segunda-feira, 18 de setembro de 2023

O Profissional

 


Há pessoas competentes e pessoas que parecem ir além.

Há pianistas que tocam com comprovada competência, sem errar uma nota sequer, e há pianistas que transformam sua arte em algo provido de alma, e estes estão além da competência. O mesmo acontece em todas as profissões.

No clássico filme Amadeus, Salieri, o compositor oficial da corte, apresenta sua última obra ao rei, que a aprova. Na sequência, aparece Mozart interpretando a mesma música, agora com “alma”, muito além do que as notas pareciam transmitir. É um momento mágico, de rara beleza e que impressiona pela diferença entre as duas interpretações.

O moderno mundo competitivo ainda premia as pessoas competentes, aquelas capazes de competir. No entanto, competitividade deixou de ser o último paradigma a partir do momento em que suas regras foram inteiramente interpretadas, o que provocou o aparecimento de uma imensa legião de profissionais formados pelas escolas, pelas especializações e pela própria sociedade, profissionais guerreiros pós-modernos agressivos, combativos e competitivos.

Às vezes esquecemos que profissionais são pessoas, e não componentes de engrenagens como deseja a arcaica e velha lógica da revolução industrial.

É verdade que as empresas estão se voltando para a seleção de colaboradores com fortes qualidades pessoais e que os profissionais liberais mais procurados – entre eles médicos, dentistas, advogados, terapeutas, arquitetos e prestadores de serviços – são justamente os que aliam sólida formação técnica com evidentes qualidades humanas.

É também verdade que o modelo educacional adotado em nosso país começa a fazer essa correção de rumo buscando formar pessoas, e não mais apenas informá-las. O investimento em pessoas, por parte de escolas, empresas ou do estado, sempre terão um retorno, não apenas em termos de produtividade, mas também em termos individuais e sociais.

Na maioria das funções, os melhores profissionais são também as melhores pessoas. E a responsabilidade é de cada um. Os patrulheiros mirins são provas incontestes.

Em um estudo encomendado e publicado pela revista Você S/A, da editora abril, surgiu um dado inquietante: 87% das demissões ocorrem por deficiências humanas, e não por deficiências técnicas.

Entre essas deficiências, encontram-se aspectos comportamentais como: dificuldade de comunicação, de convivência, de organização, de aceitar liderança, de administrar conflitos, impontualidade, procrastinação, desinteresse, falta de percepção, despreocupação com a inovação e recusa ao comprometimento. Falta, principalmente, a capacidade de ir além do convencional.

O curioso é que 80% dos demitidos descarregam a culpa na própria empresa ou em pessoas com as quais conviveram, especialmente as chefias imediatas, e quando assumem a própria incompetência referem-se à de origem técnico-profissional, e não pessoal, ou humana. Falta-lhes percepção da realidade.

Temos ainda em nosso país, a herança colonial manifestada pelo “jeitinho brasileiro”, pelo tipo “boa-praça”, pelo “amigo do peito”, pelo “compadrismo”, pelo “coronelismo” e pelo “nepotismo” que desconsidera a competência profissional, ou minimiza para ser mais sutil, em nome de atributos pessoais bastante discutíveis.

O intelectual americano Ralph Waldo Emerson combinou as ideias do iluminismo e do romantismo europeu com as ideias progressistas do novo mundo. Criou um pensamento singularmente americano, prático, realista, mas sem abandonar o humanismo. Uma frase atribuída a ele diz: “Quem você é fala tão alto que não consigo ouvir o que você está dizendo”.

Esta mudança de tempo que marca o início do século XXI é caracterizada pelo encontro harmonioso das conquistas tecnológicas do último século, especialmente a informática, com um novo homem, mais humano, mais educado, mais sensível, mais saudável, mais ético, mais ecológico.

