sábado, 2 de setembro de 2023

Raquete empenada

 Ao final do ano de 1979 fui trabalhar em uma fábrica, localizada em Araçariguama, São Paulo, naquela época um distrito de São Roque. A melhor alternativa para fixar residência foi em um trailer do meu sogro, em um camping próximo a fábrica, que margeava a rodovia Castelo Branco. Mal podia imaginar que ali começaria uma nova paixão em minha vida. Além de estar assumindo uma nova função profissional, também me deslocava duas vezes por semana, para a cidade de São Paulo, para as aulas de mestrado.

O camping possuía uma boa infraestrutura, com restaurante, vestiários, salão de jogos, campo de futebol, quadras de tênis e um paredão de tênis, local onde se pratica o tênis solitário, batendo a bola contra ele. Equipamentos diferentes daqueles esportes que eu praticava. Durante a semana, em geral, o camping ficava vazio, não tendo mais ninguém para poder compartilhar um esporte. Às sextas feiras, quando eu ia dormir, não havia mais ninguém, mas quando eu acordava, no dia seguinte, os proprietários dos trailers e seus familiares, já tomavam conta do camping.

Quando comentei com um colega da fábrica sobre a minha nova rotina, ele, que jogava tênis, sugeriu que eu experimentasse. Rapidamente ele me ofereceu uma raquete de tênis Donnay, a mais utilizada na época, de madeira, porém, empenada, e três bolas Mercure usadas. Acredite, mas eu paguei por elas. Mal comparando, tempos depois, ao pensar sobre esse episódio, tive a certeza de que Deus escreve certo por linhas tortas. Também tive a certeza de que o meu colega não acreditou que eu pudesse aprender a jogar tênis. A raquete torta me aproximou do paredão de tênis, que se tornou companheiro e o meu professor tênis.

O paredão, um ser inanimado, um muro de tijolo e concreto, alto, com dez metros de largura, pintado de tinta verde e isolado em um canto. Ele não falava, não sorria, não incentivava, não reclamava, nem orientava, mas estava sempre à disposição e, devolvia todas as bolas, desde que eu executasse os movimentos de forma correta. Com o passar do tempo, o paredão, solitariamente e, impassível, parecia falar comigo. Às vezes eu o escutava dizer: bata mais perto, agora mais longe, golpeie de direita, agora de esquerda, levante a bola. Eu tratava de obedecê-lo. Quanto a raquete, eu me esforçava para entendê-la. Apesar de empenada, suas cordas se mantinham firmes, suportando os golpes imperfeitos do meu braço direito. Aprendi também, que existiam várias maneiras de empunhá-la no seu cabo, de formato oitavado. Dia após dia, eu e a raquete íamos evoluindo, conseguindo pouco a pouco aprovação do professor paredão.

Foram cinco meses residindo no camping, onde conheci muitas pessoas e, até arrisquei jogar tênis com alguns frequentadores. Pude aprender um novo esporte que passou a fazer parte da minha vida. Logo depois, mudei para o centro da cidade de São Roque, onde um novo clube de tênis, com 6 quadras, tinha sido inaugurado recentemente e, pude desfrutar, a partir daí, de uma paixão indescritível. Através do tênis conheci centenas de pessoas e locais por todo o mundo. Nesse novo clube também tinha um paredão, acredito que primo do outro. Ele era tão exigente como o do camping.

Quando me perguntam quem foi o meu primeiro professor de tênis e grande incentivador, conto essa história e muitos me olham com desconfiança.

Toda experiência são novas oportunidades de desenvolvimento, aprendemos isso nos livros, que também não falam, mas dizem muito. Novas experiências nos revelam nossas capacidades não testadas, novos sentimentos, novos horizontes, que jamais imaginávamos encontrar. Novas experiências são oportunidades de sermos felizes. 

Outubro 2021, Marcos Anselmo Ferreira Franco

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Cego, Surdo e Bem-casado

Enquanto caminhava na esteira da academia, ouvi de um personal trainer uma afirmação curiosa: “O casamento afeta os sentidos, especialmente ...