segunda-feira, 27 de julho de 2026

Frei Gaspar e a Memória do Litoral Paulista nos 70 anos da ASL

Em junho, a Academia Santista de Letras — Casa de Martins Fontes — celebra 70 anos de existência espargindo luzes da literatura na região. Pouco mais de cem confreiras e confrades, representando quarenta patronos ilustres, revezaram-se nesse período produzindo textos, livros e trabalhos para manter vivos seus ideais — imortais.

Tive a felicidade de ser eleito para a cadeira de Frei Gaspar da Madre de Deus, o que me fez mergulhar nesse universo infinito e constatar a importância da literatura para a humanidade. Sou um grão de areia ativo tentando dar visibilidade à sociedade de trabalhos do quilate de pessoas especiais como Martins Fontes, Vicente de Carvalho, José Bonifácio, Afonso Schmidt, Benedito Calixto.

Lentamente, estou ficando amigo de Frei Gaspar. Infelizmente não o conheci, mas seu trabalho mostra a tenacidade de um historiador dedicado à fé cristã.

O beneditino Gaspar nasceu em Santos há cerca de 300 anos e viveu grande parte da vida em mosteiros, dedicando-se à escrita e à pesquisa histórica. Sua obra mais conhecida, publicada após sua morte, trata da História da Capitania de São Vicente, onde empresta seu nome à Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios.

Seu maior legado foi ter deixado um dos primeiros estudos sistemáticos sobre as origens de São Vicente e do litoral paulista, ajudando a preservar e compreender as raízes históricas da região.

É de Frei Gaspar o pequeno trecho sobre a fundação de Santos: “Animado, Braz Cubas, com a vizinhança dos novos habitadores, tratou de fundar huma Villa no porto de Enguaguaçú, onde já tinha as suas casas e fazendas; e por ser este o lugar mais seguro para os navios e mais vizinho às terras de que se haviam de prover os moradores, não lhe foi difícil persuadi-los a que mudassem para ali o assento da Villa, que novamente se fundava."

O que mais me chama atenção é o jeito contido com que ele esclarece fatos: quase sem adjetivos, raramente opinando, sempre apoiado em registros e documentos. Talvez por isso me identifique com ele. No meio de tantas versões repetidas há séculos, Frei Gaspar parece aquele amigo que não aumenta história — apenas a retrata.

Seu trabalho foi pioneiro porque buscou fundamentar a narrativa histórica em documentos e registros, algo pouco comum em seu tempo.

Frei Gaspar procurou corrigir e esclarecer fatos importantes da história, justificando utilidades para a comunidade e sempre com um ar de testemunho e erudição genealógica. Sua importância reside em ter sido o fundador da historiografia paulista, transformando papéis de cartório em crônicas que resgataram a nobreza e a verdade histórica dos primeiros povoadores da Capitania de São Vicente.

Parabéns, Academia Santista de Letras!

Abril 2026, Marcos A F Franco

Publicado no jornal A Tribuna de Santos em 19/5/2026.

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