Ao abrir a
janela da sala, me assustei com a entrada inesperada de um pequeno, lindo e
alegre pássaro. Ele entrou cantando, parecia que buscava pela água, por ter voado
por um longo tempo. Ele era delicado, tinha uma plumagem cinza em seu dorso e
alaranjada no seu peito, compondo um conjunto de um colorido singular. Buscou
um lugar para ficar, se apoiando no vaso de uma linda orquídea, bem ao lado do
sofá.
Enquanto eu
providenciava a água, ele continuava cantando. Queria contar a grande viagem
que fez pelo Brasil. Ele me olhava ansioso e eu o olhava com curiosidade. Ficou
ali parado e quieto por um longo tempo até que eu pudesse ficar próximo dele.
Cada vez que
eu me sentava no sofá, ao seu lado, ele cantava uma nova história sobre o
folclore de algum canto do Brasil. Seu canto descrevia lendas, mitos, músicas
caipiras, dialetos, festas e artes regionais, danças dramáticas, rodeios,
vaquejadas e personagens famosos de inúmeros confins desta terra multicultural.
Sabia cantar em ricos detalhes cada manifestação popular do nosso imenso país.
Ele me
confidenciou que foram necessários muitos anos para conhecer cada minúcia desse
imenso tesouro cultural. Se não bastasse se referir a cada um deles, ele
cantava em versos, com adivinhas, trava-línguas, ditos populares, provérbios e
até frases de caminhão.
Cantava
poesias maravilhosas sobre o Saci-pererê, o Uirapuru, o Paiquerê, o Negrinho do
pastoreio, o café, o Lobisomem, o Bumba-meu-boi, como se os tivesse visto.
Fui me
encantando com os cantos desse sabiá único, alegre, sensível, culto e poeta
ímpar. Ele, percebendo a minha admiração e prazer em ouvi-lo, me contemplou com
diversos contos fascinantes.
Mais íntimo,
e com a maturidade de cem anos vividos ele cantou sabiamente em um de seus
contos: “Como a vida poderia ser mais bonita! A flor, mais flor! A luz, mais
Luz! O amor, mais amor... Coisas que os artistas veem em profundidade porque
seus olhos têm alma! E essa alma lhes permite abraçar e sentir com maior
amplitude, as minúcias e os encantos despercebidos pela maioria dos viventes,
presos ao prosaísmo, sem tempo disponível para captar o belo!...”
Percebi que a
alma desse sabiá especial era feminina e tinha o nome de Carolina Ramos, a
admirável, sensível e imortal poeta santista, autora da magnífica obra-prima, o
livro Canta...Sabiá!
Parabéns pelo
seu centenário! Obrigado por nos brindar por esta grande obra literária.
Novembro
2023, Marcos A F Franco
Publicado no Jornal A Tribuna de Santos em 10/03/2024


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