sábado, 10 de fevereiro de 2024

Um certo garçom grego


 

Synchóresi, foi a palavra que mais ouvi no restaurante de um navio grego.

Foi uma linda viagem de sete dias navegando durante o verão europeu, em que qualquer foto registrava as cores azuis do mar e do céu, realçadas por um sol intenso, alegre e generoso. Visitei várias cidades históricas, em sua maioria, com casas em penhascos, pintadas de branco, um contraste perfeito com o azul das águas vibrantes do mar Egeu.

Conheci um pouco de Athenas, Agrigento, Chios, Creta, Éfeso, Istanbul, Kusadasi, Mikonos, Rodes, Santorini e Symi. Cada qual dessas joias guarda segredos, abriga monumentos e mostram com naturalidade suas belezas milenares.

O nosso hotel ambulante, navegável, zarpou do porto de Istanbul com mil pessoas a bordo. Sua rotina diária, além promover o merecido descanso na cabine, priorizava o restaurante, onde 3 vezes ao dia as refeições eram servidas. Invariavelmente, pouco antes do início dos serviços, formava-se uma fila do lado de fora. No primeiro dia, você conhece onde será o seu lugar dentro dele. Tem um ditado grego que diz: procure o melhor, espere o pior e aceite o que vier. Essa é a expectativa a caminho da sua mesa.

Os ditados existem, não é por acaso. Assim que mais três casais se sentaram na mesa, o nosso garçom oficial se apresentou, com a expectativa em demonstrar a sua performance. Um tipo grego simpático, um pouco acima do peso normal, de baixa estatura, conseguia se comunicar com certa dificuldade e mantinha visível, um bloco de anotações em suas mãos. Ele nos entregou os cardápios, que para sua sorte, era pequeno, contendo poucas opções. Ficamos mais tranquilos, pois, seria difícil haver erros.

Pedidos realizados, passamos para as apresentações pessoais dos ansiosos ocupantes da mesa, iniciando uma grande viagem pelo mundo. Cada qual dos casais residia em um canto do planeta, desde a Oceania, Europa, até as Américas. De repente, o nosso prudente garçom nos interrompe para conferir os pedidos. Um a um, ele foi confirmando os pratos escolhidos e cravou o seu primeiro “efcharistó”, é o costumeiro obrigado em grego.

Entre traduções dos integrantes da Torre de Babel, degustando vinho e o inigualável azeite grego com pão, o tempo passou rápido. Logo, os pratos foram servidos. Entretando, o nosso precavido e atrapalhado garçom, conseguiu errar. Ele, se confundiu em quase todos os pedidos. Então, teve início a troca dos pratos, alguns ele acertava e outros ele errava novamente, pois, também havia pratos de outra mesa que fazia parte do seu setor. Tira prato, põe prato, confere com a anotação, vai na cozinha, volta com outro prato. Foi uma verdadeira dança de pratos, um show não previsto no restaurante.

Esse foi só o primeiro jantar. Mas, como dizia o ditado grego, aceite o que vier. Afinal a viagem era de turismo. Então vamos nos divertir.

No dia seguinte, aconteceu o importante jantar do comandante, obrigatório em todos os cruzeiros. As pessoas se vestem melhor, é oferecido um coquetel, o capitão aparece para cumprimentar os passageiros e todos os tripulantes se esmeram em suas tarefas.

O nosso atencioso garçom acordou disposto a nos mostrar que além de exercer com maestria a sua função, também era um excelente equilibrista. Desta vez, os pedidos viriam certos, mas antes, a caminho de nossa mesa, carregando os pratos, embalados em um plástico duro protetor, um, sobre o outro, ao olhar para um dos lados, ele esbarrou em uma cadeira de outro lado. Os pratos, por pura teimosia ou animosidade a ele, caíram no chão. Bum! Talvez o garçom tenha imaginado que era a hora da quebra de pratos de uma festa grega.

A nossa história com o garçom grego não acabava ali. No quarto dia da nossa aventura gastronômica, resolvemos trocar de mesa. Buscamos uma outra, em outro setor, longe do que estávamos. Afinal, o restaurante comportava ao menos 500 pessoas e, pensamos em conhecer um outro colega do nosso surpreendente garçom. Após nos acomodarmos na nova mesa, escutamos uma voz conhecida nos cumprimentando, com muito entusiasmo: kalinychta. Acredite, era ele, o garçom acrobata, tentando nos conquistar.

Apesar, das trapalhadas, o garçom da terra de Platão, nos compensou com sua gentileza, nos ensinando que a palavra grega synchóresi, significa perdão em português, por tantas que foram as vezes que ele a proferiu. O ditado grego poderia ser completado, acrescentando em seu final: .... aceite o que vier, você aprenderá algo.

Dezembro 2023, Marcos A F Franco

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