Synchóresi, foi a palavra que mais ouvi no restaurante
de um navio grego.
Foi uma linda
viagem de sete dias navegando durante o verão europeu, em que qualquer foto
registrava as cores azuis do mar e do céu, realçadas por um sol intenso, alegre
e generoso. Visitei várias cidades históricas, em sua maioria, com casas em
penhascos, pintadas de branco, um contraste perfeito com o azul das águas
vibrantes do mar Egeu.
Conheci um
pouco de Athenas, Agrigento, Chios, Creta, Éfeso, Istanbul, Kusadasi, Mikonos,
Rodes, Santorini e Symi. Cada qual dessas joias guarda segredos, abriga
monumentos e mostram com naturalidade suas belezas milenares.
O nosso hotel
ambulante, navegável, zarpou do porto de Istanbul com mil pessoas a bordo. Sua
rotina diária, além promover o merecido descanso na cabine, priorizava o
restaurante, onde 3 vezes ao dia as refeições eram servidas. Invariavelmente,
pouco antes do início dos serviços, formava-se uma fila do lado de fora. No
primeiro dia, você conhece onde será o seu lugar dentro dele. Tem um ditado
grego que diz: procure o melhor, espere o pior e aceite o que vier. Essa é a expectativa
a caminho da sua mesa.
Os ditados
existem, não é por acaso. Assim que mais três casais se sentaram na mesa, o
nosso garçom oficial se apresentou, com a expectativa em demonstrar a sua
performance. Um tipo grego simpático, um pouco acima do peso normal, de baixa
estatura, conseguia se comunicar com certa dificuldade e mantinha visível, um bloco
de anotações em suas mãos. Ele nos entregou os cardápios, que para sua sorte,
era pequeno, contendo poucas opções. Ficamos mais tranquilos, pois, seria
difícil haver erros.
Pedidos
realizados, passamos para as apresentações pessoais dos ansiosos ocupantes da
mesa, iniciando uma grande viagem pelo mundo. Cada qual dos casais residia em
um canto do planeta, desde a Oceania, Europa, até as Américas. De repente, o
nosso prudente garçom nos interrompe para conferir os pedidos. Um a um, ele foi
confirmando os pratos escolhidos e cravou o seu primeiro “efcharistó”, é o costumeiro
obrigado em grego.
Entre
traduções dos integrantes da Torre de Babel, degustando vinho e o inigualável
azeite grego com pão, o tempo passou rápido. Logo, os pratos foram servidos.
Entretando, o nosso precavido e atrapalhado garçom, conseguiu errar. Ele, se
confundiu em quase todos os pedidos. Então, teve início a troca dos pratos, alguns
ele acertava e outros ele errava novamente, pois, também havia pratos de outra
mesa que fazia parte do seu setor. Tira prato, põe prato, confere com a
anotação, vai na cozinha, volta com outro prato. Foi uma verdadeira dança de
pratos, um show não previsto no restaurante.
Esse foi só o
primeiro jantar. Mas, como dizia o ditado grego, aceite o que vier. Afinal a
viagem era de turismo. Então vamos nos divertir.
No dia
seguinte, aconteceu o importante jantar do comandante, obrigatório em todos os
cruzeiros. As pessoas se vestem melhor, é oferecido um coquetel, o capitão
aparece para cumprimentar os passageiros e todos os tripulantes se esmeram em
suas tarefas.
O nosso atencioso
garçom acordou disposto a nos mostrar que além de exercer com maestria a sua
função, também era um excelente equilibrista. Desta vez, os pedidos viriam
certos, mas antes, a caminho de nossa mesa, carregando os pratos, embalados em
um plástico duro protetor, um, sobre o outro, ao olhar para um dos lados, ele esbarrou
em uma cadeira de outro lado. Os pratos, por pura teimosia ou animosidade a
ele, caíram no chão. Bum! Talvez o garçom tenha imaginado que era a hora da quebra
de pratos de uma festa grega.
A nossa
história com o garçom grego não acabava ali. No quarto dia da nossa aventura
gastronômica, resolvemos trocar de mesa. Buscamos uma outra, em outro setor, longe
do que estávamos. Afinal, o restaurante comportava ao menos 500 pessoas e,
pensamos em conhecer um outro colega do nosso surpreendente garçom. Após nos
acomodarmos na nova mesa, escutamos uma voz conhecida nos cumprimentando, com
muito entusiasmo: kalinychta. Acredite, era ele, o garçom acrobata, tentando
nos conquistar.
Apesar, das
trapalhadas, o garçom da terra de Platão, nos compensou com sua gentileza, nos
ensinando que a palavra grega synchóresi, significa perdão em português, por tantas
que foram as vezes que ele a proferiu. O ditado grego poderia ser completado,
acrescentando em seu final: .... aceite o que vier, você aprenderá algo.
Dezembro 2023, Marcos A F Franco

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