DISCURSO DE POSSE
ASL – ACADEMIA SANTISTA DE LETRAS
“CASA DE MARTINS FONTES”
25/4/2023
Excelentíssimo Presidente ASL Eustázio Alves Pereira Filho
Estimado amigo Maurílio Tadeu de
Campos– meu padrinho
Estimada Vice-presidente da ASL Maria
Zilda Cruz
Estimado Governador do D4420 de
Rotary Antonio Henrique Medeiros Duarte
Estimada Secretária de Educação de
Santos Cristina Barleta
Estimado Presidente da Fundação de
Rotarianos de Santos Sérgio André
Minha família e meus maravilhosos amigos
É incrível!
Jamais imaginei, jamais sonhei estar
diante de tão distinta plateia proferindo um discurso de posse na Academia
Santista de Letras, para ocupar a cadeira de número 34, cujo patrono é Frei
Gaspar da Madre de Deus.
É um dia especial!
Sinto-me como um adolescente
iniciando uma faculdade e, ao mesmo tempo feliz em compartilhar de importantes
e significativos conhecimentos com os expoentes da literatura da nossa querida
cidade.
Tenho sorte. Espero retribuir todo
conhecimento que absorverei.
Quando fui incentivado a concorrer a
essa cadeira, levei um susto. O meu, então, futuro padrinho confirmou:
“Sim, é para você mesmo. Leia o
edital e prepare os documentos, você tem pouco tempo”.
Confesso que, por um instante, pensei
que ele estivesse brincando. Mas comecei a imaginar o porquê.
Fiz uma autoavaliação da minha vida de
escritor. Percebi, que desde pequeno a escrita foi minha grande companheira. Ainda,
um pré-adolescente organizei um jornal no grêmio estudantil da escola que
frequentava, o Ateneu Santista.
Já adulto, pouco antes de completar
18 anos, quando trabalhava em uma grande empresa de café, me foi confiado
cuidar da biblioteca cultural dos colaboradores.
E assim foi, em cada fase da minha
vida, sempre envolvido com livros, jornais e escrita. Então, fiquei mais
confiante e seguro em poder somar para a produção literária da Casa de Martins
Fontes.
É incrível!
Quero externar minha gratidão ao meu amigo
e, agora confrade padrinho, Maurílio Tadeu de Campos, à quem passei a admirar. Um
aficionado incansável das letras e da educação.
Ele, constantemente, insiste para que
eu escreva, me incentivando a produzir livros. Ele me convenceu a praticar mais
a escrita, abrindo uma porta que estava apenas entreaberta em minha mente. Provocou
a busca de palavras, sentenças e histórias que mexeram com as minhas emoções.
Sou muito grato. Muito obrigado.
É incrível!
Maurílio solicitou o meu currículo
para que pudesse fazer a minha apresentação. Muito embora ele tenha conseguido
dourá-la, o currículo ficou incompleto. Não foi culpa dele.
Eu não teria sido o que sou como
pessoa e, intelectualmente, sem uma boa formação familiar.
Esse alicerce, teve início quando um
jovem santista, com formação eclesiástica, resolveu mudar-se para a pequena Paraibuna,
no interior do Estado de São Paulo, para lecionar em uma escola. Lá, ele
conheceu uma linda jovem de origem rural, que jamais tinha visto e escutado o
mar.
Nasci em São José dos Campos, a
exatos 66 anos, completados no dia de hoje, quase um ano mais novo do que esta
casa. Residi em Paraibuna nos meus primeiros 5 anos de idade.
É incrível!
Fui batizado, pelo então bispo diocesano
Dom Edílio José Soares, reconhecido líder da Igreja e respeitado em todo País.
Ele foi um grande amigo do meu pai. Em uma de suas idas à Caraguatatuba ele
passou por Paraibuna realizando o primeiro sacramento que recebi, o meu
batizado.
Ainda sobre Dom Edílio, já com meus
10 anos de idade, em uma visita em que eu acompanhava o meu pai, ele me
perguntou o que eu gostaria de ser quando crescesse. Eu, então, rapidamente e
sem pestanejar respondi: quero ser Papa. Ele, naturalmente sorriu amavelmente e
afirmou: você terá que estudar muito.
Meu pai Oswaldo, filho de um
português motorneiro, frequentou seminários tendo estudado profundamente a
nossa língua e o latim, além de outras matérias do universo religioso. Foi funcionário
da justiça estadual e professor por 25 anos, de quem pude herdar o meu
interesse pela leitura e priorizar a educação em minhas ações profissionais e
pessoais.
