terça-feira, 25 de março de 2025

Entre Cajus e Carangueijos

Vivi momentos alegres. Conheci a terra do caju, a capital de Sergipe, o menor estado da federação brasileira em extensão territorial, mas imenso pela recepção e acolhida do povo amigo dos caranguejos. O nome Aracaju não nega as origens indígenas e carrega a coragem de Cristóvão de Barros, grande líder em diversas batalhas contra a anexação de Sergipe à Capitânia da Bahia de Todos os Santos, no século XVI.

Dentro de um Uber, a caminho do centenário Mercado Municipal, que leva o nome de três personagens ilustres, sendo dois deles idênticos ao meu sobrenome, o motorista me surpreendeu. Além de sua habilidade ao volante, era um guia turístico por vocação.

Protegido pelo ar-condicionado do calor do vigoroso sol nordestino, em um confortável veículo, o meu guia, orgulhoso de sua cidade, descrevia e apontava o cuidado com a preservação dos manguezais ao longo do rio Sergipe, que deságua no oceano.

Saindo da praia de Atalaia, onde se encontra a instagramável e imponente escultura de um caranguejo, percorri ruas planas de uma cidade ampla e bem cuidada. No trajeto, vi prédios luxuosos até avistar grandes esculturas à beira do rio Sergipe, em frente ao Museu da Gente Sergipana. As esculturas, com sete metros de altura, representam figuras da terra. O museu interativo abriga objetos antigos e atuais, palavras e expressões regionais, além de filmes sobre o povo sergipano.

Enquanto o semáforo não abria, o guia desinibido, respondia algumas perguntas. Sobre a segurança foi bem direto:

— Aqui o cabra só assalta uma vez, na reincidência, leva bala.

Quase chegando ao destino, o motorista nos recomendou retornar para os festejos de São João. A festa dura um mês.

No dia seguinte, convidado para uma reunião social em uma chácara, quase dentro da cidade, pude saborear um tambaqui na brasa, pescado na hora no lago da propriedade. Cercado por patos, galinha d´Angola, pavões e cachorro, abrigados por um grande pomar, notei um coelho preto, morador da chácara, que me observava com as orelhas em riste, expressão interrogativa, tentando entender a nossa “invasão” ao seu paraíso. Contemplei um pôr-do-sol invejável, disputado por inúmeras árvores e refletido nas águas do lago, testemunha da receptividade ímpar do casal que abriu seus portões para convidados forasteiros.

Comprovando as diferenças culturais, ao solicitar uma omelete à atendente do café do hotel, ela, percebendo minha origem paulista, perguntou:

— O senhor está com pressa? O serviço está lento. A mesma lerdeza de sempre.

Saboreei todo o típico café com mais calma.

Andando pela avenida da praia em busca de um açaí cremoso, deparei-me com uma vendedora ambulante preparando uma carne desfiada em uma chapa enquanto dançava ao som de uma música. Eu a provoquei:

— Você está fazendo duas coisas que eu não sei: dançar e cozinhar.

Ela sorriu e, demonstrando orgulho e felicidade, completou:

— Eu também sei costurar.

A simplicidade e alegria das pessoas eram evidentes. A maioria, conversava entre si, com poucos celulares nas mãos, competindo com sons das músicas dos bares da praia.

Impressionou-me saber da história dos navios torpedeados na costa sergipana durante a Segunda Guerra Mundial. Cerca de 600 pessoas naufragadas morreram, e a tragédia deu nome à Praia dos Náufragos.

Caju, caranguejo, guaiamum, aratu e a caipirinha de Seriguela ficarão marcadas em minha memória gastronômica. Entretanto, o sorriso, a simpatia e a acolhida do povo aracajuano ganharam o meu coração.

Retornei convicto de que o cidadão da terra do caju vive feliz e tem um carinho especial por sua cidade. Eles gostam de zueira, mas não de treta, eles gostam de trocar ideias, mas não de empatar.

Março de 2025

Marcos A F Franco

Publicado no Jornal do Dia, Aracaju, em 25/3/2025

 

domingo, 23 de março de 2025

Lançamento Livro Tennis Dreams - As Bolinhas Mágicas no Rio Open

 Jókey Club do Rio de Janeiro - 11o Rio Open de Tênis 2025 - 12 à 18/02/2025













Sinfonia do Caos


            De passagem pelo Rio, a Cidade Maravilhosa, fui convidado para assistir à apresentação de uma orquestra de violinos. Mal desembarquei do avião, a gentil anfitriã me recebeu e, seguimos para o nosso destino.

Era um dia ensolarado próprio para admirar as famosas belezas naturais do Rio, realçadas pelo movimento suave do mar. Lentamente as paisagens foram se alterando para viadutos e morros ocupados por centenas de pequenas moradias. Junto com o intenso tráfego de veículos, igual a outros de grandes cidades.

Estávamos longe do centro, em ruas estreitas, repletas de pilhas de lixo, construções precárias, veículos mal estacionados, que dificultavam o trânsito. De repente, Yvonne, a nossa guia, parou o carro e pediu que descêssemos. Estranhei, não vi nenhum galpão, teatro ou sequer uma bilheteria.

Pensei: “Esse mundo é completamente diferente do meu”. Parecia uma zona de guerra. Havia pessoas conversando e, ao mesmo tempo, nos observando, como se estivessem nos vigiando. Motos passavam buzinando de um lado para o outro da rua.

Após estacionar o veículo, Yvonne nos disse:

— Bem-vindos ao Projeto UERÊ. Aqui é a Favela da Maré, onde crianças tentam sobreviver em um cenário como o da Faixa de Gaza.

A Tia Didi, uma das 20 funcionárias, nos esperava com um feijão preto especial, servido em um ambiente simples e limpo.

O projeto, que existe há 26 anos, é uma escola de ensino fundamental, com método próprio, desenvolvido pela extraordinária e premiada internacionalmente Yvonne: Pedagogia UERÊ-MELLO. O projeto mantém 12 salas de aulas com ar-condicionado e professores capacitados para atender 270 crianças. As salas seguem o estilo arquitetônico da favela, separadas uma das outras, pintadas e com mensagens motivadoras.

Após o almoço, em busca da cereja do bolo, entramos no modesto estúdio musical, onde 15 crianças de várias idades, acompanhadas por um maestro e 3 professores, nos esperavam para executar algumas músicas, dentre elas a clássica “Cidade Maravilhosa”. Naquele instante, vendo os rostos alegres dos futuros músicos e ouvindo o som harmonioso dos instrumentos, me senti dentro da Sala São Paulo. Foi emocionante.

Foram 3 horas vividas no olho do furacão, que me mostraram que o impossível pode se tornar possível. Conheci um anjo chamado Yvonne Bezerra de Mello, uma empreendedora social. Desapontada com a Chacina da Candelária, onde crianças de seu antigo projeto foram assassinadas, ela se recusou a cruzar os braços. Desde então conseguiu salvar 6.600 crianças, dando-lhes a oportunidade de estudar e se tornar cidadãos.

Marcos A F Franco

Fevereiro 2025

Publicado no Jornal A Tribuna de Santos em 23/3/2025

Cego, Surdo e Bem-casado

Enquanto caminhava na esteira da academia, ouvi de um personal trainer uma afirmação curiosa: “O casamento afeta os sentidos, especialmente ...