quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Sanduíche do guerreiro


Estive em Bizâncio, uma das cidades mulçumanas mais antigas do mundo. Ela foi fundada no século VII a.C., hoje chamada de Istambul, na Turquia. Já foi conhecida por outros nomes como: Nova Roma, Constantinopla, Cidade das Sete Colinas, Rainha das Cidades e Porta da felicidade.

Seus quinze milhões de habitantes vivem em dois continentes, o europeu e o asiático, separados pelo estreito de Bósforo no mar de Mármara, no estuário do Corno de Ouro. A palavra corno geralmente diz respeito a traição, tão utilizada nas diversas guerras que essa cidade viveu, mas neste caso, refere-se a 2 chifres que existiam antigamente, em uma torre construída no estreito de Bósforo, para proteção da cidade.

Por apenas 500 metros se consegue transitar entre os dois continentes, a pé, de bicicleta, de moto ou de automóvel, pela ponte de Gálata ou, através de barcos. Sobre a ponte, diariamente, trafegam milhares de veículos e, por de baixo dela, navegam centenas de navios e embarcações, todos eles observados por uma paisagem esplêndida.

Devido a sua localização estratégica para o comércio, a cidade foi possuída por vários povos, até que no meio do século XV os otomanos, liderados por Maomé II a conquistaram definitivamente, reconhecendo-a como a capital do seu império.

É fácil perceber nos Istanbullus a imensa história impregnada em sua forma de ser e no tratamento com os turistas. No Grande Bazar, onde cerca de 300 mil pessoas circulam diariamente por suas 2.000 lojas, cuja construção se deu no início da era otomana, predomina o comércio de tapetes, especiarias, joias e cerâmica. Os bons guerreiros conseguem vencer batalhas com os mercadores do Bazar, ou pelo menos, eles nos fazem nos sentir assim. São hábeis em sua lida. Visitar esse grande centro comercial é um desafio para os nossos desejos e um verdadeiro laboratório para se desenvolver no comércio.

Fui derrotado em uma pequena batalha quando comprei um sanduíche. Como turista, fiquei encantado com tudo que vi em Istambul, como a Basílica Santa Sofia, a Mesquita Azul, o Banho Turco, a cidade nova e centro financeiro Taksim, o transporte fácil, a Cisterna da Basílica, seus museus, palácios e inúmeras construções antigas.

A magnífica praça da Basílica Santa Sofia, abriga o comércio de rua de alimentação. Lá, eu não resisti à imagem de um sanduíche bem elaborado em uma baguete, onde o queijo e o presunto se mostravam dobrados. Ele era oferecido em uma pequena barraca. Imediatamente o pedi ao soldado turco, sim, após o ato consumado, foi dessa forma que eu passei a enxergar esse comerciante de lanches. Ele, envolveu o belo sanduíche em um guardanapo e me entregou. Claro que o nosso negócio aconteceu por mímica, pois não falávamos uma língua comum. Ao me sentar em um banco, desejoso por saborear esse sanduíche turco, após morder o primeiro pedaço, percebi que o recheio, que aparentava ser consistente, existia em somente um dos lados, justamente o lado que ficava amostra na barraca do soldado turco. Como derrotado, foi assim que me senti. Não ousei discutir com o nativo soldado.

As nossas origens são o nosso DNA. Somente o tempo e a interação com outras culturas promoverão mudanças em nossas gerações. Minha esperança é que meus netos possam no futuro, provar um sanduíche completo e que o espírito da paz entre as nações seja um objetivo de todos os cidadãos.

Dezembro 2023, Marcos A F Franco

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Uma viagem profunda no VLT


Foi uma viagem curta, porém profunda. Assisti a um filme de 40 minutos, com atores locais em um grande cenário, de 11,5 quilômetros de extensão, desde o cais do Porto de Santos até o cruzamento da Rodovia dos Imigrantes com a Avenida Martins Fontes, em São Vicente. Foi possível assisti-lo, confortavelmente, e sentir as diferentes realidades da ilha de São Vicente.

Após 8 anos implantado nas duas cidades da Baixada Santista, fui, junto com meu neto Gael, conhecer o VLT, o modelo caiçara do metrô de superfície. Era um domingo de verão, em plena primavera, no início da manhã, mas aparentando o meio-dia. O sol, ainda se levantando, já demonstrava sua energia, testemunhado somente por um céu azul, sem a presença das intrusas nuvens. É a melhor iluminação para se gravar imagens perfeitas.

