segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Luz Que o Vento Não Apaga

Era um dia de vendaval. Buscando me proteger, corri para casa como uma criança, como quem retorna ao colo materno em busca de um porto seguro. O vento forte e implacável, assobiava triste pelas frestas, as portas batiam, o lustre dançava no teto e os papéis da mesa deslizavam pelo chão como crianças brincando no jardim.

O pequeno vaso de orquídea vermelha, tombado sobre a mesa da sala, deixava escorrer sua terra seca, suplicando por cuidado. As luzes apagadas desenhavam um vazio incomum. O bule de café, já frio, repousava em cima da mesa da cozinha, ao lado de uma xícara solitária — sinal de que ela me esperava para juntos saborearmos o bolo de fubá.

Mas ela não estava. O coração disparou. Gritei seu nome, bati com ansiedade à porta do banheiro, mas o silêncio respondeu. Ao abri-la, apenas a toalha pendurada, imóvel, como se guardasse um segredo. A inquietação crescia dentro do meu peito.

Era como viver um pesadelo, correndo desenfreado atrás de alguém que nunca alcanço. No quarto, janelas fechadas, sua cama impecavelmente arrumada, roupas nos cabides, mas ela não estava lá.

O sentimento era como chegar à estação de trem segundos após a partida dele. O vazio espalhou-se pelo meu corpo ao imaginar que ela, principal testemunha da minha história, partira.

Sentei-me em sua cama, respirei fundo e deixei que as lágrimas caíssem. Cada gota lembrava os 68 anos de convivência com minha mãe. Menina valente da roça, de um cantinho do interior, apaixonada por um professor, transformou sua vida ao decidir constituir uma linda família.

Levantei-me, ainda carregando esse aperto no peito. Fechei a janela da sala, recolhi os papéis do chão, ergui o vaso de orquídea e reguei sua terra seca. Fui à cozinha, aqueci o bule, sentei-me à mesa e, como se ela estivesse ali, cortei um pedaço do bolo de fubá, bebi o último café que ela preparou e sorri dessa doce lembrança. 

Enquanto esperava o vento passar, imaginando seus olhos azuis me olhando com ternura, recordei com orgulho seus ensinamentos, gestos de carinho, de sua coragem, determinação e dos alicerces da família que ela construiu. 

Quando seus pais escolheram o nome Aurora, talvez já pressentissem: ela nasceu para iluminar nossas vidas, clarear nossos dias antes mesmo do sol chegar. E assim, mesmo na ausência, sua presença floresce. Ela constituiu uma família que se multiplica em filhos, netos e bisnetos, espalhando sementes de afeto, valores e esperança.

O vento pode soprar forte, mas jamais apagará a luz que ela acendeu em nossos corações.


Novembro 2025

Marcos A F Franco

             Publicado no Jornal A Tribuna de Santos 16/11/2025

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

A Liderança que Constrói


         Às vezes, encontro pessoas que assumem cargos de liderança antes mesmo de perceber o quão transformadora essa jornada pode ser. Para alguns, parece fácil desempenhá-la, enquanto outros descobrem desafios grandiosos — são caminhos preciosos, que nos convida a crescer e nos reinventar.

A liderança é muito mais do que ocupar um cargo ou exercer autoridade; é uma arte que transforma ambientes, pessoas e resultados. Ela combina habilidades interpessoais e visão estratégica. O líder é aquele que constrói, inspira e guia sua equipe rumo ao sucesso, agindo como uma bússola e motivando. Liderar é, acima de tudo, influenciar positivamente, promovendo crescimento e realização coletiva.

Um dos segredos para exercer a liderança de forma memorável é saber delegar. Muitos líderes cometem o erro de centralizar tarefas, o que limita o potencial da equipe e leva ao esgotamento. Delegar não significa abandonar responsabilidades, mas sim confiar nos colaboradores, oferecendo autonomia e oportunidades de desenvolvimento. Essa confiança mútua fortalece o grupo e permite ao líder focar em questões estratégicas, ampliando o impacto de sua atuação.

Outro aspecto essencial é o ambiente de trabalho. O líder eficaz cria um espaço seguro, inclusivo e estimulante, onde todos compartilham ideias, aprendem com os erros e crescem. Esse ambiente favorece a sintonia da equipe, promovendo colaboração e harmonia. O líder atua como maestro, potencializando resultados.

