domingo, 3 de setembro de 2023

Vendas, ou corrida de obstáculos?

Ontem, quando fui ao supermercado próximo de casa, enquanto aguardava a minha vez para passar no caixa, observei uma cena aparentemente normal, chegando a ser engraçada. Percebi a dificuldade de um idoso pagar as suas compras no caixa. Um senhor, aparentando seus 80 anos, alto, forte, portando bengala, utilizando aparelho auditivo, vestindo meias elásticas nas pernas, próprias de quem tem varizes. Ele segurava com dificuldades alguns itens, enquanto aguardava a liberação do caixa mais próximo dele. Não se preocupou em entrar na fila, com certeza pela sua dificuldade em se locomover. Afinal, ele merece essa regalia.

Logo que ele deixou suas compras no balcão do caixa, rapidamente retirou do bolso o seu cartão de crédito, inserindo-o na maquininha, apesar de estar trêmulo. Tinha dificuldade em ouvir o caixa, mas era nítida a sua pressa em pagar. Quando o caixa lhe perguntou pela 2ª vez se ele gostaria de autorizar um desconto especial, provavelmente, por um programa de fidelidade, assim que ele entendeu respondeu que sim, então o caixa pediu para que clicasse o botão verde da maquininha, em seguida digitasse a sua data de nascimento. Foi quando ele respondeu: o que? Imediatamente ele disse que não, alterando a sua feição. O caixa então, enfim, lhe pediu para digitar a senha, que ele tanto esperava. Ufa, ele conseguiu realizar o pagamento e foi embora.

Meses antes, nesse mesmo pequeno mercado, que de super não tem nada, uma promoção me chamou a atenção. Peguei a quantidade que queria e me dirigi ao caixa. Quando fui pagar, apareceu o valor sem o desconto da promoção. O caixa então me explicou que para eu fazer jus a ela, deveria entrar no APP do mercado, via celular e autorizar o desconto. Realmente estava escrito no cartaz, porém somente quem tem uma visão de binóculo poderia ler. Fiquei sem entender se era uma compra presencial, digital ou por delivery. Não levei os produtos e fui embora.

Esse mercado pertence a uma rede nacional. Por possuir milhares de empregados, milhões de itens, centenas de lojas e centros de distribuição, necessita que seus controles sejam totalmente informatizados, uma grande engenharia. Entretanto, é preciso investir também no bom atendimento, incluindo o respeito aos clientes, como já é praticado em outros raros estabelecimentos comerciais. Somente dizer bom dia, boa tarde, obrigado, desculpe-me, não basta. Bom atendimento inclui respeitar os clientes, elaborando bons cartazes, facilitando a mobilidade das pessoas, olhando nos olhos dos clientes, entendendo as suas dificuldades para fazer todo o processo de compra. Com certeza, perde-se muitas vendas por esse descaso.

Vivemos um mundo de transições velozes. Quanto mais jovem a pessoa, mais fácil e rápido para se adaptar às plataformas digitais. Os mais velhos também se adaptam, mas está havendo um exagero nas ofertas. Parece uma corrida de obstáculos de uma grande gincana. Com os infindáveis programas de fidelidades apareceram os cashbacks, acúmulo de pontos, cadastros especiais, mais senhas, cartões especiais e por aí vai. Os mais velhos não têm esse fôlego, imposto pelos mais novos, autores desses processos. Já os mais velhos, em geral, são os que tem mais poder de compra. Todos perdem, principalmente quem vende.

Janeiro 2022, Marcos A F Franco

 

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