De
repente a mesa da cerveja avança no tempo. Uma mesa quadrada, situada no
coração da lanchonete do clube. Já com muita idade e, chamada carinhosamente de
Mesa do Coronel, onde sentam-se costumeiramente oito calibrados e fanáticos em
assuntos aleatórios.
A
conversa, sempre aos finais de semana, se inicia por volta do meio-dia, sem
hora para terminar. Já os frequentadores se revezam, em um número incontável.
Entram e saem, cada qual cumprindo seu horário ou, seu limite alcoólico.
Qualquer assunto proposto, a discussão é quente, exceto a loura gelada. Esta,
medida com rigor por um termômetro.
Nesse
dia, em especial, juntou-se aos especialistas incautos uma nova e estranha
figura para papear. Sim, no boteco, ou você é bom bebedor, ou é bom de
conversa.
Sem
precisar sentar-se, não pediu uma loura, nem uma branquinha, só respondia a perguntas.
O nome dele? ChatGPT, um robô de
conversa, produto da Inteligência Artificial, conhecida como AI. A reação dos
integrantes da roda da loura foi de silêncio. Nem lugar ela ocupava, ela estava
em cima da mesa, dentro de um aparelho celular.
O cara
sabe tudo, falou o Pardal que a trouxe, depois de molhar a goela. Disse que já a
conhecia e que tudo que pergunta para ela, as respostas são certeiras. Ela
parece um arquivo dos maiores bancos de dados do mundo. Pardal é um empresário,
super atualizado no seu mercado de atuação e conectado às novas e rápidas
tecnologias.
Ah,
quero ver se ela sabe mesmo. Ironizou o Santão, um executivo da área financeira.
Sua filha estava com um problema grave. Estudante de direito necessitava elaborar
um Agravo para o professor.
Um
olhou para o outro, e alguém disparou: a coisa está se agravando aqui na mesa,
o papo está muito sério. É estranho falar com alguém que a gente não vê. Garçom,
traz um tira-gosto que a conversa será interessante.
Pardal,
então, perguntou para a AI: como faço um agravo? Rapidamente, ela respondeu, em
detalhes o que era e como fazê-lo.
Santão,
derrubando seu terceiro shot de Vodka, ficou admirado e quis testar a
veracidade da informação. Muito educado, mas apreensivo, através do seu celular
perguntou para a AI: por favor, eu quero saber como se faz um agravo.
Desta
vez, a resposta foi mais demorada sem a mesma precisão. Santão ficou frustrado
e cravou: está AI é genérica. Você pode dizer para ela que necessita de mais
detalhes, o outro amigo da loura falou. Ela, prontamente, respondeu em detalhes
e esclareceu as dúvidas. E assim, foi o primeiro contado da AI com a mesa dos bebedores
reais.
Algumas
conclusões, ainda que em estado etílico, todos concordaram: ganhamos um novo
amigo, com nome feminino, que responde a perguntas, mas não inquire ninguém. Ela,
também, não é precisa, igual aos amantes de bebidas. Ela ajuda a resolver os
problemas escolares dos filhos, o que é bom para justificar a frequência na
mesa da cerveja. Por outro lado, ela não irá contribuir para o faturamento do
bar, também não falará mal de ninguém, se limita a comentar somente sobre
coisas.
Junho
2023, Marcos A F Franco

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