Outro dia,
ainda que sem sair de Santos, desembarquei em Portugal. Não foi sonho, não foi
imaginação, não foi filme, não foram fotos, nem mesmo alucinação. Foi sim uma
emoção.
Esse é um
raro momento de viajar sem malas, não tendo que se locomover de carro, ônibus,
avião ou navio. Você se transporta para um outro ponto do planeta,
inesperadamente, sem qualquer plano, aviso ou convite, simplesmente em um passe
de mágica.
A pedido do
Manequinho, reconhecido panificador da cidade, por telefone e sem me conhecer
pessoalmente, pediu-me para que levasse os convites de um evento, prometendo um
cafezinho.
Manequinho é
um empreendedor de sucesso que não perde o seu sotaque de origem madeirense,
muito simpático, gentil, de boa prosa, bom de memória, muito observador e de
estatura menor do que o seu coração. Ele é um gajo muito particular.
Logo que
cheguei, ao cumprimentá-lo, me perguntou: você é o Marcos? Era a primeira vez
que nos víamos. Ao mesmo tempo, também chegou Vasco, um outro português de
origem e maestro do Rancho Folclórico Verde Gaio.
Apesar da
minha descendência lusitana, fiquei em desvantagem no uso do dicionário nativo,
mas já me sentia viajando. Ambos, falavam sobre a terra dos navegadores como se
lá estivessem.
Quando chegou
o café, o Manequinho nos perguntou se apreciávamos uma bagaceira, a aguardente
portuguesa extraída das cascas das uvas. Eu e o Vasco, olhamos um para outro,
sem entender direito, mas dissemos que sim.
Após a nossa
anuência ele nos mostrou um pequeno tesouro pessoal, a réplica, em miniatura,
de um tanque de fermentação de uva em aço inoxidável, com o logotipo de
Portugal, adquirido em Ansião. Ansião, a cidade onde, segundo ele, a sua amada
esposa foi “feita”.
Ele, explicou
em detalhes, todo o processo de fabricação e de fermentação da bebida. Quase
que o café esfriou. Colocou um pouco da bagaceira em nossos cafés, adicionando
açúcar. Em seguida nos perguntou se tínhamos gostado. Ambos, eu e o Vasco,
falamos: é um licor, e dos bons!
Aprendi a
fazer esse delicioso licor de café quando viajei para Portugal durante um
inverno. Disse o Manequinho, muito orgulhoso. Lá o café da manhã era servido
dessa forma, para esquentar o corpo daquele frio terrível.
Foram 40
minutos de conversa que pareceram horas. O licor de café com bagaceira foi uma
novidade saborosa, mas a acolhida portuguesa foi muito mais doce que o licor.
Esses momentos,
simples materialmente, mas imensos espiritualmente, são combustíveis de
qualidade para seguirmos nossas vidas compartilhando o relacionamento pessoal.
São viagens
curtas e econômicas, mas profundas e ricas em conhecimento e de boas lembranças.
Agosto 2022, Marcos A F Franco

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