Quem já
trabalhou em uma fábrica sabe, muito bem, como é milimétrica a hora da
refeição. É um espaço de tempo sagrado, em que tanto o cérebro quanto o estômago
ficam atentos e ansiosos para chegada dessa hora, sem percalços.
Ao longo dos
anos a experiência faz esse intervalo dilatar-se, ainda que não se interfira no
relógio. Cada segundo é muito precioso, seja para fazer a refeição, estudar,
resolver pendências, ler ou relaxar. Hoje com os smartphones, certamente, o
aproveitamento do tempo em atividades digitais é imenso.
Sou da época em
que não existiam computadores pessoais, muito menos celulares. O tempo de
descanso era aproveitado para uma interação com os colegas. Muita conversa,
piadas, fofocas, sempre acompanhadas de um jogo de salão como o de dominós,
truco ou xadrez.
Em geral, as
fábricas são distantes do centro das cidades, obrigando todos a cumprir esse
horário, lá mesmo. Muitas fábricas disponibilizam um restaurante para seus
colaboradores. Em cada fábrica que trabalhei, as características dos locais
eram diferentes, mas em todas elas, se formavam grupos de afinidades, entre os
colegas, para uma boa convivência. Sempre uma oportunidade para trocar
experiências pessoais e profissionais.
Trabalhei na
Saab Scania, em São Bernardo do Campo, no departamento de Organizações e
Métodos, por dois anos, após me graduar em Administração de Empresas, no início
dos anos oitenta. Pude conhecer pessoas extraordinárias e profissionais de
muito valor, que me ensinaram muito. Um grupo com experiência heterogênea, com
pessoas de várias idades. Dentre eles, um se destacava por sua personalidade,
muito espontânea, alegre, brincalhão, muito astuto, de estatura baixa e com um
bigode maior que ele. O Nerci, nome de origem hebraica, sempre tinha um
comentário sarcástico sobre os novos fatos. Costumava dizer que seus amigos o
consideravam um verdadeiro palhaço.
A hora da
refeição, também conhecida como gororoba, era rigorosamente cronometrada por
todos, inclusive o tempo de deslocamento para o restaurante. O cardápio,
previamente divulgado, ajudava a todos, a se servirem mais rápido, no conhecido
bandejão. Nome carinhoso dado aos restaurantes de fábrica, onde você se serve,
em fila indiana, colocando em sua bandeja a salada, o prato principal,
acompanhamentos, sobremesa e bebida, sem álcool. Dizia-se que em dia de feijoada, após o
almoço, trabalhava-se dobrado, deitado em cima da mesa.
Além de tudo
que se fazia, nesse intervalo, também tinha a hora da higiene pessoal, no
banheiro coletivo. Certo dia, depois do almoço, após um jogo de dominó, todos
foram ao banheiro. Éramos em seis. Depois da higiene, todos retornaram às suas
mesas, para o trabalho da tarde, exceto o Ernani, um jovem muito falante, que
gostava de contar suas vantagens, muito voluntarioso e, com solução para tudo.
Logo percebeu-se que a fechadura da porta do banheiro travou. Ele, muito esperto,
como em um filme policial, pediu um clipe de escritório, para destravar o miolo
da fechadura. Não conseguindo, insistiu, pedindo, desta vez, um clipe bem grande.
Nerci, percebendo
a ansiedade do Ernani, aproveitou a oportunidade para ajudá-lo, correu até a
sua mesa, pegou uma folha de papel sulfite, do tamanho ofício e, não teve
dúvidas, desenhou um clipe, bem grande, passando-a por debaixo da porta do
banheiro, atendendo ao pedido feito pelo colega. Imagine o tamanho da fúria do
Ernani. Claro, pouco tempo depois, a porta foi aberta por um profissional da
manutenção. Mas o sabor da brincadeira e a gozação entre os colegas viralizou pela
rádio peão.
A hora da
refeição é um momento único, importante para nossa saúde corporal e mental. A
experiência de cada colega, compartilhada, nesses instantes, enriquecem nossas
vidas. A perspicácia do Nerci e, a persistência do Ernani em solucionar um
problema, nos trazem mais sabedoria do cotidiano, para enfrentarmos novos
desafios.
Janeiro 2022, Marcos A F Franco

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