As empresas e a sociedade desejam bons profissionais e que também sejam boas pessoas. Diplomas são importantes, mas não substituem qualidades humanas. Formação acadêmica e habilidade técnica são fundamentais, mas caráter e personalidade falam mais alto. Diz ainda Emerson: “Todo homem é uma divindade disfarçada”

Que as pessoas vistam sua roupagem de divindades e evoluam espiritualmente (no sentido amplo, laico);

Que não abandonem a lógica, mas abram espaço para a poética;

Que sejam Apolo e Dionísio convivendo em corpos saudáveis;

Que a inteligência seja mais abrangente, multifocada;

Que a sensibilidade se alie à intelectualidade;

Que a flexibilidade acompanhe a especialização;

Que o humanismo seja a grande vantagem competitiva.

Outro poeta da língua inglesa, o irlandês William Butler Yeats, teve uma inspiração muito feliz a respeito desse tema tão sutil, quase intangível. Em sua bem-acabada obra romântica, há uma frase que imprime um novo tom ao pensamento de todos aqueles que procuram aprimorar seu trabalho e sua vida: “é a mim que corrijo ao retocar minhas obras...”

Como acontece com a arte, o resultado de qualquer trabalho representa o espírito daquele que o produziu. Yeats diz que não se incomodava em refazer o que havia feito anteriormente com a finalidade de obter um resultado melhor. E, na verdade ao aprimorar seu trabalho estava aprimorando a si mesmo.

Ele tinha razão. Temos de evoluir sempre, e podemos conseguir isso procurando melhorar o que fazemos. Não somos medidos pelo resultado de um ato isolado e sim pelos resultados que obtemos continuamente.

Um toque de gênio em uma rotina diária medíocre não garante mais o emprego nem o sucesso de ninguém. Regularidade está na ordem do dia, tanto quanto excelência. Inclusive regularidade no crescimento profissional e pessoal.

Não é preciso ser um grande poeta para corrigir a si mesmo ao retocar suas obras, se tivermos consciência de que podemos aplicar mais de nós mesmos em tudo o que fazemos, teremos dado um grande passo em direção a nosso desenvolvimento pessoal e profissional.

Profissionais competentes são pessoas criativas, comunicativas, gregárias, estudiosas, comprometidas, visionárias, felizes, líricas...

Líricas, porque lirismo é a maneira apaixonada de sentir e de viver, geralmente manifestada por meio da poesia. Mas o lirismo pode ser representado pelo entusiasmo, pelo ardor, pela motivação, pelo idealismo, qualidades do empreendedor, daquele que muda o mundo, o mundo que o envolve, a partir da mudança de seu mundo interior.

Ainda sobre o lirismo, e citando o brasileiríssimo Manuel Bandeira, pernambucano culto e inspirado, que teve uma visão particular da utopia e a registrou em: “vou-me embora pra Pasárgada”. Em seu poema “poética”, diz: “Estou farto do lirismo comedido/Do lirismo bem-comportado/Do lirismo funcionário público com livro de ponto, expediente, protocolo e manifestações de apreço ao sr. Diretor”.

E termina dizendo, como que na ânsia de romper barreiras, quebrar paradigmas, voar com a imaginação, criar mundos, descobrir, inventar, formular, desenvolver, sonhar e realizar, portanto, libertar: “Não quero mais saber do lirismo que não é libertação”.

Companheiros, acredito no Rotary como uma fonte de inspiração para os profissionais éticos e competentes, como incentivo ao aprimoramento profissional e sobretudo como um grande propulsor do desenvolvimento humano.

Parabéns a todos os profissionais. 

Outubro 2008, Marcos A F Franco Empresário Diretor da ADASP

Texto baseado no livro de Eugênio Mussak, Metacompetência.






Nenhum comentário:

Postar um comentário

Cego, Surdo e Bem-casado

Enquanto caminhava na esteira da academia, ouvi de um personal trainer uma afirmação curiosa: “O casamento afeta os sentidos, especialmente ...