Minha mãe Aurora foi sempre a nossa
luz, que como o seu nome sugere, é a claridade que aparece pouco antes do sol
nascer. Em latim significa amanhecer, o princípio da vida, a juventude ou a
infância. É assim que eu me sinto e construo os meus dias.
É incrível!
Ainda, descortinando a base do meu
currículo, destaco a família que construí: Adela, minha mulher e companheira dessa
longa jornada de 45 anos, sempre apoiando e lapidando nossos caminhos.
Acrescento também os nossos 2 filhos Dante e Bruno, as noras Rosana e Roberta e
os 3 netos Gael, Gabriel e Mateus, que são motivos de alegrias e orgulho.
Fortalecem o meu currículo também os
inúmeros amigos que conseguimos conquistar. Todos contribuíram intensamente para
o nosso sucesso.
À todos o meu muito obrigado.
É incrível!
Como puderam perceber, de certa forma
fui atraído ao nosso MAGNÍFICO Frei Gaspar da Madre de Deus, que empresta o seu
nome à cadeira 34 desta casa.
Nascido em São Vicente em 1715, com o
nome de Gaspar Teixeira de Azevedo e tendo falecido aos 85 anos, em Santos.
Sua vida foi um exemplo de
perseverança em busca do conhecimento. Foi também um valoroso guardião da Ordem
de São Bento. A mais antiga ordem religiosa católica de clausura monástica que
se baseia na observância dos preceitos destinados a regular a convivência
social.
Dentre outros objetivos, o de inserir
os mais vulneráveis no convívio da sociedade, a Ordem de São Bento, criada em
529 por São Bento de Núrsia, irmão gêmeo de Santa Escolástica, em Monte
Cassino, na Itália, promovia o ensino, mantendo escolas e bibliotecas ao lado
dos seus mosteiros espalhados pelo mundo. Foi um casamento perfeito com o jovem
Gaspar.
Posteriormente, o doutor em Teologia
e História, o monge beneditino Frei Gaspar foi um profundo estudioso tendo
contribuído com a Ordem de São Bento em importantes cidades brasileiras como
Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e especialmente em Santos, sempre
preocupado em guardar o arquivo da Ordem e desenvolver as bibliotecas.
Sua obra mais importante, publicada
em 1797 pela Academia Real de Ciências de Lisboa, da qual era sócio
correspondente, foi Memórias para a história da Capitania de S. Vicente, hoje
chamada de São Paulo.
Ouso afirmar que ele foi um grande
filósofo, tendo dialogado intensamente com as obras de Platão, como ficou
registrado em latim, em seu livro de aulas: Philosophia platonica seu
rationalem, naturalem et transnaturalem philosophiam sive logicam, physicam et
metaphysicam, com data de 1748.
Frei Gaspar será uma valiosa e rica
fonte de inspiração para a minha evolução nesta academia. Cuidarei para que as
chamas de seus exemplos e conhecimentos permaneçam acesas e provocando permanentemente
calor em todos nós.
É incrível!
Ocuparam a cadeira 34, desta
Academia, de Frei Gaspar da Madre de Deus, 3 personagens reconhecidos nesta
cidade e líderes em suas atividades:
O primeiro foi Cleóbulo Amazonas
Duarte, natural de Sergipe e intitulado Cidadão Santista. Foi um homem
eclético, tendo estudado e atuado nas áreas do Direito, Economia e Jornalismo.
Se destacou como professor, orador, escritor e poeta, tendo deixado diversas
obras, entre elas: "Pan e Vênus" (versos), "Circuito de
Agonia" (contos), "D. Pedro II" e "Atualidade de Rui
Barbosa".
Cleóbulo recebeu diversas comendas ao
longo de sua vida: Mérito de Tamandaré, Mérito Cultural Rui Barbosa, Diploma
Medalha de Amigo da Marinha, Medalha Cultural Imperatriz Leopoldina e Medalha
do Patriarca, além da Medalha Príncipe Albert concedida pelo Principado de
Mônaco. A cidade de Santos também o reconheceu cravando o seu nome em uma
escola pública estadual no bairro da Encruzilhada, em reconhecimento a sua
dedicação profissional.
Amazonas Duarte, como se
identificava, foi um homem muito respeitado e admirado, tendo sido homenageado
pelo Deputado Athiê Jorge Coury na Câmara dos Deputados Federal, quando
afirmou: “Amazonas Duarte foi o melhor presente humano que Sergipe enviou
para terra de Brás Cubas”.
O segundo a ocupar a cadeira 34 foi Gilberto
Marques de Freitas Guimarães, natural de Santos. Formado e, posteriormente
professor da Faculdade de Direito de Santos, exerceu a profissão de advogado, foi
vereador nesta cidade, tendo sido o autor da Lei Municipal que instituiu a
PRODESAN. Foi jornalista e colunista do jornal A Tribuna de Santos e do Jornal
A Cidade de Santos. Adorava escrever poemas e crônicas, tendo publicado o livro
de sonetos e poesias Rimas ao Vento, o qual revela sua grande sensibilidade.
