Foi uma
viagem curta, porém profunda. Assisti a um filme de 40 minutos, com atores
locais em um grande cenário, de 11,5 quilômetros de extensão, desde o cais do
Porto de Santos até o cruzamento da Rodovia dos Imigrantes com a Avenida
Martins Fontes, em São Vicente. Foi possível assisti-lo, confortavelmente, e
sentir as diferentes realidades da ilha de São Vicente.
Após 8 anos
implantado nas duas cidades da Baixada Santista, fui, junto com meu neto Gael,
conhecer o VLT, o modelo caiçara do metrô de superfície. Era um domingo de
verão, em plena primavera, no início da manhã, mas aparentando o meio-dia. O
sol, ainda se levantando, já demonstrava sua energia, testemunhado somente por
um céu azul, sem a presença das intrusas nuvens. É a melhor iluminação para se
gravar imagens perfeitas.
Ao chegarmos
na estação, uma senhorinha simpática, segurando as suas compras feitas na tradicional
feira livre da Glicério, gentilmente nos explicou como deveríamos embarcar. Ela
permanecia em pé após a saída do silencioso VLT e, desembarcou no ponto
seguinte.
Enquanto
aguardávamos a chegada do VLT, pudemos folhear alguns livros expostos no
display do programa de leitura da Prefeitura. A estação localizada na Avenida
Ana Costa, na cidade de Santos, no canteiro central da Avenida Francisco
Glicério, estava bem cuidada, com aspecto de nova e nos recebeu carinhosamente.
Ao embarcar,
a sensação do calor foi embora. O veículo era equipado com ar-condicionado e
com ótimas poltronas, o que tornou nossa pequena viagem-filme ainda mais
especial. Não tínhamos ideia de que após duas estações o cenário externo se
alteraria completamente.
De repente,
tudo ficou escuro, entramos em um túnel, foi como se a tela do cinema deixasse
de reproduzir as imagens, ou como se estivéssemos em um trem fantasma no parque
de diversões, onde seres e coisas estranhas aparecem para assustar. Após alguns
momentos, o sol reapareceu e, junto com ele, figuras humanas, essas reais,
magras, imundas, cambaleantes com garrafas ou cigarros em suas mãos, em um
ambiente com lixo, assustavam, naturalmente a plateia dentro do VLT. Esse ponto
é conhecido por Cracolândia, justo no limite entre as duas cidades.
Esse trecho
da viagem-filme não tinha cor, era em preto e branco. Um defeito da produção
que há muito tempo não encontra a solução para a performance desses atores
viciados e dependentes químicos. São momentos deprimentes e assustadores. É uma
cena de terror!
O VLT seguiu,
avançando pela cidade de São Vicente, em um cenário mais aberto exibindo a bela
praia de Itararé. Pessoas com roupas leves caminhando em direção ao mar,
desciam do VLT sorrindo na expectativa de pisar na areia quente e se refrescar
no mar trazido por ondas disputadas por surfistas.
À medida que
avançávamos o cenário se alterava, apresentando inúmeras casas residenciais, em
sua maioria geminadas e pequenas, com lixos nas calçadas, lembrando uma
melancolia ou, depressão coletiva. Talvez ainda fosse o reflexo da pandemia do
COVID 19? Ou questões estruturais da cidade?
Faltando 4
estações para o ponto final, com pessoas embarcando e desembarcando, surge um personagem
pedindo ajuda financeira para compra de remédios. O pseudo enfermo, após ser
interpelado pela fiscal do vagão, alegou que desconhecia a lei da proibição
desse ato e sentou-se atravessado em dois bancos fazendo cara de coitado. Meu
neto, levou um susto, correndo para ficar ao meu lado.
Ao chegarmos
ao ponto final, na Estação dos Barreiros, descemos para aguardar por 20 minutos
o retorno do espetáculo. Era o intervalo do filme. A sensação era um misto de
vitória, por ter chegado ao destino do passeio, ao mesmo tempo, de espanto por
assistir um trecho do filme com um cenário pobre e deteriorado. Quem é o
diretor desse filme? Quem são os cenógrafos? Dúvidas inevitáveis de quem vive e
assisti esse filme diariamente.
Embarcamos de
volta, junto com diversas pessoas e novos atores, cada qual vestindo seus
figurinos. Algumas com trajes de banho, outras bem tatuadas, uma variedade de
penteados, gente com sacolas na mão. Os mais jovens equipados para aproveitar
uma praia, não demonstravam preocupações com a condição do cenário. Os mais
velhos, aparentavam um semblante triste, com um olhar perdido, talvez
acostumados com esse visual de fundo, desprezavam uma alteração no enredo dessa
história.
Ao
retornarmos, após o desembarque e final do filme, meu neto comentou que gostou
do VLT, mas ficou incomodado com a pobreza do cenário, com o lixo que viu pelo
caminho, com os personagens assustadores no limite entre as duas cidades e o
aspecto degradado das residências em São Vicente.
São Vicente,
a primeira cidade do Brasil merece um cuidado maior, ainda que o seu orçamento
possa ser insuficiente para resolver questões estruturais. Acredito que falte
ao poder público trabalhar a informação, conscientização e propor a mudança
cultural dos seus habitantes, iniciando pelas escolas. Reunir arquitetos para
estimular alguns cuidados básicos em cada residência e, implantar um programa
de reciclagem do lixo.
Novembro 2023, Marcos A F Franco
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Narrativa interessante e informativa!
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