Era um dia de vendaval. Buscando me
proteger, corri para casa como uma criança, como quem retorna ao colo materno
em busca de um porto seguro. O vento forte e implacável, assobiava triste pelas
frestas, as portas batiam, o lustre dançava no teto e os papéis da mesa
deslizavam pelo chão como crianças brincando no jardim.
O pequeno vaso de orquídea vermelha, tombado
sobre a mesa da sala, deixava escorrer sua terra seca, suplicando por cuidado.
As luzes apagadas desenhavam um vazio incomum. O bule de café, já frio, repousava
em cima da mesa da cozinha, ao lado de uma xícara solitária — sinal de que ela
me esperava para juntos saborearmos o bolo de fubá.
Mas ela não estava. O coração disparou. Gritei
seu nome, bati com ansiedade à porta do banheiro, mas o silêncio respondeu. Ao abri-la,
apenas a toalha pendurada, imóvel, como se guardasse um segredo. A inquietação
crescia dentro do meu peito.
Era como viver um pesadelo, correndo
desenfreado atrás de alguém que nunca alcanço. No quarto, janelas fechadas, sua
cama impecavelmente arrumada, roupas nos cabides, mas ela não estava lá.
O sentimento era como chegar à estação
de trem segundos após a partida dele. O vazio espalhou-se pelo meu corpo ao
imaginar que ela, principal testemunha da minha história, partira.
Sentei-me em sua cama, respirei fundo e
deixei que as lágrimas caíssem. Cada gota lembrava os 68 anos de convivência
com minha mãe. Menina valente da roça, de um cantinho do interior, apaixonada por
um professor, transformou sua vida ao decidir constituir uma linda família.
Levantei-me, ainda carregando esse
aperto no peito. Fechei a janela da sala, recolhi os papéis do chão, ergui o
vaso de orquídea e reguei sua terra seca. Fui à cozinha, aqueci o bule,
sentei-me à mesa e, como se ela estivesse ali, cortei um pedaço do bolo de
fubá, bebi o último café que ela preparou e sorri dessa doce lembrança.
Enquanto esperava o vento passar,
imaginando seus olhos azuis me olhando com ternura, recordei com orgulho seus
ensinamentos, gestos de carinho, de sua coragem, determinação e dos alicerces da
família que ela construiu.
Quando seus pais escolheram o nome
Aurora, talvez já pressentissem: ela nasceu para iluminar nossas vidas, clarear
nossos dias antes mesmo do sol chegar. E assim, mesmo na ausência, sua presença
floresce. Ela constituiu uma família que se multiplica em filhos, netos e
bisnetos, espalhando sementes de afeto, valores e esperança.
O vento pode soprar forte, mas jamais
apagará a luz que ela acendeu em nossos corações.
Novembro 2025
Marcos A F Franco
Publicado no Jornal A Tribuna de Santos 16/11/2025


