Santos
Dumont, quando inventou o avião, lá no século XIX, com certeza, não imaginava,
que no futuro, milhões de pessoas viajariam, todos os dias, cruzando os oceanos
de todo o mundo. Ele não imaginava a necessidade da construção de centenas de
aeroportos, milhares de pilotos que são treinados diariamente, a criação de toda
a extensa cadeia de serviços, e fábricas que envolvem o setor da aviação.
A viagem de
avião, normalmente é muito bem planejada e confortável. A sensação de estar
flutuando no céu, entre as nuvens, é indescritível. Entretanto, quando algo
inesperado acontece, a viagem pode tornar-se uma experiência muito ruim ou, uma
grande aventura. Condições climáticas, como tornados, furacões, nevascas,
chuvas muito fortes, excesso de tráfego aéreo, falta de funcionários da cia de aviação,
atrasos de voos de conexões, defeitos inesperados em aeronaves, costumam
interromper as viagens. As empresas de
aviação se obrigam a solucionar a sequência da viagem, fornecendo água, refeições,
acomodações para descanso, transferências de voos.
Já vivi
algumas situações iguais a essa. O desconforto é terrível. Os funcionários não
sabem o que fazer, no instante da decisão tudo parece um caos. Mas, na maioria
das vezes, com paciência, muita compreensão, tudo se resolve. E quando você
está na China, em voo doméstico, com escala, tendo comido arroz, sem sal, com
palito, na primeira etapa da viagem e, o painel de partidas do aeroporto não
sinaliza mais o seu voo do último trecho? De repente chega um chinês, exaltado,
querendo incitar você, contra a companhia aérea. Você não sabe se ele está brigando, ou
querendo ajuda. Foi assim, que aconteceu comigo, em um voo, com escala, que
iria para Xangai. Devido a um temporal, os aviões não podiam aterrissar no
destino. O meu voo foi atrasado, sem previsão de partida. Soube disso somente
muito tempo depois. Fui para um hotel local, sem entender uma única palavra de
chinês, apenas seguindo o grupo. A Air China não dispunha de intérpretes. Ao
retornar para o aeroporto, antes de embarcar, o chinês exaltado, não queria
deixar ninguém embarcar na aeronave, ameaçando todos fisicamente. Não havia
seguranças, naquele momento. Funcionários e passageiros ficaram atônitos. Olhei
para os olhos do chinês rebelde, falei algumas palavras em português e, fui em
frente. Depois disso, todos embarcaram e, menos ele.
Tive outra
experiência, inusitada, no Brasil. Retornava de um trabalho, em São Luiz, no
Maranhão, junto com o meu chefe. Nosso voo para São Paulo, com escala em
Manaus, estava programado para as 3 horas da madrugada. Um pouco antes do
jantar, soubemos que havia uma greve geral dos aeroviários, sem previsão de
término, sendo que o último voo de São Luiz, sairia as 20 horas para Belém, pela
antiga Transbrasil. Saímos correndo para o aeroporto, na tentativa de quem
sabe, de lá, conseguir outro voo para uma cidade mais próxima de São Paulo. O
meu chefe, mais tranquilo, levava um livro, recém-lançado, chamado Perestroika,
com a foto do então presidente da União Soviética Mikhay Gorbachov. Conseguimos
embarcar, sem a certeza de continuar a viagem. Eram quatro comissários, sem
uniforme, no voo. Eles tinham medo do piquete que estava havendo na pista de
pouso, no aeroporto de Belém. Durante o voo, um deles se interessou pelo livro
do meu chefe, que contava como foi introduzida a Perestroika, durante o governo
de Gorbachov, em 1985, uma reestruturação política da União Soviética que,
juntamente com a Glasnost (transparência), tinha o objetivo de reorganizar
setores da sociedade soviética. Era um tema político internacional novo. Bendito
livro! Prometemos o livro para ele, caso conseguíssemos embarcar no único voo
que tinha, que era para Brasília. Só havia quatro aviões em operação naquela
noite, em todo o Brasil. Descemos na pista de pouso, com as malas na mão e, o
valioso livro, em meio a uma grande confusão de grevistas. Tinham muitas
pessoas querendo o mesmo que nós. Realmente, não havia lugares para toda a
multidão que estava lá. Mas o Gorbachov conseguiu o nosso ticket. Logo
embarcamos para Brasília. O mais incrível, chegando lá, havia um voo para São
Paulo, no mesmo avião que estávamos. Chegamos em nosso destino, próximo das 3
da madruga, hora em que estaríamos saindo de São Luiz, no voo original. Viva a
Perestroika, viva a leitura e viva o comissário culto.
Qualquer dia,
conto essas histórias para o Santos Dumont.
Janeiro 2022, Marcos A F Franco

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