domingo, 3 de setembro de 2023

A sucata virou clube


            Esta é uma história de um sonho compartilhado. Sonho que pode transformar a realidade de muitas pessoas e, ao mesmo tempo, gerar motivação no trabalho em equipe.

Durante as refeições, os trabalhadores de uma fábrica de ligas de alumínio, localizada em Araçariguama, São Paulo, sempre falavam sobre futebol. Tinham um sonho de transformar um terreno, dessa fábrica, em um campo de futebol. A maioria residia em São Roque, a vinte quilômetros de distância. Seria a oportunidade de praticarem esse esporte. Não demorou muito para a diretoria da empresa autorizar a cessão do terreno, para construção do campo. Um sonho coletivo tem muitos enredos diferentes. Alguns sonhavam profundamente, enxergando um lindo campo, com um gramado bem verde, bem cuidado e, até com vestiários. Outros sonhavam pouco, eram os afoitos. Não se importavam que o campo fosse somente de terra.

Terreno cedido, a próxima etapa seria buscar recursos para a concretização do sonho. Somente a contribuição mensal de cada interessado não atingiria o objetivo. Foi necessária a constituição formal de um clube para regulamentar a contribuição. Dentre as muitas iniciativas para atingir o objetivo, a realização de consórcios se destacou.  Por um longo tempo os consórcios de vídeos cassetes, geladeiras, televisão, milheiro de tijolo e até microcomputador, na época o PC286, fizeram sucesso, contribuindo muito para o grande sonho. De repente, o clube passou a ser interessante para quase todos da fábrica. A direção percebeu que o campo de futebol, sem existir, já estava motivando os colaboradores, muito além do objetivo inicial.

Outras iniciativas, com o apoio da direção, foram acontecendo. O clube comprava insumos de primeira necessidade, como leite em pó, arroz, feijão, todos diretos do fabricante. Eram revendidos para os associados, a preço de custo, acrescido de uma pequena margem para o clube. A empresa cedeu um espaço para jogos de salão, como o xadrez, dama, pebolim, ping pong, que eram jogados nos intervalos de descanso. Surgiu também uma locadora de vídeos cassetes. O envolvimento dos funcionários crescia muito.

O time de futebol, já tinha seu uniforme e, começou a participar de campeonatos na cidade. Com o apoio dos associados do clube, o grupo começou a sonhar mais alto. Existia um terreno, próximo a cidade de São Roque, na estrada que dava acesso à fábrica. Ele estava todo cercado, media vinte mil metros quadrados, totalmente plano, praticamente pronto para receber um belo campo de futebol. Ao avaliar a possibilidade de aquisição, desse terreno, alguém mencionou que o proprietário, o Sr. Jamil, próspero comerciante da cidade, dificilmente o venderia, e se o vendesse, pediria um valor muito alto por ele, bem acima do mercado. O nome do proprietário revelava a sua origem de bom negociador. Então a diretoria da empresa, resolveu dar mais uma ajuda para o clube, fazendo uma doação, mensal do valor da venda de toda a sucata de ferro que era gerada. Essa sucata era gerada quando da separação do alumínio, que era utilizado na fabricação das ligas de alumínio. O valor mensal dessa venda era pequeno. Porém, significativo para o projeto do clube. A administração dessa venda passou a ser feita pelo clube. Em pouco tempo, esse valor cresceu quase vinte vezes.

Com a poupança fortalecida, uma reunião foi realizada com o Sr. Jamil, o super dono do terreno. Após a exposição do projeto, ele ficou encantado e muito honrado em saber sobre o futuro clube. As tratativas com ele, ocorreram sempre em sua residência, mas somente quando o negócio foi concluído e, a escritura assinada, que ele ofereceu um cafezinho, não negando a sua origem. Ele ficou tão radiante, que presenteou o futuro clube, com quatro lâmpadas grandes, especiais, para postes.

Após três anos do início do sonho, o campo de futebol poderia ser construído, mas naquele momento, definiu-se que ele, faria parte do futuro clube. A realidade tornava-se maior que o sonho. Contratou-se uma empresa de arquitetura que projetou a ADC Metalur. A obra foi entregue no final de 1985, quatro anos após o sonho do campo de futebol. O clube, além do campo de futebol oficial, com sistema de drenagem e vestiários, contemplou também uma quadra poliesportiva, um minicampo de futebol de areia, uma piscina semiolímpica, parquinho infantil e um bar. Sua inauguração foi muito celebrada e marcante, foi realizada uma superfesta, com a presença dos acionistas da empresa, do prefeito de São Roque e de muitos convidados, além dos funcionários da empresa e, seus familiares. O clube passou a ser uma referência para a cidade e, principalmente, motivo de orgulho para os colaboradores. A partir daí, vários funcionários passaram a representar a empresa em diversas competições e os familiares puderam usufruir de um clube social.

Quanto a empresa, ela também cresceu, durante esse período. Investiu em mais produtos, melhorando a relação com os funcionários ganhado mais confiança, aspecto fundamental para o êxito de qualquer empreendimento. Investir no relacionamento humano, no meio ambiente e bons processos de administração colocam qualquer empresa em evidência no seu mercado de atuação. A motivação das pessoas se produz, à medida que o relacionamento entre todos, atinge um patamar de confiança plena. Nesse estágio, esse grande motor, a motivação coletiva, é capaz de realizar grandes sonhos e conquistas, até aquelas consideradas impossíveis.

Dezembro 2021, Marcos A F Franco

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