domingo, 3 de setembro de 2023

Um livro que furou a greve de avião

Santos Dumont, quando inventou o avião, lá no século XIX, com certeza, não imaginava, que no futuro, milhões de pessoas viajariam, todos os dias, cruzando os oceanos de todo o mundo. Ele não imaginava a necessidade da construção de centenas de aeroportos, milhares de pilotos que são treinados diariamente, a criação de toda a extensa cadeia de serviços, e fábricas que envolvem o setor da aviação.

A viagem de avião, normalmente é muito bem planejada e confortável. A sensação de estar flutuando no céu, entre as nuvens, é indescritível. Entretanto, quando algo inesperado acontece, a viagem pode tornar-se uma experiência muito ruim ou, uma grande aventura. Condições climáticas, como tornados, furacões, nevascas, chuvas muito fortes, excesso de tráfego aéreo, falta de funcionários da cia de aviação, atrasos de voos de conexões, defeitos inesperados em aeronaves, costumam interromper as viagens.  As empresas de aviação se obrigam a solucionar a sequência da viagem, fornecendo água, refeições, acomodações para descanso, transferências de voos.

Já vivi algumas situações iguais a essa. O desconforto é terrível. Os funcionários não sabem o que fazer, no instante da decisão tudo parece um caos. Mas, na maioria das vezes, com paciência, muita compreensão, tudo se resolve. E quando você está na China, em voo doméstico, com escala, tendo comido arroz, sem sal, com palito, na primeira etapa da viagem e, o painel de partidas do aeroporto não sinaliza mais o seu voo do último trecho? De repente chega um chinês, exaltado, querendo incitar você, contra a companhia aérea.  Você não sabe se ele está brigando, ou querendo ajuda. Foi assim, que aconteceu comigo, em um voo, com escala, que iria para Xangai. Devido a um temporal, os aviões não podiam aterrissar no destino. O meu voo foi atrasado, sem previsão de partida. Soube disso somente muito tempo depois. Fui para um hotel local, sem entender uma única palavra de chinês, apenas seguindo o grupo. A Air China não dispunha de intérpretes. Ao retornar para o aeroporto, antes de embarcar, o chinês exaltado, não queria deixar ninguém embarcar na aeronave, ameaçando todos fisicamente. Não havia seguranças, naquele momento. Funcionários e passageiros ficaram atônitos. Olhei para os olhos do chinês rebelde, falei algumas palavras em português e, fui em frente. Depois disso, todos embarcaram e, menos ele.

Tive outra experiência, inusitada, no Brasil. Retornava de um trabalho, em São Luiz, no Maranhão, junto com o meu chefe. Nosso voo para São Paulo, com escala em Manaus, estava programado para as 3 horas da madrugada. Um pouco antes do jantar, soubemos que havia uma greve geral dos aeroviários, sem previsão de término, sendo que o último voo de São Luiz, sairia as 20 horas para Belém, pela antiga Transbrasil. Saímos correndo para o aeroporto, na tentativa de quem sabe, de lá, conseguir outro voo para uma cidade mais próxima de São Paulo. O meu chefe, mais tranquilo, levava um livro, recém-lançado, chamado Perestroika, com a foto do então presidente da União Soviética Mikhay Gorbachov. Conseguimos embarcar, sem a certeza de continuar a viagem. Eram quatro comissários, sem uniforme, no voo. Eles tinham medo do piquete que estava havendo na pista de pouso, no aeroporto de Belém. Durante o voo, um deles se interessou pelo livro do meu chefe, que contava como foi introduzida a Perestroika, durante o governo de Gorbachov, em 1985, uma reestruturação política da União Soviética que, juntamente com a Glasnost (transparência), tinha o objetivo de reorganizar setores da sociedade soviética. Era um tema político internacional novo. Bendito livro! Prometemos o livro para ele, caso conseguíssemos embarcar no único voo que tinha, que era para Brasília. Só havia quatro aviões em operação naquela noite, em todo o Brasil. Descemos na pista de pouso, com as malas na mão e, o valioso livro, em meio a uma grande confusão de grevistas. Tinham muitas pessoas querendo o mesmo que nós. Realmente, não havia lugares para toda a multidão que estava lá. Mas o Gorbachov conseguiu o nosso ticket. Logo embarcamos para Brasília. O mais incrível, chegando lá, havia um voo para São Paulo, no mesmo avião que estávamos. Chegamos em nosso destino, próximo das 3 da madruga, hora em que estaríamos saindo de São Luiz, no voo original. Viva a Perestroika, viva a leitura e viva o comissário culto.

Qualquer dia, conto essas histórias para o Santos Dumont.

Janeiro 2022, Marcos A F Franco

 

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