sexta-feira, 8 de setembro de 2023

A Inteligência Artificial na mesa do boteco

De repente a mesa da cerveja avança no tempo. Uma mesa quadrada, situada no coração da lanchonete do clube. Já com muita idade e, chamada carinhosamente de Mesa do Coronel, onde sentam-se costumeiramente oito calibrados e fanáticos em assuntos aleatórios.

A conversa, sempre aos finais de semana, se inicia por volta do meio-dia, sem hora para terminar. Já os frequentadores se revezam, em um número incontável. Entram e saem, cada qual cumprindo seu horário ou, seu limite alcoólico. Qualquer assunto proposto, a discussão é quente, exceto a loura gelada. Esta, medida com rigor por um termômetro.

Nesse dia, em especial, juntou-se aos especialistas incautos uma nova e estranha figura para papear. Sim, no boteco, ou você é bom bebedor, ou é bom de conversa.

Sem precisar sentar-se, não pediu uma loura, nem uma branquinha, só respondia a perguntas. O nome dele?  ChatGPT, um robô de conversa, produto da Inteligência Artificial, conhecida como AI. A reação dos integrantes da roda da loura foi de silêncio. Nem lugar ela ocupava, ela estava em cima da mesa, dentro de um aparelho celular.

O cara sabe tudo, falou o Pardal que a trouxe, depois de molhar a goela. Disse que já a conhecia e que tudo que pergunta para ela, as respostas são certeiras. Ela parece um arquivo dos maiores bancos de dados do mundo. Pardal é um empresário, super atualizado no seu mercado de atuação e conectado às novas e rápidas tecnologias.

Ah, quero ver se ela sabe mesmo. Ironizou o Santão, um executivo da área financeira. Sua filha estava com um problema grave. Estudante de direito necessitava elaborar um Agravo para o professor.

Um olhou para o outro, e alguém disparou: a coisa está se agravando aqui na mesa, o papo está muito sério. É estranho falar com alguém que a gente não vê. Garçom, traz um tira-gosto que a conversa será interessante.

Pardal, então, perguntou para a AI: como faço um agravo? Rapidamente, ela respondeu, em detalhes o que era e como fazê-lo.

Santão, derrubando seu terceiro shot de Vodka, ficou admirado e quis testar a veracidade da informação. Muito educado, mas apreensivo, através do seu celular perguntou para a AI: por favor, eu quero saber como se faz um agravo.

Desta vez, a resposta foi mais demorada sem a mesma precisão. Santão ficou frustrado e cravou: está AI é genérica. Você pode dizer para ela que necessita de mais detalhes, o outro amigo da loura falou. Ela, prontamente, respondeu em detalhes e esclareceu as dúvidas. E assim, foi o primeiro contado da AI com a mesa dos bebedores reais.

Algumas conclusões, ainda que em estado etílico, todos concordaram: ganhamos um novo amigo, com nome feminino, que responde a perguntas, mas não inquire ninguém. Ela, também, não é precisa, igual aos amantes de bebidas. Ela ajuda a resolver os problemas escolares dos filhos, o que é bom para justificar a frequência na mesa da cerveja. Por outro lado, ela não irá contribuir para o faturamento do bar, também não falará mal de ninguém, se limita a comentar somente sobre coisas.

Junho 2023, Marcos A F Franco

 

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