O camping
possuía uma boa infraestrutura, com restaurante, vestiários, salão de jogos,
campo de futebol, quadras de tênis e um paredão de tênis, local onde se pratica
o tênis solitário, batendo a bola contra ele. Equipamentos diferentes daqueles esportes
que eu praticava. Durante a semana, em geral, o camping ficava vazio, não tendo
mais ninguém para poder compartilhar um esporte. Às sextas feiras, quando eu ia
dormir, não havia mais ninguém, mas quando eu acordava, no dia seguinte, os
proprietários dos trailers e seus familiares, já tomavam conta do camping.
Quando
comentei com um colega da fábrica sobre a minha nova rotina, ele, que jogava
tênis, sugeriu que eu experimentasse. Rapidamente ele me ofereceu uma raquete de
tênis Donnay, a mais utilizada na época, de madeira, porém, empenada, e três
bolas Mercure usadas. Acredite, mas eu paguei por elas. Mal comparando, tempos
depois, ao pensar sobre esse episódio, tive a certeza de que Deus escreve certo
por linhas tortas. Também tive a certeza de que o meu colega não acreditou que
eu pudesse aprender a jogar tênis. A raquete torta me aproximou do paredão de
tênis, que se tornou companheiro e o meu professor tênis.
O paredão, um
ser inanimado, um muro de tijolo e concreto, alto, com dez metros de largura, pintado
de tinta verde e isolado em um canto. Ele não falava, não sorria, não
incentivava, não reclamava, nem orientava, mas estava sempre à disposição e,
devolvia todas as bolas, desde que eu executasse os movimentos de forma correta.
Com o passar do tempo, o paredão, solitariamente e, impassível, parecia falar
comigo. Às vezes eu o escutava dizer: bata mais perto, agora mais longe, golpeie
de direita, agora de esquerda, levante a bola. Eu tratava de obedecê-lo. Quanto
a raquete, eu me esforçava para entendê-la. Apesar de empenada, suas cordas se mantinham
firmes, suportando os golpes imperfeitos do meu braço direito. Aprendi também, que
existiam várias maneiras de empunhá-la no seu cabo, de formato oitavado. Dia
após dia, eu e a raquete íamos evoluindo, conseguindo pouco a pouco aprovação
do professor paredão.
Foram cinco
meses residindo no camping, onde conheci muitas pessoas e, até arrisquei jogar
tênis com alguns frequentadores. Pude aprender um novo esporte que passou a
fazer parte da minha vida. Logo depois, mudei para o centro da cidade de São
Roque, onde um novo clube de tênis, com 6 quadras, tinha sido inaugurado recentemente
e, pude desfrutar, a partir daí, de uma paixão indescritível. Através do tênis
conheci centenas de pessoas e locais por todo o mundo. Nesse novo clube também
tinha um paredão, acredito que primo do outro. Ele era tão exigente como o do
camping.
Quando me
perguntam quem foi o meu primeiro professor de tênis e grande incentivador,
conto essa história e muitos me olham com desconfiança.
Toda
experiência são novas oportunidades de desenvolvimento, aprendemos isso nos
livros, que também não falam, mas dizem muito. Novas experiências nos revelam
nossas capacidades não testadas, novos sentimentos, novos horizontes, que jamais
imaginávamos encontrar. Novas experiências são oportunidades de sermos felizes.
Outubro
2021, Marcos Anselmo Ferreira Franco

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