segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Herói Invisível

Ao refletir sobre a definição de um herói como uma pessoa corajosa, valente, altruísta, que supera adversidades e desafios para proteger os outros e, muitas vezes, deixa um legado inspirador, lembrei-me de alguém que fez parte da minha vida por muitos anos.

Ele era natural de Santos, filho de um simples lusitano oriundo da Batalha. Talvez essa palavra o tenha instigado, desde pequeno, a vontade de superar inúmeras dificuldades. Com seus pais, aprendeu o valor do trabalho árduo e, através da religião, foi atraído para os estudos, tendo desenvolvido uma vasta cultura.

No dia em que ele escolheu passar para o outro plano, às vésperas da primavera, o sol brilhava, e o vento característico fazia as folhas secas caírem das árvores. Ele aguardou a noite chegar e, em silêncio, partiu para uma dimensão superior. Era típico dele, um homem humilde, desprovido de vaidade, que se orgulhava de sua família e do trabalho que realizava com dedicação e qualidade.

Como educador, conquistou milhares de pessoas com sua dedicação, simpatia e carinho, incluindo sua esposa, com quem formou uma família com quatro filhos, seis netos e três bisnetos. Ele foi um empreendedor da harmonia, buscando valorizar e promover o bem-estar das pessoas.

Apesar de sua personalidade discreta, deixou rastros invisíveis e inspiradores em todos os lugares em que esteve. Ele estimulou a prática de bens e valores intangíveis — como a gratidão, caridade, solidariedade, alegria, união e o valor da família — que não podem ser tocados ou mensurados.

Em um mundo competitivo, dividido e fragmentado, onde prevalece a busca por ser o maior ou o melhor, sua maior ambição era superar a si mesmo, competindo apenas consigo. Ele se esforçava para agir com retidão e excelência.

Um dos seus desejos era se reencontrar com seu pai. Assim, entre muitos familiares, parentes e amigos, nos despedimos dele no Cemitério do Paquetá, ao lado de seu pai. Enquanto isso, avistei um gato cinza, deitado em cima de um jazigo, que também observava sua partida.

O gato, impassível e envolto pelo silêncio, com seus grandes

olhos escuros, parecia fazer uma longa retrospectiva da vida

do meu herói invisível. Naquele instante, tive plena certeza de

que muito do que sou e alcancei é herança dele — um legado

não escrito, mas repleto de exemplos concretos. Afinal, com

imenso orgulho, como filho, sou um pedaço do professor

Oswaldo Ferreira Franco

Setembro 2025

Marcos A F Franco

Publicado no Jornal A Tribuna de Santos em 21/9/2025
 

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Peixe Voando, Caixa Faturando

Todos os Mercados Municipais são barulhentos. Há pessoas conversando, caixas sendo jogadas ao chão, telefones tocando, carrinhos deslizando pelos corredores, eletrodomésticos vibrando, cortadores de carnes e geladeiras preenchendo o ar com seus sons e, às vezes, pode-se ouvir gatos miando. No entanto, no histórico Pike Place Fish Market, o animado mercado de agricultores de Seattle, localizado na parte alta do porto, existe um som especial – único e repleto de diversão.

Enquanto caminhava pelo mercado, admirando lindas flores, provando frutas, descobrindo doces locais e absorvendo o aroma característico do mercado, ouvi um grito alto: “Salmon!” Ao mesmo tempo, diversas pessoas se aglomeravam em volta dos balcões com peixes empilhados sobre pedras de gelo.

Aproximando-me da peixaria, escutei novamente: “Salmon!” e, nesse instante, observei um peixeiro lançando, bem alto, um peixe para outro colega — escolhido por um cliente —, que o recebia com habilidade.

São peixes de aproximadamente 60 centímetros, pesando três quilos. Quanto mais se vende, mais se grita o nome do tipo de peixe que está sendo comprado. É como se fosse um canto uníssono.

É impossível não parar por alguns minutos para ver os arremessos em que os peixes não escorregam das mãos dos peixeiros. A sensação é a de que o peixe irá cair durante o percurso de sete metros, ou mesmo, de que escapará da mão do peixeiro que o recebe. Mas ao final, o que se vê é a plateia batendo palmas, fotografando e filmando o êxito da acrobacia. No Pike Place, peixe voando é sinônimo de caixa faturando.

Essa tradição divertida iniciou-se nos anos oitenta, para transferir o peixe do balcão para área de embalagem, sem precisar ficar indo e voltando. Esse método transformou-se em um show tão popular que hoje é a principal atração do mercado. Turistas se aglomeram para assistir o tempo todo à energia e à união dos funcionários, que gritam e se divertem.

Além de encantar os visitantes, a ideia ajudou a loja a aumentar suas vendas devido à exposição na mídia nacional, e salvou o negócio de uma possível falência. O que parecia uma ideia louca transformou-se em referência de marketing aliado à eficiência operacional, atraindo compradores e promovendo o mercado.

É impossível não desejar retornar para rever o espetáculo e saborear um autêntico selvagem Salmão Rei do Alasca, reconhecido como o melhor do mundo. 


Setembro 2025

Marcos A F Franco

 

Cego, Surdo e Bem-casado

Enquanto caminhava na esteira da academia, ouvi de um personal trainer uma afirmação curiosa: “O casamento afeta os sentidos, especialmente ...