Setenta e oito anos após o final da Segunda Guerra Mundial eu conheci Hiroshima. Ela, juntamente com Nagasaki foram as cidades atingidas por uma bomba atômica.
Desde criança, esse fato horrendo e insano
me marcou. Cerca de 140 mil pessoas morreram e 120 mil sobreviveram com
cicatrizes e sequelas permanentes.
Ao chegar na cidade, caminhei pelo Parque Memorial
da Paz de Hiroshima, bem arborizado, acolhe um Museu de mesmo nome, mantém o
Sino da Paz e a Chama da Paz. No Parque eu também pude ver a marca física
deixada pela bomba: a Cúpula da Bomba Atômica. É a ruína do antigo Centro de
Exposição Comercial da Prefeitura de Hiroshima. Um dos poucos edifícios, não
demolido, é testemunha viva dos efeitos da rosa de Hiroshima. É um momento,
tenso, surpreendente e triste. As pessoas em volta dele, ficam mudas e fixam
seus olhares para o prédio deteriorado.
Vinícius de Moraes comparou o momento da
explosão da bomba, ao formato do desabrochar de uma rosa. Uma rosa cálida, com
cirrose, sem perfume, sem nada, que devastou a vida de milhares de pessoas. Foi
assim, que ele, ainda atuando como vice-cônsul brasileiro, em Los Angeles, em
1946 escreveu em uma de suas mais belas poesias. Depois, em 1973, ela ganhou
uma música composta por Gerson Conrad, integrante do grupo Secos e Molhados,
que a imortalizou.
Era uma manhã de sol, com um belíssimo céu
azul e continuei caminhando, ao lado do rio Ota, dentro do complexo do Parque Memorial
da Paz, até encontrar uma rosa. Capturei-a, em uma foto especial. Esta rosa,
diferente daquela radioativa, era linda. Era uma rosa cor-de-rosa desabrochada,
aparentava amizade, amor, equilíbrio, calma e inocência. Com a sua meiguice, olhando
para mim, exalava esperança em seu perfume. Era a mais formosa do jardim de
rosas, mantido pelos hiroshiman.
Ela, me acalmou. A minha sensação inicial,
ao andar pela cidade das rotas alteradas foi de apreensão. Impossível entender
o sentimento das crianças mudas telepáticas, cegas inexatas e feridas, como expressou
Vinícius em seu poema.
Todos os dias, às 8h15 da manhã, um
relógio toca no alto de uma torre de aço no Parque. O som é um lembrete da hora
exata em que caiu na cidade a "Little Boy", a primeira bomba atômica
da história, lançada pelos Estados Unidos no dia 6 de agosto de 1945
Aquela rosa maravilhosa, que então eu conheci,
sinaliza a resiliência da população que reverteu uma história triste. Hoje são
1,3 milhões de pessoas que vivem em uma cidade industrial pujante. Elas
carregam a herança dos efeitos da radioatividade e, também a força adquirida
por superar uma catástrofe que marcou a humanidade.
A cidade é linda, a exceção do prédio da Cúpula
e dos milhares de registros com fotos, mantidos no Museu, não deixou outras
marcas capazes de lembrar a rosa estúpida e inválida.
A bomba matou e deixou sequelas a milhares
de pessoas. Por outro lado, foi um dos atos que motivou o fim da 2ª guerra
mundial. A chama mantida no Parque permanecerá acesa até que a ameaça de
aniquilação nuclear deixe o planeta Terra.
Julho
2023, Marcos A F Franco
A rosa de Hiroshima
Poema de Vinícius de Moraes
Pensem
nas crianças
Mudas
telepáticas
Pensem
nas meninas
Cegas
inexatas
Pensem
nas mulheres
Rotas
alteradas
Pensem
nas feridas
Como
rosas cálidas
Mas
oh, não se esqueçam
Da
rosa da rosa
Da
rosa de Hiroshima
A
rosa hereditária
A
rosa radioativa
Estúpida
e inválida
A
rosa com cirrose
A
antirosa atômica
Sem
cor sem perfume
Sem
rosa sem nada.

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