Pude encontrar na sede da Academia
Santista de Letras alguns poemas que ele nos deixou datilografados e assinados.
Dentre elas destaco a primeira estrofe de São Paulo:
São Paulo, sinfonia de trabalho
Das forjas que incendeiam
madrugadas...
Acordes de fuligem nas calçadas
E beijos de carvão, nas mãos do
orvalho!
Nilson Denari, foi o terceiro
ocupante da cadeira 34. O conheci no Tenis Clube de Santos, tendo convivido com
ele: jogando tênis, nas conversas de mesa de bar ou o ouvindo tocar violão.
Ele, como eu, também foi rotariano, foi
um excelente profissional e reconhecido Cirurgião Dentista. Amava e era um
estudioso de sua profissão, tendo escrito 2 livros sobre ela, sendo um deles
“Boca – Espelho da Alma”.
Neste livro ele descreve suas
preocupações de sua profissão, desde o início da sua carreira, não recomendada
pelo seu pai, que também era dentista.
Ele aborda com muita propriedade
técnica e descritiva os conflitos emocionais de seus pacientes, que confluíam
para o mecanismo de formação de sintomas da patologia oral. Uma abordagem
psicossomática da Odontologia, através de escrita clara e sensível.
Exerceu a profissão por 50 anos de
forma intensa e encerra o seu livro dizendo:
“Se um dia eu morrer, morrerei de
tanto viver”.
Todos eles, o Dr Cleóbulo, o Dr
Gilberto e o Dr Denari, tinham em comum a generosidade, a sensibilidade, o amor
pelo magistério e pelas letras.
Fiquei feliz e orgulhoso em saber quem
foram os meus antecessores. Ao mesmo tempo preocupado e ansioso. Será um
desafio imenso honrar a cadeira 34.
É incrível!
Hoje, ao completar 66 anos, estou
adentrando em uma nova casa. A casa de José Martins Fontes, repleta de futuros
amigos especiais a quem sou, antecipadamente, grato.
Eu vejo a porta de entrada, mas não
consigo ver a dimensão desta casa. Não consigo mensurar, nem mesmo imaginar a
quantidade de sabedoria, de criatividade, de sensibilidade, de conhecimentos
guardados que pairam em cada canto dela.
Os mais novos, filhos dos arquivos em
nuvem e da inteligência virtual, talvez não consigam entender que os arquivos
desta casa são acessados e produzidos pelo coração, pela imaginação e pela
emoção. São poderosos.
O pouco tempo que tive para conhecer
esta casa, ainda na sua porta de entrada, me causa a sensação de que ela é
infinita. Me instiga, me provoca e me deixa tranquilo: sei que tem espaço e
compreensão para guardar obras diversas.
Martins Fontes foi apelidado por seus
colegas de faculdade como Cachoeira. Não devido ao seu sobrenome Fontes, que
não deixa de ser uma motivação, mas pela quantidade de ideias e trabalhos que
ele produzia.
Por emprestar seu nome a esta
Academia, com certeza continua inspirando a todos os frequentadores dela. Especialmente
a mim, ele já me tocou.
Ele que foi um homem curioso e
inquieto, acompanha, lá de cima, cada passo desta Academia, cada verso
produzido, cada poema divulgado, cada texto desenvolvido.
Ele, em seu conhecido soneto: Como É
Bom Ser Bom escreveu em sua última estrofe:
“E assim, tal qual a flor contém o
dom
De concentrar no aroma a suavidade
Da mesma forma, tu nasceste bom”.
Palavras de incentivo para um neófito
como eu. Uma verdadeira alquimia com as palavras desse notável poeta e escritor
santista. Um orgulho para nós.
Ele me provoca e, arrisco a dizer:
O Cachoeira jorra versos demasiado
Sua sublime sensibilidade, em
abundância
É fonte, é energia. Nos deixa concitado
É incrível!
Meus amigos, todos, estou orgulhoso,
sensibilizado, feliz e motivado.
Agradeço imensamente a acolhida, a
oportunidade e a confiança depositada. Espero retribuir valorizando a Academia
Santista de Letras. Afinal, além de vocês, minhas nobres confreiras e
confrades, serei observado por Martins Fontes, Frei Gaspar, Cleóbulo Amazonas,
Gilberto Guimarães e o Denari.
É incrível!
Muito obrigado a todos, pela presença
e paciência. Vocês me fortalecem.
Um forte e grande abraço.

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