Vivi momentos alegres.
Conheci a terra do caju, a capital de Sergipe, o menor estado da federação
brasileira em extensão territorial, mas imenso pela recepção e acolhida do povo
amigo dos caranguejos. O nome Aracaju não nega as origens indígenas e carrega a
coragem de Cristóvão de Barros, grande líder em diversas batalhas contra a
anexação de Sergipe à Capitânia da Bahia de Todos os Santos, no século XVI.
Dentro de um Uber, a
caminho do centenário Mercado
Municipal, que leva o nome de três personagens ilustres, sendo dois deles
idênticos ao meu sobrenome, o motorista me surpreendeu. Além de sua habilidade ao
volante, era um guia turístico por vocação.
Protegido pelo
ar-condicionado do calor do vigoroso sol nordestino, em um confortável
veículo, o meu guia, orgulhoso de sua cidade, descrevia e apontava o cuidado
com a preservação dos manguezais ao longo do rio Sergipe, que deságua no
oceano.
Saindo da praia de
Atalaia, onde se encontra a instagramável e imponente escultura de um
caranguejo, percorri ruas planas de uma cidade ampla e bem cuidada. No trajeto,
vi prédios luxuosos até avistar grandes esculturas à beira do rio Sergipe, em
frente ao Museu da Gente Sergipana. As esculturas, com sete metros de altura,
representam figuras da terra. O museu interativo abriga objetos antigos e
atuais, palavras e expressões regionais, além de filmes sobre o povo sergipano.
Enquanto o semáforo não
abria, o guia desinibido, respondia algumas perguntas. Sobre a segurança foi
bem direto:
— Aqui o cabra só assalta
uma vez, na reincidência, leva bala.
Quase chegando ao destino,
o motorista nos recomendou retornar para os festejos de São João. A festa dura
um mês.
No dia seguinte,
convidado para uma reunião social em uma chácara, quase dentro da cidade, pude
saborear um tambaqui na brasa, pescado na hora no lago da propriedade. Cercado
por patos, galinha d´Angola, pavões e cachorro, abrigados por um grande pomar, notei
um coelho preto, morador da chácara, que me observava com as orelhas em riste, expressão
interrogativa, tentando entender a nossa “invasão” ao seu paraíso. Contemplei
um pôr-do-sol invejável, disputado por inúmeras árvores e refletido nas águas do
lago, testemunha da receptividade ímpar do casal que abriu seus portões para
convidados forasteiros.
Comprovando as diferenças
culturais, ao solicitar uma omelete à atendente do café do hotel, ela, percebendo
minha origem paulista, perguntou:
— O senhor está com
pressa? O serviço está lento. A mesma lerdeza de sempre.
Saboreei todo o típico café
com mais calma.
Andando pela avenida da
praia em busca de um açaí cremoso, deparei-me com uma vendedora ambulante
preparando uma carne desfiada em uma chapa enquanto dançava ao som de uma
música. Eu a provoquei:
— Você está fazendo duas
coisas que eu não sei: dançar e cozinhar.
Ela sorriu e,
demonstrando orgulho e felicidade, completou:
— Eu também sei costurar.
A simplicidade e alegria
das pessoas eram evidentes. A maioria, conversava entre si, com poucos
celulares nas mãos, competindo com sons das músicas dos bares da praia.
Impressionou-me saber da
história dos navios torpedeados na costa sergipana durante a Segunda Guerra
Mundial. Cerca de 600 pessoas naufragadas morreram, e a tragédia deu nome à
Praia dos Náufragos.
Caju, caranguejo, guaiamum,
aratu e a caipirinha de Seriguela ficarão marcadas em minha memória
gastronômica. Entretanto, o sorriso, a simpatia e a acolhida do povo aracajuano
ganharam o meu coração.
Retornei convicto de que
o cidadão da terra do caju vive feliz e tem um carinho especial por sua cidade.
Eles gostam de zueira, mas não de treta, eles gostam de trocar ideias, mas não
de empatar.
Março de 2025
Marcos A F Franco
Publicado no Jornal do Dia, Aracaju, em 25/3/2025

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