculturas à beira do rio Sergipe, em
frente ao Museu da Gente Sergipana. As esculturas, com sete metros de altura,
representam figuras da terra. O museu interativo abriga objetos antigos e
atuais, palavras e expressões regionais, além de filmes sobre o povo sergipano.
Enquanto o semáforo não
abria, o guia desinibido, respondia algumas perguntas. Sobre a segurança foi
bem direto:
— Aqui o cabra só assalta
uma vez, na reincidência, leva bala.
Quase chegando ao destino,
o motorista nos recomendou retornar para os festejos de São João. A festa dura
um mês.
No dia seguinte,
convidado para uma reunião social em uma chácara, quase dentro da cidade, pude
saborear um tambaqui na brasa, pescado na hora no lago da propriedade. Cercado
por patos, galinha d´Angola, pavões e cachorro, abrigados por um grande pomar, notei
um coelho preto, morador da chácara, que me observava com as orelhas em riste, expressão
interrogativa, tentando entender a nossa “invasão” ao seu paraíso. Contemplei
um pôr-do-sol invejável, disputado por inúmeras árvores e refletido nas águas do
lago, testemunha da receptividade ímpar do casal que abriu seus portões para
convidados forasteiros.
Comprovando as diferenças
culturais, ao solicitar uma omelete à atendente do café do hotel, ela, percebendo
minha origem paulista, perguntou:
— O senhor está com
pressa? O serviço está lento. A mesma lerdeza de sempre.
Saboreei todo o típico café
com mais calma.
Andando pela avenida da
praia em busca de um açaí cremoso, deparei-me com uma vendedora ambulante
preparando uma carne desfiada em uma chapa enquanto dançava ao som de uma
música. Eu a provoquei:
— Você está fazendo duas
coisas que eu não sei: dançar e cozinhar.
Ela sorriu e,
demonstrando orgulho e felicidade, completou:
— Eu também sei costurar.
A simplicidade e alegria
das pessoas eram evidentes. A maioria, conversava entre si, com poucos
celulares nas mãos, competindo com sons das músicas dos bares da praia.
Impressionou-me saber da
história dos navios torpedeados na costa sergipana durante a Segunda Guerra
Mundial. Cerca de 600 pessoas naufragadas morreram, e a tragédia deu nome à
Praia dos Náufragos.
Caju, caranguejo, guaiamum,
aratu e a caipirinha de Seriguela ficarão marcadas em minha memória
gastronômica. Entretanto, o sorriso, a simpatia e a acolhida do povo aracajuano
ganharam o meu coração.
Retornei convicto de que
o cidadão da terra do caju vive feliz e tem um carinho especial por sua cidade.
Eles gostam de zueira, mas não de treta, eles gostam de trocar ideias, mas não
de empatar.
Março de 2025
Marcos A F Franco
Publicado no Jornal do Dia, Aracaju, em 25/3/2025
domingo, 23 de março de 2025
Sinfonia do Caos
De passagem pelo Rio, a Cidade Maravilhosa, fui convidado para assistir à apresentação de uma orquestra de violinos. Mal desembarquei do avião, a gentil anfitriã me recebeu e, seguimos para o nosso destino.
Era um dia
ensolarado próprio para admirar as famosas belezas naturais do Rio, realçadas
pelo movimento suave do mar. Lentamente as paisagens foram se alterando para
viadutos e morros ocupados por centenas de pequenas moradias. Junto com o
intenso tráfego de veículos, igual a outros de grandes cidades.
Estávamos
longe do centro, em ruas estreitas, repletas de pilhas de lixo, construções
precárias, veículos mal estacionados, que dificultavam o trânsito. De repente,
Yvonne, a nossa guia, parou o carro e pediu que descêssemos. Estranhei, não vi
nenhum galpão, teatro ou sequer uma bilheteria.
Pensei: “Esse
mundo é completamente diferente do meu”. Parecia uma zona de guerra. Havia
pessoas conversando e, ao mesmo tempo, nos observando, como se estivessem nos vigiando.
Motos passavam buzinando de um lado para o outro da rua.
Após
estacionar o veículo, Yvonne nos disse:
— Bem-vindos
ao Projeto UERÊ. Aqui é a Favela da Maré, onde crianças tentam sobreviver em um
cenário como o da Faixa de Gaza.
A Tia Didi,
uma das 20 funcionárias, nos esperava com um feijão preto especial, servido em
um ambiente simples e limpo.
O projeto,
que existe há 26 anos, é uma escola de ensino fundamental, com método próprio,
desenvolvido pela extraordinária e premiada internacionalmente Yvonne:
Pedagogia UERÊ-MELLO. O projeto mantém 12 salas de aulas com ar-condicionado e
professores capacitados para atender 270 crianças. As salas seguem o estilo
arquitetônico da favela, separadas uma das outras, pintadas e com mensagens
motivadoras.
