domingo, 12 de novembro de 2023

Degustando cerveja no deserto


 

A primeira vez que visitei Dubai, estava acompanhado de outros compatriotas de diferentes estados brasileiros. Cada qual deles, carregando suas culturas, costumes, forma de falar e o seu modo, inconfundível de agir, característico de cada região de origem.

Tinha paulista preocupado com o cumprimento dos horários da excursão, tinha gaúcho buscando água quente para o seu chimarrão, tinha mineiro procurando o pão de queijo, tinha baiano tentando visitar igrejas e os cariocas desapontados por não encontrarem um boteco. Todos eles diferentes um do outro, e mais ainda em relação ao jeito de ser do povo árabe, habitantes dessa cidade-emirado dos Emirados Árabes Unidos, a magnífica Dubai.

Assim que desembarcamos do avião, pudemos admirar a imensidão e a suntuosidade do aeroporto. É um aeroporto HUB, que serve como centro de distribuição de milhares de voos entre o ocidente e o oriente.

Ao passarmos pela inspeção de segurança, nos deparamos com agentes barbados e utilizando o seu característico kufiyya, o famoso lenço branco ou xadrez, utilizado na cabeça, e que originariamente servia para proteção do vento do deserto. Uma marca do povo local. Eram homens fortes e sérios, não distribuíam sorrisos de boas-vindas.

Quando, saímos do aeroporto recebemos uma acalorada recepção do sol. Em Dubai chove em média 30 dias por ano e a temperatura, na sombra, pode chegar a 45 graus centígrados. Compreendemos o porquê da vestimenta da cor branca, utilizada pela maioria dos poucos mais de 2 milhões de emiradenses. Os meios de transportes são equipados com ar-condicionado, especialmente o luxuoso metro de superfície.

Em Dubai fica patente o sangue mercador dos árabes. Você encontra centenas de suqs, mercado para os brasileiros. Existem diversos suqs de ouro, tapetes, roupas, alimentos e frutas secas. Há também 2 shoppings centers imensos, frequentados por turistas de todo o mundo.

A bebida mais consumida pelos árabes é o chá. Eles o ingerem durante todo o dia e durante as refeições. A bebida alcoólica é proibida, sendo permitido o seu consumo apenas nas residências e em alguns hotéis internacionais, mediante o pagamento de um alto imposto. Nem mesmo a cerveja, a queridinha dos brasileiros, é permitida. A sede só é saciada através da água. Produto que é importado por eles. A água é um líquido precioso por lá, tanto que eles a produzem, em parte, através de usinas de dessalinização da água do mar.

Percorrendo as imensas avenidas, bem planejadas, avistamos centenas de edifícios gigantes com uma arquitetura moderna e arrojada. Subimos no mais alto do mundo, o Burj Khalifa, com 828 metros de altura. Você se sente pequenino, quando, próximo da sua entrada, ao olhar para cima e tentar enxergar o seu último andar. Ele possui um elevador tão rápido, onde os milhares de turistas que fazem a reserva, de sua utilização, com no mínimo um mês de antecedência, sentem-se em um foguete.

Ao chegar no topo do Burj, a sensação é de estar pousando na lua. Lá do alto, ao olhar para baixo, é como se estivesse enxergando um mapa pequeno da cidade em um papel, tal é a distância para o solo.

Existem prédios de diversos formatos, inclusive um hotel que se assemelha a um barco a vela. Esse prédio está situado próximo a entrada de um condomínio de ilhas artificiais. Quando vistas de cima, as ilhas formam o desenho de uma imensa palmeira.

Os sheiks souberam investir suas riquezas, originadas da abundância petrolífera, na construção de uma cidade suntuosa.

A religião islâmica é praticada pela maioria dos residentes. Eles fazem o salat voltados para Meca, pelo menos 5 vezes ao dia. As mesquitas disparam suas sirenes para lembrá-los, em cada horário estabelecido. Onde estiverem, ao ouvir o som delas, eles se dirigem às mesquitas ou, a espaços reservados para suas orações obrigatórias.

A culinária local é diversificada e conquistadora. Os quibes, esfirras, charutos, tabules, falafel, tahine, homus, kafta e todas as demais iguarias típicas são elaboradas com diversos temperos de todo o mundo. Dubai sempre foi um porto de passagem de navios do oriente, que seguiam para o ocidente, alguns deles, carregados de especiarias.

Visitamos o deserto e conhecemos o camelo, o principal meio de transporte desse ambiente árido. Mas a modernidade permitiu que um outro veículo pudesse ser utilizado por lá. Andamos em uma pick-up especial, com os pneus murchos, subindo e descendo as areias, quase vermelhas, como se fossem grandes quebra-molas.

Em cada local que conhecíamos, a reação da torre de babel brasileira era uma. Ao final da aventura no deserto, com o sol se pondo, já cansados e suados, fomos conhecer um acampamento de nômades. Um local para descansar e beber água, provido de tendas, no piso de areia. Mas esse, em especial, era para turistas, portanto, encontramos uma diversidade de comidas típicas, água, sucos e, a cerveja Heineken.

Foi um momento mágico para os brasileiros, enquanto aguardávamos um show típico.  O mineiro exclamou bem alto: “eita trem bão”, o gaúcho falou: “bá tchê”, o baiano deu risada, falando calmamente: “é massa”, o paulista arregalou os olhos e disse: “mó legal” e o carioca gritou: “isso é maneiro”.

Entretanto, o mineiro ao ver o preço da cerveja falou: - uai, tá muito caro sô! Ele ficou indignado e exclamou: - como pode uma lata de 350 ml custar 5 vezes mais caro, que pago no supermercado do meu bairro? Tive que lembrá-lo que ele estava no deserto, que para uma cerveja chegar até lá, além do custo do transporte, tinha um imposto alto, taxado pelo governo. Claro que ele comprou a cerveja e, provou que como um bom mineiro, conseguiu degustá-la no deserto.

É assim, viajar é experimentar, é sentir, é viver situações novas, é ver o que os povos são capazes de fazer, é ouvir sons inusitados, é saborear iguarias com temperos particulares, é sentir o tempo e o vento, é se queimar no sol, é andar muito, é subir e descer escadas e ladeiras, é degustar bebidas típicas, é se perder em mercados, é admirar obras de artes, é se contagiar com a cordialidade das pessoas desconhecidas, enfim, é se emocionar.

Viajando, você descortina o desconhecido, arquivando suas sensações em sua memória.

Ao entender como cada povo vive, percebemos que as diferenças entre nós são apenas os costumes, sotaques e dialetos de cada região do mundo.

Outubro 2023, Marcos A F Franco

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