terça-feira, 12 de setembro de 2023

Posse na ASL - Academia Santista de Letras



DISCURSO DE POSSE

ASL – ACADEMIA SANTISTA DE LETRAS

 “CASA DE MARTINS FONTES”

25/4/2023

 

Excelentíssimo Presidente ASL Eustázio Alves Pereira Filho

Estimado amigo Maurílio Tadeu de Campos– meu padrinho

Estimada Vice-presidente da ASL Maria Zilda Cruz

Estimado Governador do D4420 de Rotary Antonio Henrique Medeiros Duarte

Estimada Secretária de Educação de Santos Cristina Barleta

Estimado Presidente da Fundação de Rotarianos de Santos Sérgio André

Minha família e meus maravilhosos amigos

 

É incrível!

Jamais imaginei, jamais sonhei estar diante de tão distinta plateia proferindo um discurso de posse na Academia Santista de Letras, para ocupar a cadeira de número 34, cujo patrono é Frei Gaspar da Madre de Deus.

É um dia especial!

Sinto-me como um adolescente iniciando uma faculdade e, ao mesmo tempo feliz em compartilhar de importantes e significativos conhecimentos com os expoentes da literatura da nossa querida cidade.

Tenho sorte. Espero retribuir todo conhecimento que absorverei.

Quando fui incentivado a concorrer a essa cadeira, levei um susto. O meu, então, futuro padrinho confirmou:

“Sim, é para você mesmo. Leia o edital e prepare os documentos, você tem pouco tempo”.

Confesso que, por um instante, pensei que ele estivesse brincando. Mas comecei a imaginar o porquê.

Fiz uma autoavaliação da minha vida de escritor. Percebi, que desde pequeno a escrita foi minha grande companheira. Ainda, um pré-adolescente organizei um jornal no grêmio estudantil da escola que frequentava, o Ateneu Santista.

Já adulto, pouco antes de completar 18 anos, quando trabalhava em uma grande empresa de café, me foi confiado cuidar da biblioteca cultural dos colaboradores.

E assim foi, em cada fase da minha vida, sempre envolvido com livros, jornais e escrita. Então, fiquei mais confiante e seguro em poder somar para a produção literária da Casa de Martins Fontes.

 

É incrível!

Quero externar minha gratidão ao meu amigo e, agora confrade padrinho, Maurílio Tadeu de Campos, à quem passei a admirar. Um aficionado incansável das letras e da educação.

Ele, constantemente, insiste para que eu escreva, me incentivando a produzir livros. Ele me convenceu a praticar mais a escrita, abrindo uma porta que estava apenas entreaberta em minha mente. Provocou a busca de palavras, sentenças e histórias que mexeram com as minhas emoções. Sou muito grato. Muito obrigado.

 

É incrível!

Maurílio solicitou o meu currículo para que pudesse fazer a minha apresentação. Muito embora ele tenha conseguido dourá-la, o currículo ficou incompleto. Não foi culpa dele.

Eu não teria sido o que sou como pessoa e, intelectualmente, sem uma boa formação familiar.

Esse alicerce, teve início quando um jovem santista, com formação eclesiástica, resolveu mudar-se para a pequena Paraibuna, no interior do Estado de São Paulo, para lecionar em uma escola. Lá, ele conheceu uma linda jovem de origem rural, que jamais tinha visto e escutado o mar.

Nasci em São José dos Campos, a exatos 66 anos, completados no dia de hoje, quase um ano mais novo do que esta casa. Residi em Paraibuna nos meus primeiros 5 anos de idade.

 

É incrível!

Fui batizado, pelo então bispo diocesano Dom Edílio José Soares, reconhecido líder da Igreja e respeitado em todo País. Ele foi um grande amigo do meu pai. Em uma de suas idas à Caraguatatuba ele passou por Paraibuna realizando o primeiro sacramento que recebi, o meu batizado.

Ainda sobre Dom Edílio, já com meus 10 anos de idade, em uma visita em que eu acompanhava o meu pai, ele me perguntou o que eu gostaria de ser quando crescesse. Eu, então, rapidamente e sem pestanejar respondi: quero ser Papa. Ele, naturalmente sorriu amavelmente e afirmou: você terá que estudar muito.

Meu pai Oswaldo, filho de um português motorneiro, frequentou seminários tendo estudado profundamente a nossa língua e o latim, além de outras matérias do universo religioso. Foi funcionário da justiça estadual e professor por 25 anos, de quem pude herdar o meu interesse pela leitura e priorizar a educação em minhas ações profissionais e pessoais.

