sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Pelé é inexplicável


            Continuo procurando nos dicionários, sem sucesso, o significado de Pelé.

O próprio Edson Arantes do Nascimento não sabe. Quando perguntado, explica que passou a ser chamado dessa forma por não conseguir pronunciar corretamente, quando criança, o nome de um jogador de futebol chamado Bilé. Ele pronunciava Pilé.

Quem consegue definir o significado do nome Pelé? É difícil. Um nome pequeno, único e simples, mas ao mesmo tempo, imenso.

Como expressar o significado do nome desse superatleta que encantou o mundo. Em um tempo em que não havia as mídias sociais, ele foi o cidadão mais conhecido do planeta. Tive provas disso nas viagens internacionais que fiz. Quando se fala de futebol em um outro país, os gringos, sabendo de nossa procedência brasileira, mencionam o Pelé.

O conheci quando tinha 8 anos de idade, ainda na metade de sua bem-sucedida carreira. Nessa data ele já era um bicampeão mundial pela seleção brasileira de futebol e pelo seu time, o glorioso Santos Futebol Clube.

Meu pai me levou à Vila Belmiro para assistir ao jogo do Santos contra a Portuguesa Desportos, pelo campeonato paulista de futebol. Ou melhor, ele que não se interessava por esportes, foi ao campo para ver o Pelé. O homem que encantava até os que não conheciam esse esporte. O meu pai sabia que, independentemente da disputa entre os times, ele iria assistir um espetáculo em que o Pelé seria o protagonista.

Alguns torcedores exageravam afirmando que o Pelé praticava algo além do futebol. Ele realmente deslumbrava.

Era a minha primeira vez em um campo de futebol. Foi no dia 22 de agosto de 1965. Ele fez 3 gols dos 4 marcados pelo Santos, além de inúmeras jogadas com dribles inexplicáveis, assim como o seu nome.

Um dos gols eu tenho certeza de que ele fez em minha homenagem por assisti-lo pela primeira vez. Jamais esqueci. Foi um gol de cabeça. Eu estava sentado atrás desse gol. Foi uma pintura, como se fala no jargão futebolístico.

O Pelé estava à direita, no campo do adversário, na entrada da grande área e recebeu a bola em sua cabeça, através de um cruzamento, vindo do lado esquerdo. Ele, rapidamente a cabeceou para o seu inseparável companheiro Coutinho, que estava à esquerda, próximo a trave. Este, também de cabeça devolveu a bola para o Pelé, que já estava na entrada da pequena área. Muito ágil, ele a cabeceou para o gol, deslocando-a para o canto oposto de onde estava o goleiro.

Goool, foi o que todos gritaram com muita intensidade e saltando de alegria. Eu, me senti um privilegiado. Gravei em minha memória. Um raro lance de gol. Gostei tanto, que em 2014, após 49 anos, comprei esse gol. É verdade que foi simbólico, mas ele é meu, o gol de número 742.

Uma empresa de marketing desenvolveu um pequeno diamante, fabricado na Bélgica, a partir dos fios de cabelo do Pelé, que representavam cada gol feito por ele. Sim, a maioria dos gols de Pelé era uma joia. Esses pequenos diamantes foram vendidos, juntamente com uma estatueta do Pelé, banhada a ouro, estilizando um gol de bicicleta, acompanhados de uma filmagem de cada gol.

Essa promoção foi chamada de Brilho infinito. Mais uma palavra que o nome Pelé incorporou. Ele tinha a capacidade de criar infinitas jogadas e gols diferenciados que contagiavam os aficionados pelo futebol. Em seus 1283 gols registrados poucos são idênticos. A sua habilidade e criatividade era infinita.

O púbico comparecia ao estádio sabendo que ele produziria algo novo. Existiram jogadas feitas por ele, em direção ao gol, de rara beleza que algumas pessoas a descrevem como se tivessem sido gols.

Mas, todo atleta tem seu dia de cão. Lembro-me de um jogo, onde ele não conseguia arquitetar jogadas e nem conseguiu fazer gols. A torcida, mal-acostumada, o cobrou. Ele, não teve dúvidas, sentou-se em cima da bola, no meio de campo e balançou os braços demonstrando insatisfação consigo mesmo. Foi o momento de um simples mortal.

Seu reconhecimento internacional como o atleta do século 20 foi mais do que merecido. Tive a oportunidade de assisti-lo em treinos. Sua dedicação e preparo físico era invejável. Certo dia chovia muito, o treino foi realizado no ginásio coberto, ao lado do campo. Após o aquecimento físico, ao invés de futebol, foi realizado um jogo de basquetebol entre os jogadores. Acreditem, o Pelé com os seus 1,73 m de altura conseguiu enterrar a bola de basquete na cesta. O nome Pelé também significa atleta preparado.

Além de ter sido muito competente em sua profissão, Pelé distribuía simpatia, um sorriso fácil e acessível às pessoas. De origem simples, de família humilde, nasceu na cidade de Três Corações, em Minas Gerais. Talvez aí esteja a origem de seu carisma, usou os corações para transmitir bondade e amor. Mais um ingrediente que compõe o seu nome.

O homem que parou uma guerra, que foi recebido por dezenas de chefes de estado em todo o mundo, querido pelos seus companheiros, sempre atraiu multidões, um atleta com inúmeros recordes em sua carreira construiu um nome que é inexplicável.

Como podemos definir a palavra Pelé? Pode ser: Herói, Craque, Gênio, Maioral, Líder, Rei, Inigualável, Poderoso, Infinito, Inesquecível, Artista da bola, Mito, Lenda, Excelente, Superação, Raça, Guerreiro, O melhor, Soberano, Superior, Insuperável, Sobrenatural, Amigo, Joia, Imbatível ou Mágico?

Todas essas qualidades ainda são insuficientes para explicar o Pelé. Posso acrescentar a palavra Imortal. Ele, presente ou não entre nós, será lembrado por várias gerações. Qualquer outro adjetivo de valor comporá a palavra Pelé. Sua dimensão é incalculável.

Obrigado por ter vivido entre nós, foi um privilégio ter conseguido vê-lo e tocá-lo. Você é um exemplo inesquecível.

            Dezembro 2022, Marcos A F Franco

           Publicado no Jornal A Tribuna de Santos em 5 de janeiro de 2023

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