sexta-feira, 8 de setembro de 2023

A rosa cor-de-rosa de Hiroshima


            Setenta e oito anos após o final da Segunda Guerra Mundial eu conheci Hiroshima. Ela, juntamente com Nagasaki foram as cidades atingidas por uma bomba atômica.

Desde criança, esse fato horrendo e insano me marcou. Cerca de 140 mil pessoas morreram e 120 mil sobreviveram com cicatrizes e sequelas permanentes.

Ao chegar na cidade, caminhei pelo Parque Memorial da Paz de Hiroshima, bem arborizado, acolhe um Museu de mesmo nome, mantém o Sino da Paz e a Chama da Paz. No Parque eu também pude ver a marca física deixada pela bomba: a Cúpula da Bomba Atômica. É a ruína do antigo Centro de Exposição Comercial da Prefeitura de Hiroshima. Um dos poucos edifícios, não demolido, é testemunha viva dos efeitos da rosa de Hiroshima. É um momento, tenso, surpreendente e triste. As pessoas em volta dele, ficam mudas e fixam seus olhares para o prédio deteriorado.

Vinícius de Moraes comparou o momento da explosão da bomba, ao formato do desabrochar de uma rosa. Uma rosa cálida, com cirrose, sem perfume, sem nada, que devastou a vida de milhares de pessoas. Foi assim, que ele, ainda atuando como vice-cônsul brasileiro, em Los Angeles, em 1946 escreveu em uma de suas mais belas poesias. Depois, em 1973, ela ganhou uma música composta por Gerson Conrad, integrante do grupo Secos e Molhados, que a imortalizou.

Era uma manhã de sol, com um belíssimo céu azul e continuei caminhando, ao lado do rio Ota, dentro do complexo do Parque Memorial da Paz, até encontrar uma rosa. Capturei-a, em uma foto especial. Esta rosa, diferente daquela radioativa, era linda. Era uma rosa cor-de-rosa desabrochada, aparentava amizade, amor, equilíbrio, calma e inocência. Com a sua meiguice, olhando para mim, exalava esperança em seu perfume. Era a mais formosa do jardim de rosas, mantido pelos hiroshiman.

Ela, me acalmou. A minha sensação inicial, ao andar pela cidade das rotas alteradas foi de apreensão. Impossível entender o sentimento das crianças mudas telepáticas, cegas inexatas e feridas, como expressou Vinícius em seu poema.

Todos os dias, às 8h15 da manhã, um relógio toca no alto de uma torre de aço no Parque. O som é um lembrete da hora exata em que caiu na cidade a "Little Boy", a primeira bomba atômica da história, lançada pelos Estados Unidos no dia 6 de agosto de 1945

Aquela rosa maravilhosa, que então eu conheci, sinaliza a resiliência da população que reverteu uma história triste. Hoje são 1,3 milhões de pessoas que vivem em uma cidade industrial pujante. Elas carregam a herança dos efeitos da radioatividade e, também a força adquirida por superar uma catástrofe que marcou a humanidade.

A cidade é linda, a exceção do prédio da Cúpula e dos milhares de registros com fotos, mantidos no Museu, não deixou outras marcas capazes de lembrar a rosa estúpida e inválida.

A bomba matou e deixou sequelas a milhares de pessoas. Por outro lado, foi um dos atos que motivou o fim da 2ª guerra mundial. A chama mantida no Parque permanecerá acesa até que a ameaça de aniquilação nuclear deixe o planeta Terra.

Julho 2023, Marcos A F Franco

 

A rosa de Hiroshima

Poema de Vinícius de Moraes

 

Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas oh, não se esqueçam

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida

A rosa com cirrose

A antirosa atômica

Sem cor sem perfume

Sem rosa sem nada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Cego, Surdo e Bem-casado

Enquanto caminhava na esteira da academia, ouvi de um personal trainer uma afirmação curiosa: “O casamento afeta os sentidos, especialmente ...