O exemplo é o cerne da liderança. Mais do que palavras, são as atitudes que inspiram. O líder deve ser o primeiro a praticar os valores e a ética que espera dos outros, demonstrando integridade, dedicação e resiliência, especialmente em momentos de crise. Essa postura confere autoridade moral e serve de referência para a equipe.

Dar direção e propósito ao trabalho é outro papel fundamental do líder. As pessoas precisam entender o significado do que fazem e como suas ações contribuem para objetivos maiores. Quando o propósito é claro e inspirador, a motivação cresce e o engajamento se fortalece. O líder eficaz conecta tarefas cotidianas à missão da organização, transformando o “o quê” e o “como” no “porquê”.

Por fim, liderar é inspirar. A inspiração é a chama que desperta paixão e excelência, alimentada pelo carisma e pela capacidade de se conectar genuinamente com as pessoas. O líder inspirador comunica sua visão com entusiasmo, faz cada indivíduo se sentir valorizado e parte de algo grandioso, transformando seguidores em embaixadores.

Em resumo, a liderança é uma jornada contínua de autodesenvolvimento e serviço, onde o maior sucesso é o crescimento e a realização da equipe.

Marcos A F Franco

Outubro 2025


Do Troco do Pão ao Tesouro Pessoal

Tudo começou em uma mercearia antiga de cidade pequena, onde bar, padaria, restaurante e mercado se integravam. O aroma da corda de fumo se misturava ao do café. Eu, ainda criança, ia comprar pão para as tias, usando calças curtas. Foi ali que aprendi as primeiras lições sobre dinheiro.

É nesse ambiente, com a cédula amassada na mão da criança, que se planta a semente de uma vida adulta mais próspera. Ensinar crianças a lidarem com o dinheiro não é para transformá-las em mini investidores, mas em cidadãos conscientes e preparados para o futuro.

Robert Kiyosaki em "Pai Rico, Pai Pobre", ensina a diferença, entre ativos e passivos, a fazer o dinheiro trabalhar para nós. Para uma criança, isso pode ser assim: se ela gasta R$ 5,00 no pão, esse dinheiro desaparece (passivo). Mas se ela guarda R$ 1,00 desses R$ 5,00 no cofrinho para comprar algo maior depois (ativo), a história muda. O cofrinho se torna uma poupança promissora na mente infantil. Cada dinheiro que ela coloca dentro dele é uma conquista. Seja ele uma lata decorada, um porquinho ou mesmo uma conta bancária.

George S. Clason, em "O Homem Mais Rico da Babilônia" ensina a regra de ouro: “pague a si primeiro”. Se ensinarmos a criança a separar dez por cento de qualquer dinheiro que ganhe, ela terá um futuro melhor.

A matemática lúdica e prática de Malba Tahan, em "O Homem que Calculava", mostra que as contas podem ser divertidas e úteis. A ida à padaria é um laboratório: o pão custa R$ 1,50. Se tenho R$ 5,00, quanto sobra de troco? Se comprar dois pães, dá para comprar uma bala? É o cálculo em ação! É matemática na realidade!

Mais do que apenas dar o troco exato ou comprar o que se deseja imediatamente, a educação financeira para crianças ensina a ter paciência e planejar. Se a criança economiza o troco do pão por uma semana, ela pode comprar a figurinha ou o brinquedo que tanto quer, em vez de gastar em algo impulsivo. Assim, aprende a esperar e valorizar o dinheiro como um recurso que cresce e realiza sonhos.

Não se trata de criar gênios das finanças, mas de libertar a próxima geração das armadilhas da dívida e do consumo por impulso. As lições da padaria, do cofrinho e do planejamento são a base para que, no futuro, esses pequenos compradores de pão construam suas próprias Babilônias. A semente de um futuro financeiro saudável é plantada desde criança, muitas vezes, no cheiro do pão quentinho!


Marcos A F Franco

Outubro 2025

             Publicado no Jornal A Tribuna de Santos em 01/01/2026

Cego, Surdo e Bem-casado

Enquanto caminhava na esteira da academia, ouvi de um personal trainer uma afirmação curiosa: “O casamento afeta os sentidos, especialmente ...