sábado, 19 de outubro de 2024

ROTARY, UM FUTURO SEM TERNO

“As mãos que ajudam são mais sagradas do que os lábios que rezam”. Frase proferida por Santa Madre Teresa de Calcutá.

Antes de ser canonizada, ela participou da Convenção International do Rotary de São Paulo, em 1981. Com certeza influenciou os rotarianos a adotarem o nome de Pessoas em Ação como lema do nosso atual plano estratégico. O Plano instituído a partir de 2018, na verdade é um Plano de Ação.

A Santa Teresa falava para confortar as pessoas, mas agia pessoalmente buscando fornecer cuidados médicos, abrigos, alimentos e educação aos pobres e doentes, sendo reconhecida mundialmente por seu trabalho humanitário.

Através de uma grande pesquisa mundial, cujo resultado foi exposto na Convenção International de Atlanta, em 2017, o Rotary pode entender que seus membros são vistos como Pessoas em Ação.

Internamente existem aqueles que discordam, quando afirmam que a vaidade pessoal e o uso demasiado da oratória ainda predominam. Entretanto, os rotarianos líderes na prestação de serviço, comprovam que viabilizar ações sociais e serviços para as comunidades mais vulneráveis, motiva e estimula o crescimento do nosso exército de voluntários.

Stephanie Urchick, atual presidente do Rotary International e presidente da comissão de planejamento estratégico, quando este foi implantado, disse: “O Plano nos ajudará a perceber o que é possível quando Pessoas em Ação se unem, se conectam com outras pessoas que compartilham dos nossos valores e se comprometem a criar mudanças em si mesmas e no mundo”.

Criar mudanças requer inovação, ou seja, fazer o melhor para as pessoas, de uma forma que as atraia, para se obter um resultado diferente e maior. Isso ocorre quando se desenvolve um projeto de subsídio global, em que levamos para muitas pessoas, soluções para carências em suas comunidades.

Para isso acontecer é necessário ação, mãos à obra, esforço pessoal, envolvimento, comprometimento e lideranças legítimas. São condições em que as pessoas envolvidas devem estar motivadas, não basta estarem informadas.

Muito se fala que a grande revolução atual é a inteligência artificial. Ela, certamente reinará doravante, porém ela se alimenta do que já é sabido, do que já foi feito. Enquanto a inovação é o novo, é o futuro. É um novo jeito de fazer, é escolher a estratégia correta para atingir as necessidades.

O futuro, o novo, a inovação e a ação não combinam com o terno. Sim, o terno dos rotarianos, símbolo das reuniões sociais. É um traje elegante e imponente, porém em decadência junto às novas gerações. O terno nos engessa, não permitindo a agilidade necessária para um Rotary gigante.

Para ampliar nosso impacto, expandir nosso alcance, aumentar o engajamento de todos os participantes e melhorar a nossa capacidade de adaptação, é necessária uma profunda reflexão e revisão de nossos modos operandi. Do contrário, continuaremos a fazer mais do mesmo, sem um crescimento de nossas fileiras e, consequentemente de nossas ações em todo o mundo.

Marcos A F Franco

Outubro 2024

 

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

UM VELHO SEDUTOR


Você, certamente sabe quem eu sou. Eu te conheço!

Eu sou um caroço quase marrom. Nasci vermelhinho, em uma planta, após 12 meses de boa adubação, sob sóis e chuvas.

A história da minha família teve início em Kaffa, na Etiópia, no século IX. Meu avô me contou que a minha família foi descoberta por que as cabras daquela região ficavam mais ativas quando tinham contato conosco. O Monge que vivia por lá acreditava que éramos filhos do diabo, até que certo dia em contato com o sol intenso, a gente produziu um cheiro agradável e mudamos de cor. Depois disso, todos começaram a nos apreciar, inclusive o senhor Monge.

A minha família se espalhou por todo o planeta. Em qualquer lugar, em diversos cantos é fácil de nos identificar. É só fechar o olho e ativar o seu olfato. Temos um aroma especial e inconfundível. Por ele ser agradável as pessoas nos procuram várias vezes ao dia.

O nosso gosto é inesquecível, por isso somos lembrados em inúmeros momentos sociais e de negócios. Criamos um ambiente leve e agradável, jogando a tensão para longe.

Fazemos boas parcerias, não existe quem não queira melhorar o seu paladar se misturando pouco ou muito, criando aromas e sensações diferentes. O leite nos deixa mais descorados e diminuindo a nossa intensidade. Os amigos alcoólicos como a cachaça e o whisky oferecem um relaxamento. A água colocada pelos cariocas incentiva os adeptos dos chás a nos conhecerem.

Se fossemos políticos, certamente não teríamos dificuldades em nos eleger. Convivemos com diversas classes sociais, diferentes ideologias e com todas as religiões, estando presentes em todas as atividades deles. Cada qual nos trata de uma forma e, apesar de escutarmos tudo o que eles dizem, não somos espiões.

