sábado, 2 de setembro de 2023

Respirando com as bolinhas de tênis


           Certo dia, após o meu jogo de tênis, quando já estava sentado, arrumando a raquete, a toalha e, tirando as munhequeiras, ao guardar as bolinhas, elas teimaram em não entrar no seu tubo. Fiquei apreensivo, isso nunca tinha me acontecido e, então escutei: “ei, queremos tomar um ar”. Olhei com os olhos arregalados, quando uma delas disse: “queremos fazer um protesto”. A segunda bola continuou: “nunca somos lembradas. Não temos um tempo para descanso e para papear”. De fato, não me recordo de alguém elogiá-las, após a conquista de um ponto, ao contrário, sim. Elas são motivos de desculpas para os perdedores, que se justificam dizendo, que elas estavam murchas ou gastas. Em geral, após um jogo elas voltam para o seu tubo ou são descartadas na lata do lixo. As que tem mais sorte, são encaminhadas para aulas.

Desconfio que as bolas sabem quem as usa. Há quem as limpe, antes de guardá-las, na esperança de ter um bônus especial durante o jogo. Tem aqueles que, durante o jogo, antes de sacar, escolhem aquelas que estão com mais ou com menos pelos, dependendo do momento jogo. Outros, também, antes de sacar, as quicam no chão várias vezes, parecendo conversar com elas, imagino que, pedindo para atingir o seu objetivo, de fazer um ponto vencedor. Os mais amigáveis, não tiram o olhar delas em nenhum instante, durante os golpes com a raquete e, conseguem convencê-las a marcar um ponto.

Há também, os mais intensos, os profissionais, que conseguem, com as suas técnicas, fazê-las acelerar a uma velocidade média, superior a duzentos quilômetros por hora. Desses, as bolinhas, querem distância. Seus corpos são feitos de borracha, forrada de feltro e são pressurizadas. Nessa velocidade a vida delas é muito curta. Vez por outra, algumas chegam a serem furadas.

Quando, por um acidente, se molham, elas são jogadas contra uma parede para diminuir a sua umidade e, na maioria das vezes, até esquecidas. Por outro lado, já vi tenistas que as guardam, em seus armários, totalmente testadas, ou seja, bem usadas e, as mantem por vários anos. Às vezes, as levam para as quadras propondo o seu uso, mas o adversário prefere abrir um tubo novo.

Quando as bolas se chateiam, elas se defendem. Aproveitam de um golpe, maldado de um jogador, quando ele as arremessa longe, fora da quadra e, então, caem em algum lugar difícil de serem encontradas. É um momento de relax para as bolas, pois, o jogo só recomeça quando elas reaparecem, após uma busca minuciosa dos jogadores.

Outra situação em que as bolas têm um controle aparente, ocorre quando elas tocam na rede, durante o ponto. Pode ser um levíssimo toque, um desvio de direção ou, até mesmo, um toque, com uma rápida parada, demonstrando uma indecisão, em que lado elas cairão. Nesse instante elas escolhem o jogador que está mais ansioso, para perder o ponto. Esse irá, invariavelmente, reclamar.

As bolas se sentem melhor, quando existe o pegador de bolas, trabalhando no jogo. Eles, tem a função de buscar as bolas para os jogadores. Sempre que as pegam, ficam em suas mãos e, bem protegidas. Em Wimbledon, Londres, onde acontece, anualmente, o mais cobiçado torneio de tênis do mundo, a organização é um dos pontos altos. Lá, pude observar a abertura dos tubos de bolas em um jogo oficial. Os pequenos pegadores, com seus uniformes impecáveis, abrem dois tubos, com três bolas cada um, na frente do árbitro. Em seguida as colocam perfiladas uma, ao lado da outra. Além desse tratamento especial, as bolas tocam o piso de grama, mais macio do que os pisos de cimento ou de terra. Um motivo a mais para as elas não reclamarem.

Então, consegui convencer as bolinhas a ficarem dentro do tubo, mas antes disse a elas: continuem assim, sempre firmes, vistosas, redondas, saltitantes e parceiras dos jogadores de tênis. Vocês os ajudam a contar histórias reais, engraçadas e imaginárias, após os jogos. Com toda certeza, fazendo uma comparação, vocês estão para o jogo de tênis, assim como ar está para os jogadores.


Outubro 2021, Marcos A F Franco

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