domingo, 23 de março de 2025

Sinfonia do Caos


            De passagem pelo Rio, a Cidade Maravilhosa, fui convidado para assistir à apresentação de uma orquestra de violinos. Mal desembarquei do avião, a gentil anfitriã me recebeu e, seguimos para o nosso destino.

Era um dia ensolarado próprio para admirar as famosas belezas naturais do Rio, realçadas pelo movimento suave do mar. Lentamente as paisagens foram se alterando para viadutos e morros ocupados por centenas de pequenas moradias. Junto com o intenso tráfego de veículos, igual a outros de grandes cidades.

Estávamos longe do centro, em ruas estreitas, repletas de pilhas de lixo, construções precárias, veículos mal estacionados, que dificultavam o trânsito. De repente, Yvonne, a nossa guia, parou o carro e pediu que descêssemos. Estranhei, não vi nenhum galpão, teatro ou sequer uma bilheteria.

Pensei: “Esse mundo é completamente diferente do meu”. Parecia uma zona de guerra. Havia pessoas conversando e, ao mesmo tempo, nos observando, como se estivessem nos vigiando. Motos passavam buzinando de um lado para o outro da rua.

Após estacionar o veículo, Yvonne nos disse:

— Bem-vindos ao Projeto UERÊ. Aqui é a Favela da Maré, onde crianças tentam sobreviver em um cenário como o da Faixa de Gaza.

A Tia Didi, uma das 20 funcionárias, nos esperava com um feijão preto especial, servido em um ambiente simples e limpo.

O projeto, que existe há 26 anos, é uma escola de ensino fundamental, com método próprio, desenvolvido pela extraordinária e premiada internacionalmente Yvonne: Pedagogia UERÊ-MELLO. O projeto mantém 12 salas de aulas com ar-condicionado e professores capacitados para atender 270 crianças. As salas seguem o estilo arquitetônico da favela, separadas uma das outras, pintadas e com mensagens motivadoras.

Após o almoço, em busca da cereja do bolo, entramos no modesto estúdio musical, onde 15 crianças de várias idades, acompanhadas por um maestro e 3 professores, nos esperavam para executar algumas músicas, dentre elas a clássica “Cidade Maravilhosa”. Naquele instante, vendo os rostos alegres dos futuros músicos e ouvindo o som harmonioso dos instrumentos, me senti dentro da Sala São Paulo. Foi emocionante.

Foram 3 horas vividas no olho do furacão, que me mostraram que o impossível pode se tornar possível. Conheci um anjo chamado Yvonne Bezerra de Mello, uma empreendedora social. Desapontada com a Chacina da Candelária, onde crianças de seu antigo projeto foram assassinadas, ela se recusou a cruzar os braços. Desde então conseguiu salvar 6.600 crianças, dando-lhes a oportunidade de estudar e se tornar cidadãos.

Marcos A F Franco

Fevereiro 2025

Publicado no Jornal A Tribuna de Santos em 23/3/2025

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