Estamos presentes em qualquer lugar e em diversos momentos do dia de qualquer pessoa, de qualquer raça, sexo e gênero. Em momentos alegres somos lembrados e disputados para celebrações. Em momentos tensos e tristes somos lembrados para criar disposição e entusiasmo. Somos convidados para escutar depoimentos e insatisfações, substituindo por vezes um terapeuta.

Faça sol, chuva, calor ou frio, somos como um camaleão, nos adaptamos a qualquer ambiente e gosto. Suportamos guerras, terremotos, aventuras esportivas, alpinismo, multidões, longas jornadas intelectuais e viagens pelo deserto.

Temos nome de cor. Uma cor forte e vibrante que ao ser vista produz no cérebro das pessoas a sensação do aroma inconfundível que pede a nossa presença. Por vezes o relógio é substituído pela nossa hora, servindo de referência para agendamentos de compromissos.

Trazemos benefícios para saúde física e mental de quem nos procura, provocando efeito anti-inflamatório, auxiliando na digestão, melhorando o funcionamento do sistema cardiovascular, aliviando o estresse e ajudando na memória.

Sim, eu sou o café. Um pequeno e simples nome, mas um grande sedutor e alquimista. Consigo atrair milhões de pessoas e transformar alguns de seus minutos em momentos inesquecíveis.

Fevereiro 2024, Marcos A F Franco

Crônica finalista no Concurso Conteporânea de Literatura 2024.

Publicada no Jornal A Tribuna de Santos em 01/10/2024

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

O DIA EM QUE OS CANGURUS DESCOBRIRAM PELÉ


 

Até os cangurus aplaudiram Pelé.

Existem marcas e produtos que são conhecidas globalmente, como o café e a Coca-Cola. Recentemente, durante uma viagem a Singapura, pude comprovar que uma marca brasileira também possui esse alcance internacional.

Naquela cidade-estado, fui abordado por um simpático australiano de Five Dock. Ao perceber que eu era brasileiro, ele logo exclamou: “Eu conheci o Pelé!” De imediato, pensei: Bingo! Como assim? Pelé já faleceu. No entanto ele insistiu, com um entusiasmo contagiante.

Sua alegria era evidente enquanto narrava, em detalhes, a façanha do Santos Futebol Clube, liderado pelo imortal Pelé, em um amistoso contra a seleção de futebol da Austrália. O jogo aconteceu em 17 de junho de 1972, no Sidney Sports Ground, em Sidney.

Peter John Komander, o australiano, aparentava cerca de 70 anos de idade e foi um dos 32 mil espectadores presentes naquele histórico jogo na terra dos cangurus. Sua empolgação aumentou ainda mais ao descobrir que eu era santista, vindo da cidade adotada pelo nosso querido Rei.

Entusiasmado, John, pegou o celular e me mostrou a foto de um jornal do dia seguinte ao jogo. Ele guarda aquela imagem como um troféu, um símbolo para compartilhar com as gerações mais jovens. Em seguida, começou a narrar, com riqueza de detalhes, o gol do Pelé que ele presenciou bem próximo da trave do goleiro australiano.

Rico em detalhes, descreveu como o jogador santista Edu, após receber um lançamento, driblou seu adversário e deu o passe perfeito para o Pelé marcar um dos dois gols do Santos. O jogo terminou empatado, mas o espetáculo ficou gravado na memória de todos os presentes.

John continuou a narrativa com entusiasmo, elogiando os jogadores brasileiros e destacando a excelente performance de Edu, em especial o Pelé. Fez questão de ressaltar a habilidade de Edu no controle da bola e a sua ginga de corpo, que permitiu driblar o adversário com elegância. Após aquele jogo, John tornou-se fã do Santos e, claro, do Rei do Futebol.

É incontestável, em qualquer parte do mundo, o carinho, a admiração e o reconhecimento pelo desempenho do time do Santos Futebol Clube nos anos 60 e 70, assim como pelo jogador excepcional e incomparável, o inexplicável Pelé. Como brasileiro, escutar e sentir a vibração de uma pessoa do outro lado do mundo, de um país sem tradição no futebol, é algo emocionante e motivo de profundo orgulho.

Pelé construiu sua marca em uma época em que a comunicação era feita por rádio, revistas, jornais, uma televisão ainda incipiente, sem as mídias sociais que hoje tornam tudo instantâneo. Mesmo assim, sua imagem permanece viva na mente de milhões de pessoas em todo o mundo, sendo perpetuada para as gerações mais jovens.

Com sua simplicidade e genialidade, Pelé construiu um legado que transcenderá as gerações ao redor do planeta. Ele driblou adversários, conquistou nações e, sem dúvida, até os cangurus aplaudiram o Rei. 

Setembro 2024, Marcos A F Franco

Publicada no Jornal A Tribuna de Santos em 03/01/2025

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