Ao chegarmos na estação, uma senhorinha simpática, segurando as suas compras feitas na tradicional feira livre da Glicério, gentilmente nos explicou como deveríamos embarcar. Ela permanecia em pé após a saída do silencioso VLT e, desembarcou no ponto seguinte.

Enquanto aguardávamos a chegada do VLT, pudemos folhear alguns livros expostos no display do programa de leitura da Prefeitura. A estação localizada na Avenida Ana Costa, na cidade de Santos, no canteiro central da Avenida Francisco Glicério, estava bem cuidada, com aspecto de nova e nos recebeu carinhosamente.

Ao embarcar, a sensação do calor foi embora. O veículo era equipado com ar-condicionado e com ótimas poltronas, o que tornou nossa pequena viagem-filme ainda mais especial. Não tínhamos ideia de que após duas estações o cenário externo se alteraria completamente.

De repente, tudo ficou escuro, entramos em um túnel, foi como se a tela do cinema deixasse de reproduzir as imagens, ou como se estivéssemos em um trem fantasma no parque de diversões, onde seres e coisas estranhas aparecem para assustar. Após alguns momentos, o sol reapareceu e, junto com ele, figuras humanas, essas reais, magras, imundas, cambaleantes com garrafas ou cigarros em suas mãos, em um ambiente com lixo, assustavam, naturalmente a plateia dentro do VLT. Esse ponto é conhecido por Cracolândia, justo no limite entre as duas cidades.

Esse trecho da viagem-filme não tinha cor, era em preto e branco. Um defeito da produção que há muito tempo não encontra a solução para a performance desses atores viciados e dependentes químicos. São momentos deprimentes e assustadores. É uma cena de terror!

O VLT seguiu, avançando pela cidade de São Vicente, em um cenário mais aberto exibindo a bela praia de Itararé. Pessoas com roupas leves caminhando em direção ao mar, desciam do VLT sorrindo na expectativa de pisar na areia quente e se refrescar no mar trazido por ondas disputadas por surfistas.

À medida que avançávamos o cenário se alterava, apresentando inúmeras casas residenciais, em sua maioria geminadas e pequenas, com lixos nas calçadas, lembrando uma melancolia ou, depressão coletiva. Talvez ainda fosse o reflexo da pandemia do COVID 19? Ou questões estruturais da cidade?

Faltando 4 estações para o ponto final, com pessoas embarcando e desembarcando, surge um personagem pedindo ajuda financeira para compra de remédios. O pseudo enfermo, após ser interpelado pela fiscal do vagão, alegou que desconhecia a lei da proibição desse ato e sentou-se atravessado em dois bancos fazendo cara de coitado. Meu neto, levou um susto, correndo para ficar ao meu lado.

Ao chegarmos ao ponto final, na Estação dos Barreiros, descemos para aguardar por 20 minutos o retorno do espetáculo. Era o intervalo do filme. A sensação era um misto de vitória, por ter chegado ao destino do passeio, ao mesmo tempo, de espanto por assistir um trecho do filme com um cenário pobre e deteriorado. Quem é o diretor desse filme? Quem são os cenógrafos? Dúvidas inevitáveis de quem vive e assisti esse filme diariamente.

Embarcamos de volta, junto com diversas pessoas e novos atores, cada qual vestindo seus figurinos. Algumas com trajes de banho, outras bem tatuadas, uma variedade de penteados, gente com sacolas na mão. Os mais jovens equipados para aproveitar uma praia, não demonstravam preocupações com a condição do cenário. Os mais velhos, aparentavam um semblante triste, com um olhar perdido, talvez acostumados com esse visual de fundo, desprezavam uma alteração no enredo dessa história.

Ao retornarmos, após o desembarque e final do filme, meu neto comentou que gostou do VLT, mas ficou incomodado com a pobreza do cenário, com o lixo que viu pelo caminho, com os personagens assustadores no limite entre as duas cidades e o aspecto degradado das residências em São Vicente.

São Vicente, a primeira cidade do Brasil merece um cuidado maior, ainda que o seu orçamento possa ser insuficiente para resolver questões estruturais. Acredito que falte ao poder público trabalhar a informação, conscientização e propor a mudança cultural dos seus habitantes, iniciando pelas escolas. Reunir arquitetos para estimular alguns cuidados básicos em cada residência e, implantar um programa de reciclagem do lixo.

Novembro 2023, Marcos A F Franco

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