Minha mãe Aurora foi sempre a nossa luz, que como o seu nome sugere, é a claridade que aparece pouco antes do sol nascer. Em latim significa amanhecer, o princípio da vida, a juventude ou a infância. É assim que eu me sinto e construo os meus dias.

 

É incrível!

Ainda, descortinando a base do meu currículo, destaco a família que construí: Adela, minha mulher e companheira dessa longa jornada de 45 anos, sempre apoiando e lapidando nossos caminhos. Acrescento também os nossos 2 filhos Dante e Bruno, as noras Rosana e Roberta e os 3 netos Gael, Gabriel e Mateus, que são motivos de alegrias e orgulho.

Fortalecem o meu currículo também os inúmeros amigos que conseguimos conquistar. Todos contribuíram intensamente para o nosso sucesso.

À todos o meu muito obrigado.

É incrível!

Como puderam perceber, de certa forma fui atraído ao nosso MAGNÍFICO Frei Gaspar da Madre de Deus, que empresta o seu nome à cadeira 34 desta casa.

Nascido em São Vicente em 1715, com o nome de Gaspar Teixeira de Azevedo e tendo falecido aos 85 anos, em Santos.

Sua vida foi um exemplo de perseverança em busca do conhecimento. Foi também um valoroso guardião da Ordem de São Bento. A mais antiga ordem religiosa católica de clausura monástica que se baseia na observância dos preceitos destinados a regular a convivência social.

Dentre outros objetivos, o de inserir os mais vulneráveis no convívio da sociedade, a Ordem de São Bento, criada em 529 por São Bento de Núrsia, irmão gêmeo de Santa Escolástica, em Monte Cassino, na Itália, promovia o ensino, mantendo escolas e bibliotecas ao lado dos seus mosteiros espalhados pelo mundo. Foi um casamento perfeito com o jovem Gaspar.

Posteriormente, o doutor em Teologia e História, o monge beneditino Frei Gaspar foi um profundo estudioso tendo contribuído com a Ordem de São Bento em importantes cidades brasileiras como Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e especialmente em Santos, sempre preocupado em guardar o arquivo da Ordem e desenvolver as bibliotecas.

Sua obra mais importante, publicada em 1797 pela Academia Real de Ciências de Lisboa, da qual era sócio correspondente, foi Memórias para a história da Capitania de S. Vicente, hoje chamada de São Paulo.

Ouso afirmar que ele foi um grande filósofo, tendo dialogado intensamente com as obras de Platão, como ficou registrado em latim, em seu livro de aulas: Philosophia platonica seu rationalem, naturalem et transnaturalem philosophiam sive logicam, physicam et metaphysicam, com data de 1748.

Frei Gaspar será uma valiosa e rica fonte de inspiração para a minha evolução nesta academia. Cuidarei para que as chamas de seus exemplos e conhecimentos permaneçam acesas e provocando permanentemente calor em todos nós.

É incrível!

Ocuparam a cadeira 34, desta Academia, de Frei Gaspar da Madre de Deus, 3 personagens reconhecidos nesta cidade e líderes em suas atividades:

O primeiro foi Cleóbulo Amazonas Duarte, natural de Sergipe e intitulado Cidadão Santista. Foi um homem eclético, tendo estudado e atuado nas áreas do Direito, Economia e Jornalismo. Se destacou como professor, orador, escritor e poeta, tendo deixado diversas obras, entre elas: "Pan e Vênus" (versos), "Circuito de Agonia" (contos), "D. Pedro II" e "Atualidade de Rui Barbosa".   

Cleóbulo recebeu diversas comendas ao longo de sua vida: Mérito de Tamandaré, Mérito Cultural Rui Barbosa, Diploma Medalha de Amigo da Marinha, Medalha Cultural Imperatriz Leopoldina e Medalha do Patriarca, além da Medalha Príncipe Albert concedida pelo Principado de Mônaco. A cidade de Santos também o reconheceu cravando o seu nome em uma escola pública estadual no bairro da Encruzilhada, em reconhecimento a sua dedicação profissional.

Amazonas Duarte, como se identificava, foi um homem muito respeitado e admirado, tendo sido homenageado pelo Deputado Athiê Jorge Coury na Câmara dos Deputados Federal, quando afirmou: “Amazonas Duarte foi o melhor presente humano que Sergipe enviou para terra de Brás Cubas”.

O segundo a ocupar a cadeira 34 foi Gilberto Marques de Freitas Guimarães, natural de Santos. Formado e, posteriormente professor da Faculdade de Direito de Santos, exerceu a profissão de advogado, foi vereador nesta cidade, tendo sido o autor da Lei Municipal que instituiu a PRODESAN. Foi jornalista e colunista do jornal A Tribuna de Santos e do Jornal A Cidade de Santos. Adorava escrever poemas e crônicas, tendo publicado o livro de sonetos e poesias Rimas ao Vento, o qual revela sua grande sensibilidade.

