sexta-feira, 25 de julho de 2025

Quando os Segredos Ainda Brincam

 

Eu tenho um segredo no meu bolso!

Foi assim que Mateus, meu neto — o pequeno falador — rompeu o silêncio dentro do carro. Todos ficamos curiosos. Ele é instigante por natureza.

Estávamos voltando da casa dos bisavós, após celebrar os 91 anos do biso.

— É um elefante? — arrisquei.

— Claro que não — respondeu ele, com um sorrisinho.

— É um chiclete mastigado?

— Também não, vovô.

Sua mãe, também rendida à curiosidade, entrou na brincadeira. — Então dá uma pista... como ele é?

— É um retângulo — disse, com solenidade.

— Ah! Então é uma caixa de fósforo usada? — insisti.

— Não, e nem caberia no seu bolso! — retrucou.

— É um papel?

— Não é.

Então, ele nos deu uma dica preciosa:

— Todos vocês gostam muito do que está no meu bolso.

Sua avó, certeira, arriscou:

— É dinheiro!

Ele ficou em silêncio, com aquele ar de quem foi pego.

Um pouco tímido, revelou:

— Ganhei da bisa! — e completou:

— O presente do Gabriel — seu irmão — está no meu outro bolso...

Segredo em dose dupla.

Mateus tem essa coisa de não conseguir guardar segredos por muito tempo. Lembro de um almoço, tempos atrás, quando contei a ele — só entre nós — que sua outra avó era um pouquinho tagarela. Pedi que não contasse para ninguém.

Minutos depois, ele se aproximou da mãe, e, como quem carrega uma joia rara, sussurrou no ouvido dela...
Mais um segredo revelado com todo o cuidado do mundo.

Segredos infantis têm prazo de validade curta, mas são sempre emocionantes.

Lembro da professora perguntando à turma:

— Quem jogou essa bolinha de papel?

Todos sabiam, mas o silêncio cúmplice era absoluto.
Ou então o clássico: confidenciar ao melhor amigo que gostava de uma certa menina — e no dia seguinte, todos sabiam. Em casa, os pais escondiam presentes para o Dia das Mães, contando apenas aos filhos. Mas dificilmente o segredo chegava intacto até a data.

Com o tempo, os segredos crescem. Ficam mais densos, mais sérios.
Alguns viram confidências. Outros, pesos. Há os que, se revelados, ferem.
E há aqueles que, se guardados, sufocam.

Crescer é complicado.

Mas... e o segredo de se manter criança? Talvez esse seja o grande mistério da vida. Talvez o segredo esteja em não guardar segredos.

Guarde esse segredo.

Abril 2025, Marcos A F Franco

Publicado no Jornal A Tribuna de Santos em 25/04/2025

O Valor do Primeiro Emprego


           Qual o melhor momento para o primeiro emprego?

Duvido que haja uma resposta exata. Muitas vezes, é a necessidade que nos empurra: falta de dinheiro, desejo de independência, vontade de aprender, pressão dos amigos. Alguns seguem um caminho tradicional — escola, faculdade, carreira. Outros, sem condições financeiras, trabalham para sustentar os estudos. Há também quem precise fazer bicos apenas para sobreviver ou ajudar a família. São muitas as realidades que a vida nos impõe.

Independentemente do motivo, iniciar cedo no mundo do trabalho é sempre enriquecedor. Mesmo atividades que não têm relação direta com a profissão desejada proporcionam aprendizados e relacionamentos valiosos para o futuro.

Aos 15 anos, decidi buscar um emprego, sem saber ainda qual carreira seguir. Queria ser independente. Talvez por ver meu pai, que chegou a ter quatro empregos — professor e escrevente na Justiça — sempre tão ativo. Foi ele quem me contou sobre uma vaga de office boy em um escritório de contabilidade. Transferi minhas aulas para a noite e comecei a trabalhar.

Foi uma mudança enorme para um garoto. Precisei aprender a respeitar horários, superiores, clientes e tarefas. O mundo se abriu diante de mim como se eu enxergasse através de um binóculo.

Minha primeira tarefa foi furar papéis para arquivamento. Quando o patrão perguntou se eu sabia, respondi que sim — com a segurança típica da juventude. Mas ao ver meu trabalho, ele corrigiu gentilmente: “Você não dobrou a folha para achar o centro. Assim, os furos ficam alinhados.” Nunca mais esqueci essa lição.

Passei a observar atentamente os colegas mais experientes. Cada detalhe era uma oportunidade de aprendizado. Com o tempo, tive outros empregos, até me formar em Administração de Empresas. Cada experiência me trouxe conhecimento, amigos e crescimento — e abriu portas para cargos importantes, até eu fundar minha própria empresa.

Percebi, ao longo da vida, que os vencedores são aqueles que geram valor para a comunidade por meio do seu trabalho. Por isso, quanto antes você se envolver com o mundo profissional — seja por emprego, estágio ou atividade informal —, menos dependerá da sorte. Seu diferencial estará no que você sabe, no que viveu e nas conexões que construiu.

O primeiro emprego fortalece a autoestima para a busca de uma colocação desejada e adequada ao seu perfil. E, um dia, você sentirá orgulho de contar sua história.

Junho 2025, Marcos A F Franco

Publicado no Jornal A Tribuna de Santos em 18/6/2025

Cego, Surdo e Bem-casado

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