quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Mente acumulada


 

Um amigo se desculpou por uma grosseria que teria cometido. Ele explicou que estava com a cabeça quente, sobrecarregado de trabalho, preocupado com questões familiares, frustrado com questões pessoais e que sua vida estava uma loucura.

No mesmo instante, lembrei-me do Zé dos papéis, que conheci há tempos. Ele morava em uma pequena cidade do interior paulista. Quando entrei em sua sala de visitas, senti-me em um grande depósito de papéis. Ele acumulava revistas e jornais. Era impossível enxergar a mesa, as cadeiras e o sofá da sala. Eram pilhas e mais pilhas que atingiam à metade da altura do teto.

O ambiente cheirava a mofo, com alguns papéis úmidos, todos eles sendo consumidos pelas baratas, ratos e outros insetos.

É difícil entender como um alguém consegue chegar a esse ponto. Ele era um acumulador compulsivo, um verdadeiro juntador de objetos, que mantinha independentemente de seu valor real, mesmo não sendo um colecionador.  Tinha dificuldades para descartar ou separar-se de seus pertences, guardando tudo de forma desorganizada e sem a preocupação de encontrá-los posteriormente.

Imaginei a situação da mente do meu amigo com seus inúmeros problemas. Enquanto o Zé dos papéis acumulava muitas coisas palpáveis, meu amigo acumulava preocupações intangíveis.

Quanto peso existia em sua cabeça, dificultando o seu dia a dia? É impossível quantificar o espaço ocupado no seu cérebro, afetando, por vezes, até o seu coração.

Se a mente do meu amigo estivesse como a sala do Zé dos papéis, seria difícil para ele discernir seus problemas. Como ele poderia qualificar suas preocupações entre pequenas e simples e grandes e complexas. Todas juntas e desordenadas pareciam iguais. Seu cérebro já estava lotado. Se fosse um computador, precisaria de mais memória, o que é impossível

Certa vez, ouvi de um filósofo da vida, um senhor com seus 80 anos de experiência, que disse: “se o seu problema tem solução, para que se preocupar? E se o seu problema não tem solução, para que se preocupar?”

É como estar em pleno voo em um avião. A partir do momento que você opta por embarcar, você não tem mais controle sobre os problemas. Como passageiro, você não pode ajudar se ocorrer alguma pane.

Acumular preocupações impossíveis de serem solucionadas, raivas, decepções, rancores pessoais, frustrações e lembranças tristes, é como acumular coisas em sua sala de visitas. A quantidade de problemas absorvidos e não resolvidos gerará uma bagunça mental, dificultando suas decisões e afetando seu bem-estar. Isso criará uma fadiga que comprometerá a resistência do seu corpo.

As tristezas não podem ocupar mais espaço em nosso cérebro do que as alegrias. Nossos armários não são de elásticos, assim como nosso cérebro. Acumule boas lembranças. Trabalhe para produzi-las, pois são leves. Construa sua história de vida por boas estradas.

Armazene em sua memória somente o que você gosta. A vida é curta, aproveite-a. O amor é raro, agarre-o. A raiva é ruim, jogue-a fora. O medo é ridículo, enfrente-o. Memórias são doces, saboreie-as. Acumule alegrias.

Outubro 2024

Marcos A F Franco

Publicada no Jornal A Tribuna de Santos em 21/1/2025 e no Boletim do RC Corregidor de La Molina - Lima - Peru em 25/1/2025

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Macacos assaltantes de Kuala


 

Em geral, todos nós fugimos de assaltantes. Em Kuala Lumpur, na Malásia, é o oposto, o povo vai ao encontro deles. Eles são considerados sagrados pelos hindus. Ninguém pode contestá-los, ou mesmo bani-los.

Estou falando dos macacos que vivem ao redor da Batu Caves. Esse local abriga três grandes cavernas, cada uma delas com um templo sagrado, existentes há 400 milhões de anos. Uma vez por ano recebe pouco mais de 1 milhão de pessoas para o Festival Hindu Thaipusam.

Ao chegar nesse lugar imenso, avista-se da sua entrada uma grande estátua dourada de 43 metros de altura do Deus hindu Murugan. Ao seu lado esquerdo está uma escadaria com 272 degraus estreitos e coloridos, sendo a única opção de acesso as cavernas.

Esperando por todos, para dar as boas-vindas, está a infinita família dos macacos da espécie Macaca fascicularis, conhecida como macaco-cinomolgo ou macaco-de-cauda-longa. Eles são comuns no Sudeste Asiático.

Simpáticos, e ligeiros assaltantes de qualquer coisa que esteja em nossas mãos. Todos eles de cor amarelada, grandes, médios e pequenos, filhotes e adultos competem com os pedestres, pulando pelos corrimãos, e atentos para pegar algo quando o turista se distrai.

Sobe-se e se desce os degraus sob um forte calor úmido, concorrendo com turistas de todo o mundo, e driblando os inesperados assaltantes. Eles aguardam uma oportunidade para se apoderar de comidas, ou qualquer coisa que esteja em suas mãos. Enquanto circulei pelas escadas, nenhum deles atacou uma pessoa. Eles são malabaristas, cuidadosos, e assustam com os seus pulos.

Quando se chega a primeira, e imensa caverna com 60 metros de comprimento por 30 metros de altura, se enxerga mais degraus internos a serem vencidos para prosseguir para as outras duas cavernas. Nesse caso sem os macacos.

Ainda próximo à entrada do complexo, a estátua de Murugan se destaca pelo seu tamanho, e imponência. Murugan, também conhecido como Kartikeya é uma divindade importante no hinduísmo, especialmente no sul da Índia. Ele é o deus da guerra, da vitória, da sabedoria, e do crescimento espiritual.

Após a cansativa e exigente maratona o parque oferece a gastronomia malaia, bares e lojas de suvenires. O registro de fotos é propício, mas impossível de fazê-lo sem a presença dos assaltantes malabaristas. É um passeio interessante e perfeito, entretanto é necessário incorporar o espírito de Indiana Jones.


Marcos A F Franco

Setembro 2024

Cego, Surdo e Bem-casado

Enquanto caminhava na esteira da academia, ouvi de um personal trainer uma afirmação curiosa: “O casamento afeta os sentidos, especialmente ...