Em junho, a Academia Santista de Letras —
Casa de Martins Fontes — celebra 70 anos de existência espargindo luzes da
literatura na região. Pouco mais de cem confreiras e confrades, representando
quarenta patronos ilustres, revezaram-se nesse período produzindo textos,
livros e trabalhos para manter vivos seus ideais — imortais.
Tive a felicidade de ser eleito para a
cadeira de Frei Gaspar da Madre de Deus, o que me fez mergulhar nesse universo
infinito e constatar a importância da literatura para a humanidade. Sou um grão
de areia ativo tentando dar visibilidade à sociedade de trabalhos do quilate de
pessoas especiais como Martins Fontes, Vicente de Carvalho, José Bonifácio,
Afonso Schmidt, Benedito Calixto.
Lentamente, estou ficando amigo de Frei
Gaspar. Infelizmente não o conheci, mas seu trabalho mostra a tenacidade de um
historiador dedicado à fé cristã.
O beneditino Gaspar nasceu em Santos há
cerca de 300 anos e viveu grande parte da vida em mosteiros, dedicando-se à
escrita e à pesquisa histórica. Sua obra mais conhecida, publicada após sua
morte, trata da História da Capitania de São Vicente, onde empresta seu nome à
Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios.
Seu maior legado foi ter deixado um dos
primeiros estudos sistemáticos sobre as origens de São Vicente e do litoral
paulista, ajudando a preservar e compreender as raízes históricas da região.
É de Frei Gaspar o pequeno trecho sobre
a fundação de Santos: “Animado, Braz Cubas, com a vizinhança dos novos
habitadores, tratou de fundar huma Villa no porto de Enguaguaçú, onde já tinha
as suas casas e fazendas; e por ser este o lugar mais seguro para os navios e
mais vizinho às terras de que se haviam de prover os moradores, não lhe foi
difícil persuadi-los a que mudassem para ali o assento da Villa, que novamente
se fundava."
O que mais me chama atenção é o jeito
contido com que ele esclarece fatos: quase sem adjetivos, raramente opinando,
sempre apoiado em registros e documentos. Talvez por isso me identifique com
ele. No meio de tantas versões repetidas há séculos, Frei Gaspar parece aquele
amigo que não aumenta história — apenas a retrata.
Seu trabalho foi pioneiro porque buscou fundamentar
a narrativa histórica em documentos e registros, algo pouco comum em seu tempo.
Frei Gaspar procurou corrigir e
esclarecer fatos importantes da história, justificando utilidades para a
comunidade e sempre com um ar de testemunho e erudição genealógica. Sua
importância reside em ter sido o fundador da historiografia paulista,
transformando papéis de cartório em crônicas que resgataram a nobreza e a
verdade histórica dos primeiros povoadores da Capitania de São Vicente.
Parabéns, Academia Santista de Letras!
Abril 2026, Marcos A F Franco
Publicado no jornal A Tribuna de Santos em 19/5/2026.

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