Desconfio que
as bolas sabem quem as usa. Há quem as limpe, antes de guardá-las, na esperança
de ter um bônus especial durante o jogo. Tem aqueles que, durante o jogo, antes
de sacar, escolhem aquelas que estão com mais ou com menos pelos, dependendo do
momento jogo. Outros, também, antes de sacar, as quicam no chão várias vezes,
parecendo conversar com elas, imagino que, pedindo para atingir o seu objetivo,
de fazer um ponto vencedor. Os mais amigáveis, não tiram o olhar delas em
nenhum instante, durante os golpes com a raquete e, conseguem convencê-las a
marcar um ponto.
Há também, os
mais intensos, os profissionais, que conseguem, com as suas técnicas, fazê-las
acelerar a uma velocidade média, superior a duzentos quilômetros por hora.
Desses, as bolinhas, querem distância. Seus corpos são feitos de borracha,
forrada de feltro e são pressurizadas. Nessa velocidade a vida delas é muito
curta. Vez por outra, algumas chegam a serem furadas.
Quando, por
um acidente, se molham, elas são jogadas contra uma parede para diminuir a sua
umidade e, na maioria das vezes, até esquecidas. Por outro lado, já vi tenistas
que as guardam, em seus armários, totalmente testadas, ou seja, bem usadas e, as
mantem por vários anos. Às vezes, as levam para as quadras propondo o seu uso,
mas o adversário prefere abrir um tubo novo.
Quando as
bolas se chateiam, elas se defendem. Aproveitam de um golpe, maldado de um jogador,
quando ele as arremessa longe, fora da quadra e, então, caem em algum lugar
difícil de serem encontradas. É um momento de relax para as bolas, pois, o jogo
só recomeça quando elas reaparecem, após uma busca minuciosa dos jogadores.
Outra
situação em que as bolas têm um controle aparente, ocorre quando elas tocam na
rede, durante o ponto. Pode ser um levíssimo toque, um desvio de direção ou,
até mesmo, um toque, com uma rápida parada, demonstrando uma indecisão, em que
lado elas cairão. Nesse instante elas escolhem o jogador que está mais ansioso,
para perder o ponto. Esse irá, invariavelmente, reclamar.
As bolas se sentem
melhor, quando existe o pegador de bolas, trabalhando no jogo. Eles, tem a
função de buscar as bolas para os jogadores. Sempre que as pegam, ficam em suas
mãos e, bem protegidas. Em Wimbledon, Londres, onde acontece, anualmente, o
mais cobiçado torneio de tênis do mundo, a organização é um dos pontos altos. Lá,
pude observar a abertura dos tubos de bolas em um jogo oficial. Os pequenos
pegadores, com seus uniformes impecáveis, abrem dois tubos, com três bolas cada
um, na frente do árbitro. Em seguida as colocam perfiladas uma, ao lado da
outra. Além desse tratamento especial, as bolas tocam o piso de grama, mais macio
do que os pisos de cimento ou de terra. Um motivo a mais para as elas não
reclamarem.
Então, consegui
convencer as bolinhas a ficarem dentro do tubo, mas antes disse a elas:
continuem assim, sempre firmes, vistosas, redondas, saltitantes e parceiras dos
jogadores de tênis. Vocês os ajudam a contar histórias reais, engraçadas e
imaginárias, após os jogos. Com toda certeza, fazendo uma comparação, vocês
estão para o jogo de tênis, assim como ar está para os jogadores.
Outubro 2021, Marcos A F Franco

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