Após o almoço,
em busca da cereja do bolo, entramos no modesto estúdio musical, onde 15
crianças de várias idades, acompanhadas por um maestro e 3 professores, nos
esperavam para executar algumas músicas, dentre elas a clássica “Cidade
Maravilhosa”. Naquele instante, vendo os rostos alegres dos futuros músicos
e ouvindo o som harmonioso dos instrumentos, me senti dentro da Sala São Paulo.
Foi emocionante.
quinta-feira, 30 de janeiro de 2025
Um Navio no Espaço
De repente, não sabia se tinha embarcado
em um super transatlântico, estava em um hotel gigante ou talvez em um navio no
espaço. Hoje, existem tantas coisas diferentes que é fácil se confundir.
Olhei melhor e descobri que era um hotel
com um navio ancorado em cima de três grandes torres, no sexagésimo andar. Ele
foi construído as margens do Oceano Índico e é mais visível do que um farol que
orienta navios. É a grande referência de um dos principais e mais movimentados
portos da Ásia. À distância, sua silhueta se confunde com a de uma embarcação.
Singapura é uma cidade-estado sem
contrastes. Tudo nela é imponente e o hotel Marina Bay não poderia ser
diferente. Ao chegar ao hall de entrada desse resort vertical, deparei-me com
muitas pessoas entrando e saindo dos seus quase 2600 quartos.
Além dos muitos táxis que circulavam em
suas portarias, pude observar o desfile de parte dos 4 mil veículos modernos e
luxuosos estacionados em sua enorme garagem.
Após o check-in no suntuoso hall do
hotel, os meus olhos tiveram dificuldade para enxergar o teto, a impressionantes
190 metros de altura. Caminhei até o elevador, que me levou ao deslumbrante
convés da “embarcação voadora”. Era um navio em pleno espaço, com uma vista de
360º de toda a cidade. Era um barco repleto de água, com uma piscina de borda
infinita de 150 metros de comprimento. Tirei a roupa e mergulhei na piscina
para nadar em pleno espaço. É uma sensação única: nadar enquanto me sentia
flutuando no ar.
Ao
chegar ao quarto, deparei-me com uma varanda voltada para os indescritíveis
jardins da baia — uma pequena floresta à beira do mar. Esses jardins foram criados
como parte de uma estratégia para incentivar o desenvolvimento de áreas verdes
na cidade e transformar a “cidade jardim” em uma cidade dentro de um jardim. Conforme
a noite foi chegando, pude apreciar o show de luzes nos jardins, que reluziam em
diversas cores, criando um cenário mágico e inesquecível.
Pela manhã, suportando o forte calor
úmido, caminhei pelos jardins da baia até chegar nas incríveis estufas de vidro
e climatizadas. Elas abrigam centenas de espécies de flores e vegetação de todo
o mundo. Foi um passeio tranquilo pelo mundo da flora.
Ao retornar para a nossa nau, decidi
explorar seu imenso porão, onde por algumas horas meus olhos admiraram luxuosas
lojas de um shopping deslumbrante. Minhas pernas caminharam sem parar sobre um
piso de granito desenhado, sob um teto suntuoso repleto de incontáveis obras de
arte.
Fiz algumas pausas na magnífica praça de
alimentação que oferecia sabores de todo o mundo. O meu olfato registrou
prazerosamente essas sensações, que ficaram guardadas em minha memória afetiva.
O confortável navio, cuidado por 6 mil
tripulantes, oferece para seus passageiros diversas atividades, como teatro, um
imenso cassino, 7 restaurantes internacionais, centro de convenções, uma
estação de metrô, além de academia e spa.
À noite, quando a temperatura diminuiu,
fui conhecer os dois pavilhões flutuantes, localizados dentro do imenso lago ao
lado do hotel. Um dos pavilhões é ocupado pela cobiçada Luis Vuitton, enquanto
o outro pela desejada Apple. Acessa-se essas lojas por um túnel que sai de
dentro do hotel ou por pontes externas. São duas imensas bolas transparentes,
através das quais é possível observar o grande número de clientes realizando
seus desejos e registrando seus cartões de crédito.
Contornei o imenso lago, passando pelo Art
Science Museum, até chegar na estátua do Merlion, um conhecido ícone de
marketing de Singapura. Ela representa uma criatura mítica com uma cabeça de
leão e o corpo de um peixe. O Merlion é amplamente utilizado como uma mascote e
personificação nacional do país, sendo um ponto turístico obrigatório.
Por fim, tive que pagar a conta, um
valor compatível com o que o navio oferece, apesar de não ter zarpado. No
entanto, é um valor que levou alguns meses para ser digerido.
Setembro 2024
Marcos A F Franco
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