Pude encontrar na sede da Academia Santista de Letras alguns poemas que ele nos deixou datilografados e assinados. Dentre elas destaco a primeira estrofe de São Paulo:

 

São Paulo, sinfonia de trabalho

Das forjas que incendeiam madrugadas...

Acordes de fuligem nas calçadas

E beijos de carvão, nas mãos do orvalho!

 

Nilson Denari, foi o terceiro ocupante da cadeira 34. O conheci no Tenis Clube de Santos, tendo convivido com ele: jogando tênis, nas conversas de mesa de bar ou o ouvindo tocar violão.

Ele, como eu, também foi rotariano, foi um excelente profissional e reconhecido Cirurgião Dentista. Amava e era um estudioso de sua profissão, tendo escrito 2 livros sobre ela, sendo um deles “Boca – Espelho da Alma”.

Neste livro ele descreve suas preocupações de sua profissão, desde o início da sua carreira, não recomendada pelo seu pai, que também era dentista.

Ele aborda com muita propriedade técnica e descritiva os conflitos emocionais de seus pacientes, que confluíam para o mecanismo de formação de sintomas da patologia oral. Uma abordagem psicossomática da Odontologia, através de escrita clara e sensível.

Exerceu a profissão por 50 anos de forma intensa e encerra o seu livro dizendo:

“Se um dia eu morrer, morrerei de tanto viver”.

 

Todos eles, o Dr Cleóbulo, o Dr Gilberto e o Dr Denari, tinham em comum a generosidade, a sensibilidade, o amor pelo magistério e pelas letras.

Fiquei feliz e orgulhoso em saber quem foram os meus antecessores. Ao mesmo tempo preocupado e ansioso. Será um desafio imenso honrar a cadeira 34.

 

É incrível!

Hoje, ao completar 66 anos, estou adentrando em uma nova casa. A casa de José Martins Fontes, repleta de futuros amigos especiais a quem sou, antecipadamente, grato.

Eu vejo a porta de entrada, mas não consigo ver a dimensão desta casa. Não consigo mensurar, nem mesmo imaginar a quantidade de sabedoria, de criatividade, de sensibilidade, de conhecimentos guardados que pairam em cada canto dela.

Os mais novos, filhos dos arquivos em nuvem e da inteligência virtual, talvez não consigam entender que os arquivos desta casa são acessados e produzidos pelo coração, pela imaginação e pela emoção. São poderosos.

O pouco tempo que tive para conhecer esta casa, ainda na sua porta de entrada, me causa a sensação de que ela é infinita. Me instiga, me provoca e me deixa tranquilo: sei que tem espaço e compreensão para guardar obras diversas.

Martins Fontes foi apelidado por seus colegas de faculdade como Cachoeira. Não devido ao seu sobrenome Fontes, que não deixa de ser uma motivação, mas pela quantidade de ideias e trabalhos que ele produzia.

Por emprestar seu nome a esta Academia, com certeza continua inspirando a todos os frequentadores dela. Especialmente a mim, ele já me tocou.

Ele que foi um homem curioso e inquieto, acompanha, lá de cima, cada passo desta Academia, cada verso produzido, cada poema divulgado, cada texto desenvolvido.

Ele, em seu conhecido soneto: Como É Bom Ser Bom escreveu em sua última estrofe:

“E assim, tal qual a flor contém o dom

De concentrar no aroma a suavidade

Da mesma forma, tu nasceste bom”.

Palavras de incentivo para um neófito como eu. Uma verdadeira alquimia com as palavras desse notável poeta e escritor santista. Um orgulho para nós.

Ele me provoca e, arrisco a dizer:

O Cachoeira jorra versos demasiado

Sua sublime sensibilidade, em abundância

É fonte, é energia. Nos deixa concitado

 

É incrível!

Meus amigos, todos, estou orgulhoso, sensibilizado, feliz e motivado.

Agradeço imensamente a acolhida, a oportunidade e a confiança depositada. Espero retribuir valorizando a Academia Santista de Letras. Afinal, além de vocês, minhas nobres confreiras e confrades, serei observado por Martins Fontes, Frei Gaspar, Cleóbulo Amazonas, Gilberto Guimarães e o Denari.

 

É incrível!

Muito obrigado a todos, pela presença e paciência. Vocês me fortalecem.

Um forte e grande abraço.

 

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