quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Um licor de café, lá da terrinha

Outro dia, ainda que sem sair de Santos, desembarquei em Portugal. Não foi sonho, não foi imaginação, não foi filme, não foram fotos, nem mesmo alucinação. Foi sim uma emoção.

Esse é um raro momento de viajar sem malas, não tendo que se locomover de carro, ônibus, avião ou navio. Você se transporta para um outro ponto do planeta, inesperadamente, sem qualquer plano, aviso ou convite, simplesmente em um passe de mágica.

A pedido do Manequinho, reconhecido panificador da cidade, por telefone e sem me conhecer pessoalmente, pediu-me para que levasse os convites de um evento, prometendo um cafezinho.

Manequinho é um empreendedor de sucesso que não perde o seu sotaque de origem madeirense, muito simpático, gentil, de boa prosa, bom de memória, muito observador e de estatura menor do que o seu coração. Ele é um gajo muito particular.

Logo que cheguei, ao cumprimentá-lo, me perguntou: você é o Marcos? Era a primeira vez que nos víamos. Ao mesmo tempo, também chegou Vasco, um outro português de origem e maestro do Rancho Folclórico Verde Gaio.

Apesar da minha descendência lusitana, fiquei em desvantagem no uso do dicionário nativo, mas já me sentia viajando. Ambos, falavam sobre a terra dos navegadores como se lá estivessem.

Quando chegou o café, o Manequinho nos perguntou se apreciávamos uma bagaceira, a aguardente portuguesa extraída das cascas das uvas. Eu e o Vasco, olhamos um para outro, sem entender direito, mas dissemos que sim.

Após a nossa anuência ele nos mostrou um pequeno tesouro pessoal, a réplica, em miniatura, de um tanque de fermentação de uva em aço inoxidável, com o logotipo de Portugal, adquirido em Ansião. Ansião, a cidade onde, segundo ele, a sua amada esposa foi “feita”.

Ele, explicou em detalhes, todo o processo de fabricação e de fermentação da bebida. Quase que o café esfriou. Colocou um pouco da bagaceira em nossos cafés, adicionando açúcar. Em seguida nos perguntou se tínhamos gostado. Ambos, eu e o Vasco, falamos: é um licor, e dos bons!

Aprendi a fazer esse delicioso licor de café quando viajei para Portugal durante um inverno. Disse o Manequinho, muito orgulhoso. Lá o café da manhã era servido dessa forma, para esquentar o corpo daquele frio terrível.

Foram 40 minutos de conversa que pareceram horas. O licor de café com bagaceira foi uma novidade saborosa, mas a acolhida portuguesa foi muito mais doce que o licor.

Esses momentos, simples materialmente, mas imensos espiritualmente, são combustíveis de qualidade para seguirmos nossas vidas compartilhando o relacionamento pessoal.

São viagens curtas e econômicas, mas profundas e ricas em conhecimento e de boas lembranças.

             Agosto 2022, Marcos A F Franco

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