Passados cem anos, ainda resta uma
testemunha viva que exala maresia. Ela não fala nem se move, mas enxerga,
registra, ouve e sente. Todas as manhãs é a primeira a receber o raio de sol,
ouvindo o canto dos pássaros e anunciando que será mais um dia de voleios, pontos
vencedores, lobs e muita diversão.
À noite, exausta e ainda cercada por
tenistas incansáveis, reflete a luz em suas linhas para parecer mais imponente
e permitir que saques, devoluções e smashes continuem sendo distribuídos sem
economia.
Como uma rainha, ela exige zelo: embora
não tenha cabelos, gosta de ser “penteada”, de ter as linhas bem limpas e tomar
banho com frequência. A umidade é a sua energia.
Já viu passar ao menos quatro gerações
de associados apaixonados, que antes usavam uniforme branco de linho — saias
longas, calças compridas e tênis simples. Hoje, tudo isso deu lugar a bermudas,
saias curtas e calçados especiais, coloridos e de alta tecnologia.
Observou, com discrição, crianças com
raquetes de madeira e cordas de tripa evoluírem para compostos de grafite,
fibra de carbono e kevlar. A bolinha branca de lã tornou-se amarela e recebeu
materiais sintéticos, encantando ainda mais nos seus pulos.
A famosa quadra número 1 do Tênis Clube
de Santos abrigou grandes campeonatos internacionais, inclusive jogos da Copa
Davis. Sentiu o deslizar dos tênis de campeões mundiais e a vibração de
torcidas enlouquecidas, como as fortes ondas do mar.
Suportou tempestades, a movimentação
desajeitada de milhares de alunos, a batida das bolinhas em sua rede (agradando
ou não os competidores), o peso das raquetes dos insatisfeitos, a raspagem do
piso — sua pele — para a reposição do majestoso saibro e até quedas dolorosas
de jogadores. Em troca, entrega um pouco do seu pó às meias de cada um que a
utiliza.
Sobreviveu a uma guerra mundial e a uma
grande pandemia. Foi “oásis” e esperança para milhares de famílias, dependentes
do cheiro de uma bolinha nova.
Registrou o crescimento do clube, que
sempre priorizou a família. Com a chegada de novos esportes e atividades,
acolheu todos os que ousaram desafiá-la.
Viu hábitos mudarem: das torcidas
silenciosas e educadas às vozes exaltadas, batuques e celulares soando; do chá
das cinco aos isotônicos gelados; das famosas domingueiras às baladas noturnas.
Sustentou dezenas de festas juninas, torneios internos e celebrações de datas
especiais: Dia das Crianças, das Mães, dos Pais e o Natal.
“As pessoas não me escutam, mas me
entendem. Se eu pudesse falar, agradeceria a todos que cuidaram — e ainda
cuidam — de mim, a todos que me respeitam e, em especial, àquelas pessoas
visionárias que me conceberam em 2 de junho de 1926.”
Cem anos não cabem em uma raqueteira —
mas ecoam em cada centímetro de saibro tocado por um ponto vencedor. Rumo ao
segundo centenário.
Abril 2026, Marcos A F Franco
Publicado nos jornais A Tribuna e Jornal da Orla, de Santos em 2/6/2026.

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